China calcula riscos de um governo Flávio Bolsonaro e o impacto na desdolarização
A possibilidade de uma eleição presidencial no Brasil com Flávio Bolsonaro como um dos favoritos tem gerado atenção em Pequim. A China está calculando os riscos de um eventual governo sob sua liderança, especialmente devido às demonstrações públicas de alinhamento com a administração Trump e ao potencial impacto nas iniciativas de desdolarização do comércio entre os dois países.
Desde 2009, a China se consolidou como a maior compradora de produtos brasileiros, com destaque para commodities como soja, petróleo e minério. Em 2025, o Brasil foi o principal destino dos investimentos do gigante asiático, evidenciando a forte interdependência econômica.
Relação comercial e investimentos sob escrutínio
Executivos de empresas chinesas, associações comerciais e diplomatas ouvidos pela reportagem indicam que a relação comercial e de investimentos entre Brasil e China não seria diretamente abalada por um governo Bolsonaro. A solidez e consolidação das relações entre as companhias privadas brasileiras e a China são consideradas fatores de estabilidade.
No entanto, a preocupação reside na possibilidade de repetição de “ruídos” diplomáticos e na retração de iniciativas institucionais e agendas governamentais entre os dois países. Um dos pontos mais sensíveis para Pequim é a integração financeira e a desdolarização do comércio.
Avanços na desdolarização e o papel do real e do yuan
Durante o governo Lula, Brasil e China estabeleceram uma câmara de compensação de moedas, permitindo transações e empréstimos sem a necessidade do dólar. Essa iniciativa possibilitou a conversão direta entre o real brasileiro e o yuan chinês em operações comerciais.
Em abril de 2023, o presidente Lula expressou seu questionamento sobre a obrigatoriedade do uso do dólar no comércio internacional: “Toda noite me pergunto por que todos os países estão obrigados a fazer o seu comércio lastreado no dólar. Por que não podemos usar as nossas moedas?”
Em outubro do mesmo ano, empresas como Eldorado Celulose, Suzano e Vale realizaram as primeiras transações significativas liquidadas em yuan chinês e convertidas diretamente para real, demonstrando o potencial dessa nova modalidade. Apesar desses avanços, a maioria das transações ainda permanece dolarizada.
Panda bonds: um novo passo na integração financeira
Outro avanço esperado na integração financeira é a emissão de “panda bonds” pelo Tesouro Nacional brasileiro no mercado chinês, com previsão de anúncio para o final de junho. Esta será a primeira vez que o Brasil emitirá títulos de dívida em moeda chinesa no exterior, um movimento que reforça a estratégia de desdolarização.
Ameaças de Trump e a estratégia chinesa de internacionalização da moeda
A busca dos países do BRICS por reduzir a dependência do dólar já gerou reações, incluindo ameaças de tarifas por parte de Donald Trump contra parceiros da China que abandonassem a moeda americana em transações internacionais. A internacionalização do yuan é vista pela China como uma forma de se proteger contra potenciais sanções dos EUA e de reduzir custos para empresas, minimizando gastos com taxas de câmbio e volatilidade.
Alinhamento com Trump e apreensão em Pequim
A visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca em maio reforçou a percepção de um alinhamento direto com os Estados Unidos. Declarações anteriores de Flávio, como a crítica ao presidente Lula por “simplesmente abrir o Brasil como se fosse uma colônia chinesa” ao jornal Financial Times, aumentaram a apreensão em empresas chinesas, tanto públicas quanto privadas.
As empresas estatais chinesas demonstram menor temor devido ao maior respaldo econômico do regime, enquanto as privadas se encontram em estado de alerta maior.
Histórico de tensões e pragmatismo nas relações
Pequim teme a repetição de tensões diplomáticas como as ocorridas durante o governo de Jair Bolsonaro, incluindo a proibição de ministros em receberem o então embaixador chinês e as críticas mútuas relacionadas à origem da pandemia de COVID-19. Apesar desses episódios, a China manteve-se como o principal parceiro comercial do Brasil durante o governo Bolsonaro, que inclusive não vetou a tecnologia da Huawei no leilão do 5G.
Adiamento da Cosban e a influência do clima eleitoral
O clima eleitoral no Brasil levou a China a adiar a visita do vice-presidente Han Zheng, prevista para a realização da Cosban (Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação). A Cosban, criada no primeiro governo Lula, é um importante fórum de diálogo estratégico entre os dois países.
A próxima edição da Cosban, que deveria ocorrer até o fim de 2026, pode ser adiada para o ano seguinte, segundo informações de Pequim sobre a agenda de Han Zheng.
Visão de parlamentares e pesquisadores sobre a relação Brasil-China
O deputado federal Fausto Pinato (PP-SP), presidente da Frente Parlamentar Brasil-China, destaca que o alinhamento direto da família Bolsonaro com Trump “assusta os chineses”. Ele tem buscado convencer a base bolsonarista sobre a importância da parceria com a China, enfatizando o papel do país asiático como comprador e potencial investidor.
Por outro lado, o pesquisador Francisco Urdinez, autor do livro “Economic Displacement: China and the End of US Primacy in Latin America”, considera improvável um afastamento significativo do Brasil em relação à China. Ele argumenta que a relação econômica transcende ideologias, citando o exemplo da Argentina, onde Javier Milei manteve parcerias com Pequim apesar das críticas durante a campanha eleitoral.
A economia como fator determinante
Urdinez reforça que “no final das contas, trata-se de economia”, e que os laços profundos entre Brasil e China são difíceis de serem desfeitos pela falta de alternativas de mercado para os produtos brasileiros. A dependência mútua é um fator crucial que tende a manter a relação bilateral, independentemente de quem esteja no poder.
Posicionamento oficial e o futuro das relações
A assessoria de Flávio Bolsonaro informou que ele não comentaria temas específicos antes da divulgação de seu plano de governo. Por sua vez, o regime chinês negou receios em relação ao pleito brasileiro, declarando que “China e Brasil são uma comunidade de destino comprometida com a construção conjunta de um mundo mais justo e sustentável” e desejando “que as eleições presidenciais deste ano no Brasil transcorram com sucesso”.
A dinâmica da relação Brasil-China continuará a ser influenciada por fatores econômicos, geopolíticos e pelas estratégias de desdolarização global, com o Brasil buscando equilibrar suas parcerias internacionais em um cenário complexo.