Motoristas de aplicativos enfrentam queda na nota de crédito após consultas para o Move Brasil
Motoristas de táxi e aplicativos em diversas regiões do Brasil têm relatado uma queda preocupante em suas notas de crédito na Serasa após buscarem financiamento de veículos novos através do programa federal Move Brasil. A iniciativa, que visa facilitar a aquisição de carros mais eficientes e menos poluentes, parece estar, paradoxalmente, prejudicando o score de crédito de muitos profissionais, tornando o acesso a empréstimos futuros mais difícil.
O Move Brasil permite o financiamento de carros flex, híbridos flex, elétricos e movidos a etanol com valor de até R$ 150 mil. No entanto, a experiência de alguns motoristas tem sido frustrante. Alex Sandro Ferreira, 36 anos, educador físico que complementa sua renda com corridas por aplicativo há seis anos, é um dos exemplos. Após ter seu pedido de financiamento negado, ele observou uma queda de 34 pontos em sua pontuação na Serasa.
Ferreira procurou uma concessionária em São Leopoldo (RS) para aderir ao programa, mas foi direcionado ao banco. Apesar de ser correntista do Banco do Brasil há mais de 15 anos e ter um histórico sem restrições, seu pedido foi recusado. A justificativa inicial foi a necessidade de uma entrada de R$ 35 mil, um valor considerado alto para o profissional. Ele realizou duas consultas em concessionárias diferentes e uma via agência bancária, o que impactou seu score.
A pontuação da Serasa é um fator crucial para a aprovação de crédito no mercado. Pontuações acima de 701 são classificadas como excelentes, indicando altas chances de aprovação. Após a negativa, Ferreira viu seu score cair de 782 para 748. A explicação exibida no aplicativo da Serasa foi clara: “Quantidade de empresas que consultaram seu CPF”.
O impacto das consultas no score de crédito
A Serasa explica que a redução do score pode ocorrer quando diversas instituições financeiras consultam o CPF de um consumidor em um curto período. Cada consulta representa uma potencial solicitação de crédito, e um grande número delas pode ser interpretado pelo mercado como um sinal de maior risco financeiro ou de busca desesperada por crédito, o que pode levar à desaprovação de futuros pedidos.
O Banco do Brasil, em nota, afirmou que as contratações de financiamento de veículos pelo Move Brasil continuam disponíveis e que a avaliação de crédito considera a capacidade de pagamento do cliente, o perfil de endividamento e o histórico financeiro. No entanto, a experiência de Ferreira sugere que o processo pode ser mais complexo na prática.
Marcelo Nogueira, 46 anos, relata uma situação semelhante em Maceió (AL). Após visitar quatro concessionárias para simular um financiamento de R$ 70 mil, seu score despencou 32 pontos, de 645 para 613, em menos de uma semana. Há um mês, sua pontuação era de 726. Nogueira buscava o Move Brasil para adquirir um veículo próprio, pois seu carro atual, quebrado, demandaria um conserto de R$ 6.000, valor que ele não dispõe. A promessa de financiamento sem entrada e com prazos estendidos se mostrou irreal, pois foi exigido um desembolso de R$ 49 mil.
A promessa do Move Brasil e a realidade do mercado
O programa Move Brasil foi lançado com a promessa de impulsionar a renovação da frota de veículos de trabalho, oferecendo condições de financiamento mais acessíveis. A ideia era que motoristas de aplicativos e taxistas pudessem trocar seus carros por modelos mais novos, econômicos e menos poluentes, com taxas de juros reduzidas e prazos ampliados, muitas vezes sem a necessidade de entrada. No entanto, a experiência de muitos tem sido de frustração.
Alex Sandro Ferreira, por exemplo, considerou a compra de um veículo elétrico para reduzir custos com combustível, mas a negativa no financiamento o fez desistir. “O programa não é para todo mundo”, lamentou, sentindo que a proposta anunciada não se alinha com a realidade encontrada.
A dificuldade em obter crédito, mesmo com scores considerados bons ou excelentes, é uma queixa recorrente. Marcelo Nogueira observa que os poucos que conseguiram o crédito foram aqueles que já tinham tudo quitado, ou seja, aqueles que menos precisariam do programa.
O que dizem as instituições financeiras e órgãos reguladores
Em nota, a Serasa reforça que a pontuação é calculada individualmente, considerando o histórico de crédito. A entidade sugere que o alto volume de consultas em um curto período pode influenciar o cálculo do Serasa Score. O Banco do Brasil reafirma que suas práticas de avaliação de crédito estão em conformidade com o mercado.
