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O país embrutecido: um olhar sobre as guerrilhas fratricidas

O país embrutecido e as suas guerrilhas fratricidas: um chamado à reflexão

O Brasil de hoje se encontra em um estado de embrutecimento alarmante, marcado por guerrilhas fratricidas que dividem a nação em campos opostos e intransigentes. A polarização política expõe o pior de cada lado, transformando o debate público em um campo de batalha onde o diálogo e a empatia parecem ter desaparecido. Nesse cenário, emerge a necessidade urgente de buscar caminhos alternativos, inspirados em momentos de maior coesão e na capacidade da arte, especialmente da literatura, de nos reconectar com a humanidade compartilhada.

A era da social-democracia inaugurada por Fernando Henrique Cardoso (FHC) representou um período em que o diálogo era uma ferramenta política ativa. A empatia era cultivada, e as políticas econômicas e sociais implementadas na primeira metade dos anos 2000, que deram continuidade à agenda iniciada por FHC, fortaleceram essa abordagem. Programas como o Bolsa Família e o crédito consignado, além de uma política fiscal austera e a autonomia do Banco Central para controlar a inflação, foram frutos desse período.

No entanto, o primeiro governo Lula, apesar de ter contado com ministros que optaram pelo diálogo com a social-democracia, acabou por desviar-se desse caminho. A preferência por alianças com partidos interessados em cargos em estatais e benefícios oportunistas, a prática conhecida como “baixo clero”, somada a ameaças à oposição e à demissão de técnicos críticos, marcou um distanciamento do espírito construtivo inicial. Houve, por parte de alguns setores do tucanato —exceto FHC—, contribuições para a virulência e a polarização, com teses que chegavam a associar o PT a organizações criminosas internacionais, minando o debate.

A radicalização sob Bolsonaro e o legado de FHC

A década seguinte testemunhou uma radicalização da polarização e da brutalidade com a ascensão de Jair Bolsonaro. Assim como no governo anterior, houve uma aliança com o centrão, mas a intolerância atingiu novos patamares. O desprezo por aqueles que pensavam diferente tornou-se uma marca, com a ciência sendo frequentemente ignorada, resultando em consequências trágicas, como a perda de muitas vidas. Em contraste, FHC é lembrado por sua capacidade de convidar à conversa sem discriminação, demonstrando a mágica da empatia como ferramenta política.

A política e a literatura: pontes para o diálogo

A essência da boa política e da boa literatura reside na capacidade de construir pontes. A política construtiva busca unir interesses diversos, convidando ao diálogo aqueles que defendem teses distantes, a fim de encontrar pontos em comum para negociação. A ruptura, quando necessária, deve ser rara e fundamentada em princípios, não em denúncias para angariar militância. A literatura, por sua vez, nos apresenta vidas que, à primeira vista, podem parecer distantes, mas que, ao nos aprofundarmos, revelam algo de nós mesmos no “estranho”. A empatia e a curiosidade são os elos que unem essas duas esferas de interesse humano.

Hernán Rivera Letelier e a arte de contar histórias

O escritor chileno Hernán Rivera Letelier, autor de “La Reina Isabel Cantaba Rancheras”, exemplifica essa capacidade de unir o distante ao familiar. Sua obra narra a história de Isabel Pacheco, uma figura proeminente em uma região mineira do Chile, através das vozes daqueles que a conheceram. O livro entrelaça humor e dor, retratando a vida nas minas do Atacama. Letelier, conhecido por sua maestria na escrita, uma vez compartilhou em um Salão do Livro, com uma dose de humor e honestidade brutal, que “escreve sobre putas. Sobre o que mais poderia escrever?”. Essa autenticidade é um dos encantos de sua obra.

Manuel Alberto Valente e os bastidores da literatura

Manuel Alberto Valente, editor português e autor de “O Outro Lado dos Livros”, oferece um vislumbre delicioso dos bastidores da literatura. Suas crônicas revelam histórias saborosas sobre autores e o universo literário. Valente narra episódios que, por vezes, desafiam a imagem idealizada dos escritores, mostrando que, embora a literatura encante, seus criadores nem sempre correspondem às expectativas. Um exemplo é a história do recém-enriquecido que, ao tentar impressionar o presidente de um clube exclusivo com seu novo Rolls-Royce, recebe a resposta irônica: “No lugar da frente, não”. Esses pequenos trechos, repletos de ironia e reflexão sobre a natureza humana, compõem um enredo envolvente.

Arquétipos vs. Estereótipos: a profundidade da narrativa

Robert McKee, em seu clássico “Story”, distingue com clareza entre estereótipo e arquétipo. O estereótipo, segundo McKee, caracteriza uma personagem por um traço dominante e facilmente reconhecível, útil em situações de humor leve. Já o arquétipo revela temas universais, angústias e movimentos que permitem a compreensão profunda de personagens e suas circunstâncias. As dores, dúvidas e alegrias, mesmo em histórias peculiares, nos conectam através da empatia. Essa é a mágica da boa política e da boa literatura: tornar o estranho familiar, o estrangeiro compreensível.

A crítica divertida e os tempos desafiadores

A crítica divertida, direcionada a todos os lados, é uma ferramenta válida. Onésimo Almeida, professor da Universidade Brown, exemplifica isso com uma provocação direcionada a Donald Trump sobre um incêndio em sua biblioteca em Mar-a-Lago. No entanto, os tempos atuais desafiam a razão. A polarização e a guerrilha política dominaram o cenário, com cada extremo se vendo como detentor exclusivo da verdade, cenário propício para o início de conflitos. O legado de FHC, focado no diálogo, parece ter sido amplamente ignorado.

Um tributo à poesia e à prosa

Em memória de Alexei Bueno (1963-2026), que soube transitar com maestria pela poesia e pela prosa, cujas obras atravessam montanhas, reforçamos a importância de buscar a compreensão e a conexão em tempos de divisão. Que a reflexão sobre os caminhos da política e a profundidade da literatura nos inspirem a construir um país menos embrutecido e mais empático.

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