Fluxo de voos domésticos no Brasil pode cair abaixo de 90 milhões de passageiros
A Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA) projeta uma redução significativa no fluxo de passageiros em voos domésticos no Brasil, com a expectativa de que o número anual caia para menos de 90 milhões. Essa previsão, divulgada pelo vice-presidente para Américas da entidade, Peter Cerdá, em entrevista recente, contrasta com o recorde de mais de 100 milhões de viajantes registrado em 2023, um crescimento de 17% em relação ao ano anterior. O principal fator apontado para essa retração é o elevado custo das passagens aéreas, que estaria tornando as viagens inacessíveis para uma parcela considerável da população brasileira.
“Em um país como o Brasil, onde neste último ano tivemos um recorde de mais de 100 milhões de passageiros em voos domésticos, infelizmente voltaremos a ficar abaixo de 90 milhões por causa do alto custo das viagens. Simplesmente não será acessível para muitas pessoas”, declarou Cerdá. A declaração foi feita durante a realização do IATA AGM (Annual General Meeting) no Rio de Janeiro, evento que marcou o retorno da América do Sul como sede após 27 anos.
Impacto da reforma tributária e alta carga tributária
Cerdá também criticou a alta judicialização do setor aéreo no Brasil e a expressiva carga tributária imposta pelos governos latino-americanos. Ele mencionou que a IATA tem dialogado com o Ministério da Fazenda e outras instâncias governamentais para enfatizar a importância estratégica do transporte aéreo e apresentar exemplos de sucesso de outros países, onde incentivos fiscais, como alíquotas de impostos reduzidas, têm contribuído para a continuidade do crescimento do setor.
Estimativas da própria IATA indicam que as mudanças previstas na reforma tributária brasileira podem levar a um aumento médio de 23% no preço das passagens domésticas, elevando o valor para cerca de US$ 160 (aproximadamente R$ 827 na cotação atual). Para voos internacionais, a alta prevista é ainda maior, de 26,3%, com o bilhete médio atingindo US$ 935 (cerca de R$ 4.836). Consequentemente, a associação prevê uma redução de até 30% na demanda do setor.
Consequências para o transporte de carga e a economia
O cenário de retração no mercado de passageiros pode ter reflexos negativos também no transporte aéreo de carga. Cerdá alertou que a diminuição no número de voos e, consequentemente, no espaço disponível nas aeronaves, pode dificultar o escoamento de mercadorias. “Se o mercado encolher, haverá menos voos e menos espaço disponível nos porões das aeronaves. No fim das contas, outros setores da economia também serão afetados, já que essas mercadorias não poderão ser transportadas com a mesma facilidade”, explicou.
Desafios globais e o custo do combustível
Além das questões tributárias e da demanda, a indústria da aviação global enfrenta outros desafios significativos, com destaque para o aumento nos custos do combustível. Desde a escalada do conflito no Irã, os preços do querosene de aviação (QAV) têm apresentado volatilidade crescente, impactando diretamente os custos operacionais das companhias aéreas. Segundo Cerdá, o combustível representa entre 30% e 40% dos custos totais das empresas.
“Há fatores estruturais que afetam as companhias aéreas e tornam as viagens mais caras. Atualmente, entre 30% e 40% dos custos das companhias aéreas estão relacionados ao combustível, e essa volatilidade continua exercendo pressão sobre o setor”, pontuou.
O executivo ressaltou que os efeitos dessa pressão vão além da esfera financeira. O aumento dos preços das passagens impacta negativamente a conectividade aérea, limita os investimentos no setor e, em última instância, prejudica os passageiros, o turismo regional e as economias nacionais. “E isso certamente não é apenas uma questão financeira. Esse cenário leva ao aumento dos preços das passagens, reduz a conectividade e limita os investimentos. No fim das contas, os mais impactados são os passageiros, o turismo na região e, sem dúvida, as economias dos países”, concluiu Cerdá.
O que a redução de voos domésticos significa para o Brasil?
A projeção da IATA de que o fluxo de voos domésticos no Brasil possa cair abaixo de 90 milhões de passageiros anuais levanta preocupações sobre o futuro da conectividade aérea no país. O Brasil, com sua vasta extensão territorial, depende fortemente do transporte aéreo para integrar suas regiões, facilitar o turismo e impulsionar o desenvolvimento econômico. Uma redução significativa na demanda e, consequentemente, na oferta de voos, pode:
- Aumentar o isolamento de regiões remotas: Cidades e estados que possuem o transporte aéreo como principal meio de acesso podem sofrer com o declínio.
- Prejudicar o turismo: O alto custo das passagens e a menor oferta podem desencorajar o turismo doméstico, afetando diretamente a economia de destinos turísticos.
- Impactar o agronegócio e a indústria: A logística de transporte de cargas sensíveis ou de alto valor agregado, que muitas vezes utiliza o modal aéreo, pode ser comprometida.
- Reduzir a competitividade do país: Uma infraestrutura de transporte aéreo menos eficiente pode afetar a percepção de investidores e a capacidade de negócios do Brasil.
O papel do governo e as expectativas futuras
A declaração de Peter Cerdá reforça a necessidade de um diálogo contínuo entre o setor aéreo e o governo brasileiro. A busca por um ambiente regulatório mais favorável, a revisão da carga tributária e a implementação de políticas que incentivem a expansão da malha aérea são cruciais para reverter a tendência de queda na demanda. A IATA demonstrou sua disposição em colaborar, apresentando dados e exemplos internacionais que podem subsidiar a tomada de decisões.
A expectativa é que as discussões em andamento, especialmente no contexto da reforma tributária e das políticas econômicas, considerem o impacto de longo prazo sobre o setor aéreo e a economia brasileira como um todo. A indústria da aviação é um motor de crescimento e desenvolvimento, e sua saúde é vital para a conectividade e a prosperidade do país.
Em resumo, a previsão da IATA de que o fluxo de voos domésticos no Brasil pode cair abaixo de 90 milhões de passageiros é um alerta importante sobre os desafios enfrentados pelo setor, impulsionados principalmente pelo alto custo das passagens, carga tributária elevada e volatilidade nos preços do combustível. Essa retração pode ter consequências abrangentes para o turismo, a logística e a economia brasileira, exigindo ações coordenadas entre o setor privado e o governo para garantir a sustentabilidade e o crescimento da aviação no país.