Estagnação econômica: a verdadeira ameaça ao mercado de trabalho, segundo especialista
São Paulo – Em meio a debates acalorados sobre o potencial da inteligência artificial (IA) em dizimar empregos, uma perspectiva contrapõe o alarmismo predominante. Aaron Benanav, historiador e sociólogo da Universidade Cornell, autor de “Automação e o Futuro do Trabalho”, defende que a verdadeira vilã para a empregabilidade global não é a tecnologia, mas sim uma economia mundial em processo de estagnação. Essa condição, segundo ele, limita a capacidade de geração de novas vagas e precariza as existentes, afetando de forma mais severa os trabalhadores de entrada.
Benanav esteve no Brasil em maio para divulgar seu livro e concedeu entrevista à Folha, onde detalhou sua visão. Ele argumenta que a preocupação excessiva com a IA mascara um problema estrutural mais profundo: a desaceleração do crescimento econômico, impulsionada pela transição para o setor de serviços, que possui taxas de produtividade mais baixas e menor capacidade de absorção tecnológica em comparação com a indústria.
A inteligência artificial, embora disruptiva, tende a impactar de forma mais localizada e, segundo Benanav, pode até mesmo beneficiar alguns trabalhadores de nível médio, ao passo que precariza a situação dos mais jovens e com menos experiência. A “desqualificação digital”, termo cunhado para descrever como a tecnologia pode ser usada para aumentar a competição por postos de trabalho e reduzir salários, é uma preocupação central do autor.
O ceticismo em relação ao impacto da IA nos empregos
Benanav demonstra ceticismo em relação às previsões alarmistas sobre a capacidade da IA de eliminar massivamente postos de trabalho. Ele aponta que os métodos utilizados para essas projeções historicamente falharam em antecipar corretamente o desaparecimento de vagas. “Quando usaram esse mesmo método nos anos 2010, quando o temor era que os empregos seriam tomados por robôs, estavam muito errados. E não é só que estavam errados: muitos dos empregos previstos para declínio, na verdade, se expandiram”, afirma.
A lógica por trás dessa ressalva reside na complexidade da automação. Benanav explica que a eliminação de empregos por novas tecnologias não é linear. Existe uma barreira: a tecnologia automatiza certas tarefas, mas frequentemente exige mais trabalhadores humanos para as novas funções que surgem ou para as tarefas que a tecnologia ainda não consegue realizar eficientemente. “Há uma barreira: o computador faz certas tarefas, mas você precisa de mais humanos para as outras que surgem. Se esse número for mais de 50%, digamos 55%, então o número de pessoas naquele trabalho diminui uns 6%. Não é algo catastrófico”, pondera.
Em vez de uma destruição generalizada, Benanav prevê que a IA promoverá um reequilíbrio no mercado de trabalho, com impactos mais concentrados em setores específicos. “O que vamos ver é o equilíbrio entre trabalhos mudar com a IA. Pode haver impacto, mas ele tende a ser mais localizado em certos empregos, não espalhado por todos.”
IA e a precarização dos empregos de entrada
Contrariando a ideia de que a IA facilitaria a entrada de trabalhadores menos qualificados no mercado, Benanav observa o oposto. “Até agora, a IA parece afetar mais os trabalhadores de entrada, os jovens trabalhadores, do que aqueles de nível médio.” Essa tendência leva a um fenômeno preocupante que ele chama de “desqualificação digital”.
Essa desqualificação ocorre quando tecnologias permitem aos empregadores acessar um leque maior de trabalhadores, aumentando a competição e, consequentemente, pressionando os salários para baixo. Um exemplo prático citado é o das plataformas de transporte, como o Uber. “O Uber não faz ser mais rápido dirigir de um lugar a outro, mas tornou possível contratar motoristas que não conhecem as ruas da cidade. Dessa forma, o aplicativo usou a tecnologia para acessar um número muito maior de trabalhadores, o que pressiona o rendimento dos motoristas.”
A preocupação é que a IA possa ser utilizada de forma similar, aumentando a oferta de mão de obra para certas funções e reduzindo a remuneração. No entanto, Benanav vislumbra um cenário complexo: se a IA criar menos empregos para iniciantes, trabalhadores de nível médio, com mais conexões e habilidades sociais, poderiam, paradoxalmente, se beneficiar em termos salariais. Contudo, ele reforça que o problema central persiste: a economia global não cresce em ritmo suficiente para gerar empregos de qualidade em larga escala.
A raiz do problema: a estagnação econômica global
A estagnação econômica, segundo Benanav, remonta a uma mudança estrutural ocorrida a partir da década de 1970. Anteriormente, a industrialização de atividades permitia um crescimento exponencial da produtividade, pois o trabalho era ampliado com o uso de máquinas e ferramentas. Esse modelo impulsionou o rápido desenvolvimento das economias.
No entanto, a partir dos anos 1970, observou-se uma queda na porcentagem de pessoas empregadas na indústria, com a maioria migrando para o setor de serviços. O setor industrial é caracterizado pela padronização do trabalho, o que facilita a automação e o aumento da produtividade. Em contraste, o setor de serviços apresenta taxas de crescimento de produtividade muito mais baixas e uma capacidade limitada de usar a tecnologia para acelerar o trabalho.
A empolgação em torno de robôs e IA, na visão de Benanav, reside na esperança de tornar os serviços mais produtivos. Contudo, a aplicação prática enfrenta desafios. “No caso dos robôs, vemos muitos robôs industriais, mas quase nenhum robô de serviço, porque serviços são não padronizados”, explica. A IA demonstra potencial para o trabalho não padronizado, mas ainda lida com problemas como as “alucinações” (informações incorretas geradas pelo sistema), que impedem sua adoção generalizada e eficiente. “Muitas empresas reportam estar gastando muito e ganhando pouco em eficiência com essas tecnologias”, observa.
Economia de plataformas e a precarização do trabalho
A economia de plataformas, como aplicativos de entrega e transporte, é vista por Benanav como um laboratório para a precarização do trabalho. Nesses modelos, a tecnologia é utilizada para “desqualificar digitalmente” o trabalho, permitindo que um número maior de pessoas o execute e, consequentemente, reduzindo salários.
Além disso, essas plataformas frequentemente empregam ferramentas digitais de vigilância, monitorando cada movimento do trabalhador. “Se essas tecnologias forem usadas, queremos que seja para melhorar produtividade e eficiência, pois isso gera crescimento econômico. Quando usadas para reduzir salários via vigilância e desqualificação, é um fenômeno socialmente negativo”, argumenta.
Apesar dos aspectos negativos, Benanav reconhece um lado positivo na economia de plataformas: a autonomia. Para alguns trabalhadores, a flexibilidade de horários e a maior independência no processo de trabalho podem ser atrativas, especialmente em comparação com empregos formais considerados rígidos. No entanto, essa autonomia vem acompanhada de maiores riscos assumidos pelo trabalhador.
Ele alerta para o fenômeno do subemprego, onde baixos índices de desemprego são mascarados pela proliferação de empregos de baixa qualidade. “Muitas pessoas acabam nesses empregos em vez de permanecer desempregadas. E o efeito é que as pessoas trabalham, mas a desigualdade pode crescer.”
A busca por trabalho de qualidade e a semana de quatro dias
A rejeição de muitos jovens ao emprego formal tradicional, percebida no Brasil e em outros países, é vista por Benanav como uma resposta à falta de qualidade e controle oferecidos por muitos postos de trabalho. “Faz sentido que os jovens busquem sair desse sistema que oferece empregos entediantes, com pouco controle”, comenta. A busca por autonomia, como a de se tornar influenciador digital, reflete um desejo por bem-estar que a economia atual falha em proporcionar, embora as chances de sucesso sejam limitadas.
Nesse contexto, Benanav apoia fervorosamente o movimento pela redução da jornada de trabalho, como a semana de quatro dias. Ele argumenta que essa medida pode aumentar a produtividade e a felicidade dos trabalhadores, mantendo os salários. Mais importante, em um cenário de alto desemprego, a redução da oferta de horas de trabalho pode fortalecer o poder de barganha dos trabalhadores e impulsionar os salários.
“Reduzir o número de horas pode criar um ambiente mais positivo para conseguir melhores empregos e reverter tendências de queda de qualidade. Por tudo isso, acho muito positivo e espero que as pessoas lutem mais por isso”, conclui.
Raio-X: Aaron Benanav
- Idade: 42 anos
- Ocupação: Professor assistente no Departamento de Desenvolvimento Global da Universidade Cornell.
- Formação: Historiador e sociólogo.
- Pesquisa: Abrange automação, futuro do trabalho, desemprego, subemprego, desenvolvimento econômico e sistemas econômicos alternativos.
- Obra principal: “Automação e o Futuro do Trabalho” (publicado originalmente em 2020, traduzido para 10 idiomas).
- Projetos atuais: Pesquisa sobre planejamento econômico e democracia, e história global do desemprego desde 1940.
A análise de Aaron Benanav oferece uma perspectiva crucial para entender os desafios do mercado de trabalho contemporâneo, deslocando o foco da tecnologia para as dinâmicas econômicas estruturais que moldam o futuro do emprego.