Educação integral: queda de resultados preocupa Brasil e exige reflexão
A educação integral, modelo educacional que visa expandir o tempo de permanência dos alunos na escola com atividades diversificadas, tem sido alvo de otimismo e investimentos no Brasil. Evidências iniciais demonstravam um impacto positivo significativo nos resultados de aprendizagem, como apontam estudos em Santa Catarina e Pernambuco. No entanto, análises mais recentes e preliminares, especialmente após a expansão do modelo, levantam um alerta: a qualidade e os benefícios da educação integral parecem estar em declínio. Este cenário exige uma compreensão profunda e ações estratégicas para garantir que o avanço quantitativo não sacrifique a excelência educacional.
O Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece uma meta ambiciosa de atender 50% dos estudantes em tempo integral até o final de sua vigência, o que representa mais do que dobrar o percentual atual de 22,9% das matrículas. Essa expansão, embora desejada pela sociedade, apresenta desafios consideráveis na manutenção da qualidade. As primeiras evidências sugerem que o ganho de escala pode estar diluindo os resultados positivos observados em menor escala.
O legado positivo da educação integral e os primeiros sinais de alerta
Até o início da década de 2020, a educação integral no Brasil era vista como uma estratégia promissora para a melhoria da aprendizagem. Exemplos como o programa Emiti (Ensino Médio Integral em Tempo Integral) em Santa Catarina, implementado com metodologia do Instituto Ayrton Senna, mostraram ganhos expressivos. Entre 2018 e 2019, a iniciativa resultou em um aumento de 16 pontos na escala Saeb em matemática, um desempenho notavelmente superior ao do estado naquele período. Da mesma forma, estudos sobre o modelo de Pernambuco também apontaram resultados importantes.
Contudo, a maioria dessas avaliações foi realizada em um período com um número limitado de matrículas em tempo integral. A questão crucial que emerge agora é se esses resultados positivos se mantêm diante da expansão massiva. As evidências preliminares, ainda em fase de estudo, não são animadoras. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2023, ao comparar escolas com ao menos 10% de matrículas em tempo integral com escolas regulares, indica uma redução no benefício da modalidade integral. Enquanto em 2019 o diferencial de desempenho era de três unidades do Ideb a favor das escolas integrais, em 2023 essa vantagem caiu para duas unidades, representando uma perda de cerca de um terço do benefício.
É fundamental ressaltar que esses dados são preliminares e podem variar dependendo da metodologia de integralidade adotada e dos controles estatísticos aplicados. No entanto, a tendência de perda do adicional de desempenho associado ao modelo integral parece se sustentar em diversos cenários. Os dados do Ideb de 2025, que serão divulgados em breve, trarão novas e importantes evidências para aprofundar esse entendimento. Hipóteses como os efeitos da pandemia de Covid-19 ou o período de maturação do modelo em algumas escolas precisam ser investigadas e acompanhadas de perto.
Desafios da expansão e a sustentabilidade da qualidade em escala
A expansão da educação integral para atingir a meta de 50% das matrículas é um objetivo nacional que reflete o desejo de oferecer uma educação mais completa e eficaz a todos os estudantes. No entanto, a experiência internacional, como demonstrado em estudos sobre a primeira infância nos Estados Unidos, sugere que o alto impacto inicial de certas políticas educacionais pode diminuir ao longo do tempo, tendendo a zero se não houver um acompanhamento e ajustes contínuos. A pergunta que paira no ar é: quais condições são necessárias para sustentar os resultados positivos da educação integral à medida que ela ganha escala?
Manter a qualidade educacional em um processo de expansão acelerada é um dos maiores desafios da gestão pública. Isso envolve não apenas aumentar o número de escolas com currículo estendido, mas também garantir a infraestrutura adequada, a formação continuada dos professores, materiais didáticos de qualidade e um projeto pedagógico consistente que vá além da simples ampliação da carga horária.
O que mostram os dados mais recentes sobre o Ideb?
O Ideb de 2023 trouxe um comparativo preocupante. Escolas consideradas de tempo integral (com pelo menos 10% de seus alunos matriculados nessa modalidade) apresentaram um desempenho ligeiramente inferior em relação a 2019, quando comparadas às escolas regulares. Se em 2019 o benefício em termos de Ideb era de 3 pontos para as escolas integrais, em 2023 essa diferença caiu para 2 pontos. Isso indica que o fator