Ciro Nogueira vende fazenda milionária para offshore em paraíso fiscal
Uma transação imobiliária envolvendo uma fazenda de R$ 18,7 milhões e uma offshore nos Emirados Árabes Unidos, representada por um advogado próximo ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), levanta questões sobre a origem e o destino dos recursos. A propriedade rural, localizada no município de Pedro 2º (PI), foi vendida em março de 2025 pela empresa Fazendas Reunidas Nogueira Lima para a Arraf International, uma companhia recém-criada e sediada em Sharjah, conhecida por sua opacidade fiscal.
A Arraf International, que tem como endereço uma caixa postal na zona franca do aeroporto de Sharjah, foi constituída apenas dois meses antes da aquisição da fazenda. As leis dos Emirados Árabes Unidos permitem que empresas sejam integralmente detidas por estrangeiros, sem a necessidade de sócios locais, e a zona franca de Sharjah é particularmente conhecida por não divulgar publicamente informações sobre os proprietários de empresas registradas em seu território. A única informação disponível sobre a Arraf International é que ela possui um único dono.
Gustavo Frazão, advogado que atua em mais de 20 processos para outra empresa de Ciro Nogueira, a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis, assinou os documentos em nome da offshore. Frazão também é funcionário comissionado da Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas da Prefeitura de Teresina, chefiada pela mãe do senador, Eliane Nogueira Lima. A escritura que formaliza a venda da fazenda detalha a representação de Frazão para a Arraf International na transação com a Fazendas Reunidas Nogueira Lima.
O contexto das investigações da Polícia Federal
A venda da fazenda ocorre em um período em que Ciro Nogueira é investigado pela Polícia Federal por supostamente receber dinheiro e outras vantagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. Investigações apontam que Vorcaro transferiu pelo menos R$ 6 milhões ao senador entre 2024 e 2025, por meio de empresas ligadas a ele.
Em resposta, a assessoria de Ciro Nogueira declarou que nem o senador nem seus familiares possuem empresas fora do Brasil. O senador afirmou que sua mãe, Eliane Nogueira Lima, é a proprietária da Fazendas Reunidas, mas dados da Polícia Federal indicam que Ciro Nogueira detém 99% do capital da empresa. O documento da venda da fazenda foi assinado em nome da Fazendas Reunidas por Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão do senador, que também é investigado pela PF e atua como administrador da CNLF, empresa que teria recebido os repasses do Banco Master, atuando como suposto “laranja” do parlamentar.
Outras transações imobiliárias suspeitas
Além da venda da fazenda, a CNLF, empresa ligada a Ciro Nogueira, realizou outras transações imobiliárias que chamam a atenção. Em outubro de 2025, comprou um apartamento de 134 m² em Itaim Bibi por R$ 1,4 milhão da própria Fazendas Reunidas Nogueira Lima. Este mesmo apartamento havia sido adquirido pela CNLF cerca de um ano antes, em agosto de 2024, por R$ 650 mil. Segundo Nogueira, a diferença de valor se deve a uma reforma, e o imóvel é utilizado por sua mãe e irmã.
Outra operação sob escrutínio é a venda de um apartamento no Jardim Paulista, em São Paulo, pela CNLF em abril de 2025, por R$ 6,5 milhões, para a Aliqum Participações. Esta empresa pertence a uma offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, outro paraíso fiscal, chamada Tedax Partners, cujo beneficiário final não é conhecido. O representante legal da Aliqum é o empresário Carlos Santana, amigo do senador.
Investigações sobre o Banco Master e a “Emenda Master”
A atuação de Ciro Nogueira em favor dos interesses de Daniel Vorcaro é um ponto central nas investigações da Polícia Federal. Suspeita-se que o senador tenha defendido os interesses do dono do Banco Master no Congresso, apresentando uma emenda que ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. Essa proposta ficou conhecida no mercado como “emenda Master” e visava beneficiar Vorcaro, que enfrentava dificuldades financeiras.
Em troca, a PF apura se Ciro Nogueira recebeu repasses milionários de Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, além do pagamento de despesas pessoais, como viagens de jatinho. As investigações indicam pagamentos mensais que teriam começado em R$ 300 mil e poderiam ter aumentado para R$ 500 mil. Felipe Vorcaro chegou a ser preso temporariamente.
Durante o período em que Ciro Nogueira teria atuado em favor do Banco Master, a empresa CNLF adquiriu duas mansões e dois apartamentos de luxo em São Paulo, supostamente utilizando os recursos recebidos do banco. O senador foi alvo de uma operação da PF em maio de 2024, desdobramento das apurações sobre as fraudes do Banco Master. Na ocasião, Nogueira negou as acusações, afirmando que a “emenda Master” não foi reproduzida a seu pedido e que não recebeu dinheiro ilícito.
A Folha não conseguiu contato com Gustavo Frazão, apesar das tentativas de contato via celular e pela assessoria de imprensa da Prefeitura de Teresina. A assessoria do senador Ciro Nogueira reiterou que ele e sua família não possuem empresas no exterior e que a Fazendas Reunidas pertence à sua mãe.
Detalhes da propriedade rural
A fazenda vendida para a offshore Arraf International possui 2.410 hectares, configurando-se como uma propriedade de médio porte no Piauí. A transação imobiliária, registrada em 27 de março de 2025, destaca a complexidade das operações financeiras envolvendo empresas e paraísos fiscais, levantando preocupações sobre transparência e conformidade legal.
Resumo: O senador Ciro Nogueira está sob investigação após a venda de uma fazenda de R$ 18,7 milhões para uma offshore nos Emirados Árabes Unidos, administrada por seu advogado. A transação ocorre em meio a apurações da Polícia Federal sobre supostos repasses milionários recebidos pelo senador do Banco Master. A offshore em questão, Arraf International, foi criada recentemente e está sediada em Sharjah, um paraíso fiscal conhecido pela opacidade de suas empresas. Outras transações imobiliárias e a atuação do senador em favor do Banco Master também são pontos de interesse nas investigações.