Pular para o conteúdo

IA: O Brasil corre o risco de ficar “em 1500”?

IA: O Brasil corre o risco de ficar “em 1500”?

O avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA) promete remodelar economias e sociedades em escala global. Contudo, o Brasil enfrenta um cenário preocupante de atraso, segundo Mat Velloso, um proeminente brasileiro que ocupou posições de liderança em IA em gigantes como Google e Meta. Velloso alerta que a falta de propostas concretas e de investimentos em infraestrutura pode levar o país a um isolamento histórico, regredindo séculos em termos de desenvolvimento econômico e tecnológico.

O perigo da inércia na corrida da IA

Em entrevista à Folha, Velloso, de 49 anos, expressou sua preocupação com o futuro do Brasil na nova economia impulsionada pela IA. “Faltam propostas concretas. Sabe qual é o perigo? Que nos próximos cinco anos vai haver países que vão acelerar cem anos. Se o Brasil não acelera junto, a gente volta para 1500”, afirmou. Essa declaração contundente reflete a urgência que o especialista percebe na adoção e desenvolvimento de estratégias eficazes para a IA.

A decisão de voltar para o Brasil e o papel da infraestrutura

Recentemente, Velloso deixou uma vice-presidência no Google, onde liderava o desenvolvimento de produtos de IA, para se juntar ao laboratório de IA de Mark Zuckerberg na Meta. No entanto, no início deste ano, ele optou por abrir mão de um contrato milionário para se dedicar a orientar empresas brasileiras no uso de IA, em troca de participação acionária. Essa decisão foi motivada pelo desejo de contribuir mais diretamente para o desenvolvimento do país.

Para Velloso, a base para atrair investimentos em IA e dados é a geração de eletricidade. “Assim, viriam processamento de dados, treinamento de pessoal e dados, que são o novo petróleo para a criação de modelos como o ChatGPT.” Ele cita a China como exemplo de país que se antecipou, com um plano de décadas para dominar a produção energética e, consequentemente, a IA.

Por que deixar a Meta?

A decisão de deixar a Meta foi difícil e envolveu sacrifícios financeiros significativos. “Eu conversei com a minha esposa e pedi permissão para tomar a decisão mais louca que já tomei na vida”, relatou Velloso. Ele sentiu que era o momento de trazer mais valor para a sociedade, especialmente para o Brasil, diante da percepção de que muitas empresas brasileiras veem na IA uma oportunidade única de crescimento.

Empresas brasileiras buscam orientação em IA

Velloso tem sido procurado por diversas empresas brasileiras, desde startups até grandes corporações dos setores bancário, educacional e de segurança. Ele oferece seu tempo e expertise em troca de participação acionária, demonstrando sua crença no potencial desses negócios e na necessidade de impulsionar o uso da IA no país.

IA e a transformação econômica: a perspectiva brasileira

A Inteligência Artificial tem o potencial de revolucionar a economia de forma abrangente, como se discute no Vale do Silício. No entanto, Velloso lamenta a falta de preparo dos políticos brasileiros para esse debate. “Faltam propostas concretas”, reitera. Ele reforça o risco de o Brasil ficar para trás, enquanto outras nações avançam em um ritmo exponencial.

O incentivo aos data centers e o gargalo energético

Embora o Brasil discuta incentivos para data centers, Velloso aponta que a iniciativa pode falhar sem uma capacidade energética robusta e planejamento estratégico. A China, por exemplo, investe massivamente em geração de eletricidade, o que lhe confere uma vantagem competitiva. Uma empresa de data centers que procurou Velloso quase desistiu de investir no Brasil devido aos altos custos e à falta de capacidade energética, tornando a competição com provedores internacionais ainda mais desafiadora.

Transferência tecnológica e a energia como moeda de troca

Para Velloso, a energia barata é a chave para atrair investimentos e acordos de transferência tecnológica. “Tendo energia, o resto vem”, afirma. O país poderia oferecer energia elétrica e demandar computadores, qualificação de pessoal e dados. Os datasets, considerados o “novo petróleo”, são cruciais para o desenvolvimento de modelos de IA.

A infraestrutura energética como pilar da soberania digital

A China demonstra um investimento contínuo em capacidade energética, entendendo que quem detém energia, detém IA. Essa energia elétrica se torna uma moeda de troca poderosa para negociar GPUs, contratos e acesso aos modelos mais avançados. Sem essa base infraestrutural, as aspirações brasileiras em IA correm o risco de permanecer apenas em desejos.

Computadores avançados sem energia: um luxo inalcançável?

A posse de computadores avançados não garante a liderança em IA se não houver energia suficiente para operá-los. Velloso ressalta que as máquinas ficam obsoletas rapidamente e que a energia é o fator primordial. Com capacidade energética, o Brasil teria poder de negociação para firmar parcerias com gigantes como o Google, criando data centers e gerando empregos.

O plano brasileiro: educação para 20 anos, mas e o presente?

Velloso critica a abordagem atual de focar apenas em planos de ensino de IA nas escolas, um investimento com retorno a longo prazo. Ele questiona o que esses profissionais qualificados farão se não houver oportunidades de emprego no país. Para ele, a soberania digital passa pela infraestrutura que atrai data centers, dados e, consequentemente, empregos e oportunidades de negócio.

Exemplos de sucesso e a politização brasileira

A Ásia, com países como China, Coreia do Sul e Singapura, serve de exemplo, com alta concentração de doutores per capita e investimentos em pesquisa. Velloso aponta que a politização excessiva no Brasil, polarizando discussões entre esquerda e direita, impede o avanço. A China, por outro lado, possui um plano de décadas e avança sem hesitação.

Áreas promissoras para investimento em IA no Brasil

O setor jurídico, financeiro e de segurança são áreas com grande potencial para a aplicação de IA no Brasil. Velloso destaca que esses investimentos podem criar valor sem necessariamente gerar desemprego, pois resolvem problemas complexos que a força de trabalho humana não consegue suprir. O foco deve ser em IA que complementa e potencializa o trabalho humano.

O futuro incerto e o medo crescente

A rápida evolução da IA gera incertezas sobre quais profissões serão substituídas. Empresas brasileiras e profissionais buscam respostas sobre como se preparar para esse futuro em constante mutação. O medo de ser “eliminado” pela tecnologia é uma preocupação crescente.

IA: Risco de extinção ou ferramenta de progresso?

Comparando o momento atual com o Projeto Manhattan, Velloso enfatiza que a IA, assim como a energia nuclear, possui um potencial dual: curar doenças e resolver problemas, ou causar destruição. A escolha do futuro depende das decisões que tomarmos. “A boa notícia é que a gente ainda está no controle desse futuro”, afirma, alertando para a necessidade de escolhas intencionais para evitar um cenário pessimista.

Raio-X de Mat Velloso

Mat Velloso, 49 anos, é formado em administração de empresas pela UnB e programador autodidata. Liderou equipes de IA no Google e na Meta, e agora dedica-se a orientar empresas brasileiras na adoção da Inteligência Artificial.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *