O brasileiro descobriu o vinho: uma revolução no mercado nacional
Em um cenário global onde o consumo de álcool tem sofrido quedas e uma busca por hábitos mais saudáveis, o Brasil se destaca como um oásis de crescimento para o mercado de vinhos. Pietro Capuzzi, country manager da Concha y Toro no Brasil, uma das maiores companhias do setor, afirma categoricamente: “O brasileiro descobriu o vinho”. Essa descoberta não é apenas um modismo, mas uma transformação profunda nos hábitos de consumo, que tem levado o país a trilhar um caminho oposto ao das tendências mundiais.
A Concha y Toro, que registrou um faturamento global de cerca de US$ 1 bilhão em 2025, vê no Brasil um mercado de oportunidades sem precedentes. Capuzzi, que assumiu a liderança da operação brasileira após uma trajetória de sucesso em marketing, relembra a visão inicial da empresa: “O antigo presidente disse: você está aqui por causa do business. Entender de vinho é a última coisa que espero”. Essa perspectiva, no entanto, foi radicalmente transformada pela realidade do mercado brasileiro.
A contramão do mundo: o crescimento do vinho no Brasil
Enquanto muitos mercados globais enfrentam desafios devido a regulamentações mais rígidas sobre o consumo de álcool e a crescente preferência por bebidas menos alcoólicas ou saudáveis, o Brasil apresenta um quadro distinto. A “caneta emagrecedora”, como Capuzzi a chama, referindo-se às políticas de saúde pública e à busca por bem-estar, impacta o consumo geral de álcool. Contudo, no setor de vinhos, essa tendência se manifesta de forma diferente.
O consumidor brasileiro está buscando qualidade, variedade e novas experiências. “O Brasil está na contramão do mundo”, enfatiza Capuzzi. Essa mudança de paradigma é atribuída, em grande parte, às transformações comportamentais pós-pandemia. Se antes a cerveja reinava como a bebida de escolha para momentos de socialização e consumo em maior volume, o cenário atual aponta para uma racionalização das escolhas alcoólicas. O vinho surge como uma alternativa sofisticada e versátil, capaz de proporcionar contexto social sem os efeitos colaterais mais intensos de outras categorias.
O pós-pandemia e a nova era do consumo de vinho
A pandemia de COVID-19 acelerou mudanças que já vinham se gestando. O isolamento social e a consequente permanência em casa levaram muitos brasileiros a redescobrirem o prazer de apreciar um bom vinho em um ambiente mais íntimo e controlado. Essa experiência, aliada à busca por alternativas mais saudáveis e um consumo mais consciente, impulsionou o interesse por informações sobre a bebida, suas origens, harmonizações e variedades.
“O brasileiro descobriu o vinho, começou a se interessar e ir atrás de mais informações. Isso tem feito a categoria crescer”, afirma o executivo. A curiosidade inicial se transforma em conhecimento, e o conhecimento, em um paladar mais exigente e apreciador.
Vinho sem álcool: um mercado em expansão
Diante desse cenário de transformação, a Concha y Toro tem investido em segmentos inovadores, como o de vinhos sem álcool. “Muito. Tem campo grande a expandir nesse segmento em públicos que não costumam consumir vinho”, declara Capuzzi. A tecnologia de desalcoolização tem evoluído significativamente, permitindo a criação de bebidas que preservam o sabor e a experiência sensorial do vinho tradicional, mas sem o teor alcoólico.
O lançamento do Casillero del Diablo sparkling zero álcool no Brasil, que já é um sucesso na Inglaterra, é um exemplo dessa aposta. O processo de produção, que envolve a desalcoolização física do vinho e a posterior adição de borbulhas, garante um produto final com sabor muito próximo ao original. Essa inovação abre portas para um novo público, incluindo aqueles que buscam reduzir o consumo de álcool ou optam por alternativas não alcoólicas por motivos de saúde ou estilo de vida.
O segmento premium e a valorização do consumo consciente
Uma das tendências mais notáveis é o crescimento do segmento premium no mercado brasileiro. Apesar da sensibilidade ao preço característica do consumidor nacional, há uma clara disposição em investir em produtos de maior qualidade. “Como as pessoas estão consumindo menos e estão mais interessadas, o efeito positivo disso é consumir melhor. E com isso, o segmento premium cresce”, explica Capuzzi.
A busca por novidades, novos sabores e a experiência de “se tratar bem” impulsionam a aquisição de vinhos mais elaborados. Além disso, o aumento do consumo em casa, impulsionado pela pandemia, permite que os consumidores desfrutem de rótulos que antes eram acessíveis apenas em restaurantes, a preços mais convidativos para o ambiente doméstico. A ideia de “trazer o restaurante para casa” ganha força, democratizando o acesso a vinhos de alta gama.
Expansão geográfica: o crescimento no Norte e Nordeste
Embora o Sudeste e o Sul ainda concentrem a maior parte do negócio da Concha y Toro no Brasil, com cerca de 60% a 70% das vendas, o crescimento mais expressivo tem sido observado nas regiões Norte e Nordeste. “Nosso maior crescimento é no Nordeste”, afirma Capuzzi, destacando que a Bahia figura entre os estados onde a empresa vende mais vinhos da faixa de preço mais elevada.
A mudança cultural está em curso. Se antes a maior concentração de apreciadores de vinho se devia à influência de imigrantes europeus no Sul e Sudeste, hoje a bebida conquista novos públicos em todo o país. O crescimento anual de dois dígitos, na casa dos 15%, nessas regiões, evidencia o potencial de expansão e a pulverização do interesse pelo vinho em território nacional.
E-commerce próprio: hiperdisponibilidade e alcance
A Concha y Toro também apostou na criação de seu próprio canal de e-commerce, que já representa 12% de suas vendas no Brasil. A estratégia, segundo Capuzzi, não visa competir com os parceiros de varejo, mas sim garantir a “hiperdisponibilidade” da marca. “A grande marca deve estar disponível quando a gente precisar”, ressalta.
Com a meta de estar presente em um milhão de pontos de venda no país, a empresa já alcançou cerca de 100 mil, consolidando uma das maiores distribuições da indústria de vinhos nacional. O e-commerce complementa essa estratégia, oferecendo conveniência e acesso direto ao consumidor.
Raio-X: Pietro Capuzzi
- Idade: 38 anos
- Local de Nascimento: São Paulo
- Formação: Administração de Empresas pela ESPM e formação executiva pela London Business School.
- Carreira: Passagens por Pernod Ricard, Red Bull e Gallo.
- Cargo na Concha y Toro: Country Manager no Brasil desde 2020.
A trajetória de Pietro Capuzzi e a estratégia da Concha y Toro no Brasil ilustram uma mudança profunda no panorama do consumo de vinhos. O brasileiro não apenas descobriu a bebida, mas a incorporou em seu cotidiano, buscando qualidade, variedade e novas experiências. Esse movimento, impulsionado por uma maior conscientização e pela busca por bem-estar, posiciona o Brasil como um mercado estratégico e em franca expansão para a indústria vinícola global.