A Fiat, por sua vez, informou que a análise de crédito combina diversos fatores, incluindo percentual de entrada, renda comprovada, compromissos financeiros e histórico de relacionamento. A montadora também ressalta que novas avaliações podem ter resultados diferentes se as condições da proposta forem alteradas.
Helton Benedito, 54 anos, motorista de aplicativo, recebeu uma mensagem informando sobre sua aprovação no Move Brasil e a possibilidade de procurar uma concessionária ou banco. Contudo, ao tentar financiar um carro de R$ 114 mil na Fiat, foi informado que a aprovação só ocorreria com 30% de entrada, contrariando a promessa de financiamento sem entrada.
Benedito, que possui score de 809 e não tem restrições em seu nome, realizou três simulações de financiamento em diferentes instituições, incluindo o Banco do Brasil, todas negadas. Ele também sofreu uma redução de 73 pontos em seu score na Serasa. A experiência dele difere da promessa feita pelo ministro Guilherme Boulos, que destacou o financiamento de até R$ 150 mil sem entrada e com prazos estendidos.
Como o Move Brasil deveria funcionar e o que está acontecendo
O programa Move Brasil foi idealizado para oferecer uma linha de crédito especial para motoristas de aplicativos e taxistas, com o objetivo de facilitar a aquisição de veículos novos e mais eficientes. As condições anunciadas incluíam taxas de juros mais baixas que as de mercado e a possibilidade de financiamento de até 100% do valor do veículo, sem a necessidade de entrada em muitos casos. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) atua como um dos avalistas nesse processo.
Na prática, contudo, muitos motoristas se deparam com exigências de entrada significativas, aprovações condicionais e, o que é mais preocupante, uma queda em seu score de crédito após as tentativas de simulação e negociação. Isso ocorre porque as instituições financeiras, ao realizarem diversas consultas ao CPF do solicitante em um curto espaço de tempo, podem interpretar esse movimento como um sinal de risco elevado, impactando negativamente a pontuação.
O ciclo vicioso: busca por crédito e queda no score
A situação cria um ciclo vicioso: o motorista busca o Move Brasil para trocar de carro e melhorar suas condições de trabalho, mas as consultas realizadas durante o processo de simulação e negociação acabam prejudicando seu score. Com um score mais baixo, torna-se ainda mais difícil obter crédito no futuro, seja para um novo veículo ou para outras necessidades financeiras.
Os relatos indicam que as concessionárias e bancos, embora credenciados para operar no programa, ainda aplicam suas próprias políticas de análise de risco. Essas políticas podem incluir a exigência de comprovação de renda robusta, histórico de crédito impecável e, em muitos casos, um percentual de entrada que nem sempre é compatível com a realidade financeira do motorista de aplicativo, que depende de sua atividade diária para gerar renda.
O que fazer diante da queda na nota de crédito?
Diante desse cenário, é fundamental que os motoristas busquem entender os critérios de análise de crédito de cada instituição e, se possível, concentrem suas consultas em um número menor de estabelecimentos. É recomendável também manter um bom histórico de pagamento de contas e evitar o acúmulo de dívidas.
Para aqueles que já tiveram o score reduzido, a orientação é monitorar a pontuação e buscar regularizar qualquer pendência financeira que possa estar impactando o score. A Serasa oferece ferramentas para que os consumidores acompanhem sua pontuação e entendam os fatores que a influenciam.
Embora o Move Brasil tenha a intenção de ser um facilitador, a experiência de muitos motoristas de aplicativo demonstra que o caminho para o financiamento de veículos novos ainda pode ser repleto de obstáculos. A queda na nota de crédito após consultas ao programa levanta um alerta sobre a necessidade de maior clareza e alinhamento entre as promessas do governo e a prática do mercado financeiro.
Palavras-chave secundárias: financiamento de veículos, score de crédito, Move Brasil.
Resumo da seção:
O programa Move Brasil, destinado a facilitar o financiamento de veículos para motoristas de aplicativos e taxistas, tem gerado preocupação devido a relatos de queda na nota de crédito dos participantes após consultas bancárias e em concessionárias. O excesso de consultas em um curto período pode prejudicar o score, dificultando o acesso a crédito futuro, apesar das promessas de condições facilitadas.
