Raízen confirma acordo com credores para reestruturar R$ 64,7 bilhões em dívidas
A Raízen, gigante do setor de energia e agronegócio, anunciou na madrugada desta sexta-feira (6) um marco significativo em sua trajetória financeira: a obtenção de adesão de credores para apresentar à Justiça um plano de reestruturação de sua dívida total de R$ 64,7 bilhões. Este movimento configura a maior recuperação extrajudicial já realizada no Brasil, um processo que agora aguarda a homologação judicial para se concretizar.
O acordo representa um alívio considerável para a companhia, que vinha enfrentando desafios para sanar seu endividamento. A adesão relevante de todos os grupos de credores – incluindo detentores de títulos internacionais, debenturistas, certificados de recebíveis do agronegócio (CRA) e bancos – que representam aproximadamente 75% das obrigações, demonstra um voto de confiança no futuro da empresa e em seu plano de recuperação. É importante notar que fornecedores, clientes e revendedores não terão seus créditos reestruturados neste plano específico.
O plano de reestruturação prevê aportes financeiros substanciais para fortalecer a operação. A Shell, uma das acionistas da Raízen, comprometeu-se a investir R$ 3,5 bilhões. Adicionalmente, Rubens Ometto, acionista controlador da Cosan e figura central na Raízen, poderá investir R$ 500 milhões por meio de seu fundo familiar Aguassanta. Ambos os aportes serão realizados mediante a emissão de ações ordinárias da companhia.
Como a dívida da Raízen será reestruturada
A estratégia central do plano envolve a conversão de uma parcela significativa das dívidas em participação acionária na Raízen. Cerca de 45% da dívida dos credores aderentes será transformada em ações ordinárias, com o valor da ação fixado em R$ 0,25. Os 55% restantes serão reestruturados através da emissão de novos títulos de dívida, seja por meio de substituição, refinanciamento ou aditamento dos contratos existentes.
O acordo também contempla mecanismos para facilitar a quitação de débitos menores. Haverá opções de pagamento com desconto sobre o valor dos créditos reestruturados. Para credores com obrigações de menor valor, uma opção com pagamento antecipado e com desconto será oferecida, limitada a um montante total de R$ 150 milhões para quitar esses débitos menores. O pagamento à vista para esses casos terá um teto de R$ 9.750 por credor.
Desinvestimentos e reestruturação operacional
Em paralelo à reestruturação financeira, a Raízen pretende dar continuidade ao seu plano de desinvestimentos. Um exemplo recente foi o anúncio, na última quinta-feira (4), da venda de seus negócios na Argentina. Essa estratégia visa otimizar o portfólio da empresa e focar em suas áreas de maior potencial.
Um dos planos mais ambiciosos da Raízen é a separação de suas operações em duas unidades distintas até o final de 2027. A Raízen Energia concentrará os negócios de etanol, açúcar e bioenergia, enquanto a Raízen Combustíveis ficará responsável pela distribuição de combustíveis e lubrificantes sob a marca Shell.
O caminho até a recuperação extrajudicial
As negociações que culminaram neste acordo se estenderam por aproximadamente dois anos, antecedendo o pedido de recuperação extrajudicial formalizado em março deste ano. Inicialmente, a intenção não era recorrer a esse tipo de processo. No entanto, as dificuldades em definir os valores exatos dos aportes da Cosan e da Shell para cobrir o endividamento levaram a Raízen a considerar a recuperação extrajudicial como uma alternativa viável para viabilizar a reestruturação.
A postura da Shell em não querer realizar um aporte substancialmente maior que o da Cosan foi um dos pontos cruciais nas negociações. Historicamente, desde a criação da Raízen em 2011, Cosan e Shell sempre mantiveram participações semelhantes na distribuidora de combustíveis.
Por que a dívida da Raízen disparou?
O elevado endividamento da Raízen é atribuído, em grande parte, aos investimentos em novas tecnologias e à expansão de suas operações. Um dos focos de investimento foi a produção de etanol de segunda geração (E2G). O E2G, produzido a partir de resíduos vegetais como bagaço e palha de cana-de-açúcar, é visto como uma aposta para a redução das emissões de carbono. Contudo, essa tecnologia é mais complexa e cara que o etanol de primeira geração.
O E2G tem enfrentado a concorrência do etanol de milho, que tem impulsionado o avanço de concorrentes como Inpasa e FS. A Raízen, como principal produtora de etanol de cana-de-açúcar no Brasil, viu sua estrutura de custos se elevar com a aposta em tecnologias mais sofisticadas.
Diante do endividamento crescente, a empresa precisou se desfazer de ativos. Um exemplo foi a venda de uma usina com quase um século de história na região de Ribeirão Preto, tradicional polo do setor sucroalcooleiro.
A Raízen atua em todas as etapas da cadeia produtiva da cana-de-açúcar, desde a produção até a distribuição. Atualmente, a companhia comercializa mais de 30 bilhões de litros de combustíveis anualmente, opera mais de 8.000 postos da marca Shell e gerencia 70 terminais de distribuição, atendendo aeroportos e mais de 5 mil empresas no país. Globalmente, a Raízen está presente no Brasil, Estados Unidos, França, Alemanha e Indonésia.
A aposta frustrada no varejo com a Oxxo
Em 2019, a Raízen deu um passo ousado ao ingressar no mercado de varejo com a introdução da rede de lojas de conveniência Oxxo, em parceria com o grupo mexicano Femsa. Essa empreitada, no entanto, foi vista por analistas como uma distração, pois se afastava do core business da empresa.
A expansão da rede Oxxo demandou um investimento de capital expressivo, com a abertura de centenas de unidades no Brasil. Contudo, o retorno financeiro esperado não se concretizou. Após tentativas de encontrar compradores para sua participação, os acionistas de referência, Cosan e Shell, decidiram abandonar o projeto.
A joint venture chegou ao fim em 2025, com a Femsa reassumindo a administração das lojas Oxxo no país. A Raízen manteve a gestão das mais de 1.300 lojas Shell Select e Shell Café. A operação da Oxxo no Brasil nunca atingiu o ponto de equilíbrio financeiro, sendo um fator agravante para a atual crise de endividamento da Raízen.
Próximos passos e perspectivas para a Raízen
Com a confirmação do acordo com os credores, a Raízen dá um passo crucial para a sua estabilização financeira. A homologação judicial do plano será o próximo grande desafio. A reestruturação financeira, combinada com os planos de desinvestimento e a futura cisão operacional, visa posicionar a empresa para um futuro mais sustentável e rentável.
A capacidade da Raízen de executar essas estratégias será fundamental para reconquistar a confiança do mercado e dos investidores. A empresa busca agora consolidar suas operações, otimizar sua estrutura de custos e capitalizar sobre suas áreas de atuação mais promissoras, especialmente no setor de energia renovável e distribuição de combustíveis.