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Recuperação judicial no agro: pedidos sobem 33% e podem bater recorde

Recuperação judicial no agro: pedidos sobem 33% e podem bater recorde em 2026

O agronegócio brasileiro enfrenta um cenário de crescente instabilidade financeira, evidenciado pelo expressivo aumento de 33% nos pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre do ano. Foram registradas 517 solicitações, um número que acende um alerta para a possibilidade de um novo recorde em 2026, conforme aponta análise da Neot, empresa especializada em gestão de processos de insolvência. A conjunção de fatores como quebra de safras, queda nos preços das commodities e a restrição de crédito em um ambiente de juros elevados tem pressionado fortemente os produtores e toda a cadeia agroindustrial.

O volume financeiro sob estresse atingiu aproximadamente R$ 38 bilhões em passivos totais. Um dado alarmante é que R$ 31,5 bilhões desse montante estão concentrados em operações com passivos superiores a R$ 30 milhões, indicando que a crise não se limita a pequenos produtores, mas afeta empresas de maior porte e toda a estrutura do setor. Mais da metade dessas solicitações envolvem produtores de soja e milho, além de pecuaristas, os principais pilares da produção agrícola nacional.

Entendendo os fatores por trás do aumento dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio

Embora o Brasil preveja uma safra recorde de soja e milho para este ano, a produção desses grãos em 2024 foi severamente impactada pelo clima desfavorável. Essa queda na produção, somada à subsequente diminuição dos preços devido à oferta abundante, deixou muitos produtores endividados. A análise da Neot revela que a queda acentuada nos preços das commodities, iniciada em 2022/2023, apertou as margens de lucro, tornando o comércio no setor menos rentável. O excesso de oferta, em particular, derrubou os preços, agravando a situação financeira de muitos.

“O principal fator (no caso da soja e milho) é justamente a queda acentuada de preços a partir de 2022/23, tornando ainda mais apertado o comércio no setor. O excesso de oferta derrubou os preços”, afirmou Julio Moretti, CEO da Neot, em entrevista à Reuters. A conjuntura de juros altos também dificultou a captação de recursos, e a ausência de recuperações significativas nos preços dos grãos manteve as margens apertadas, culminando em acúmulo de prejuízos para muitos.

O impacto dos juros altos e da volatilidade climática

A política monetária de juros elevados, embora necessária para controlar a inflação, representa um fardo adicional para o agronegócio. O custo do crédito se eleva, dificultando investimentos e a rolagem de dívidas. Para empresas e produtores que já operam com margens apertadas, o acesso a financiamento se torna um desafio ainda maior. A Neot destaca que, mesmo que os fatores primários da crise cessem rapidamente, os efeitos tendem a perdurar por cerca de dois anos. A retomada da rentabilidade no setor exigirá um conjunto de fatores favoráveis, incluindo preços internacionais estáveis, produção robusta, acesso a insumos a custos razoáveis e ausência de crises climáticas severas.

A perspectiva de um fenômeno El Niño forte em 2026 adiciona uma camada de preocupação para a safra 2026/27, com potenciais impactos negativos para as lavouras. O plantio da soja da nova temporada, que começa em meados de setembro, já carrega a incerteza climática.

Quem são os mais afetados pela crise no agronegócio?

A análise da Neot segmenta os pedidos de recuperação judicial, revelando os principais atores afetados. Produtores rurais, tanto pessoas físicas quanto jurídicas, lideram o número de solicitações, com 305 pedidos. Em seguida, aparecem revendas e distribuidoras de insumos, com 83 pedidos, impactadas diretamente pela inadimplência dos produtores. Agroindústrias e usinas somaram 62 pedidos, muitas vezes devido à alta alavancagem e ao custo elevado do dinheiro. Empresas de logística e armazenagem (41 pedidos) e indústrias de insumos (26 pedidos) também figuram na lista.

A concentração regional dos pedidos reflete as áreas de maior produção agrícola e pecuária. Goiás lidera com 113 solicitações, seguido por Mato Grosso com 98. O Rio Grande do Sul, que tem sofrido com intempéries climáticas nos últimos anos, registrou 62 pedidos. Minas Gerais (56) e Paraná (54) completam a lista das regiões mais impactadas.

Perspectivas e desafios para o futuro do agronegócio

O cenário atual aponta para um período de consolidação e reestruturação no agronegócio. A necessidade de adaptação às novas realidades climáticas e de mercado é iminente. A busca por tecnologias que aumentem a eficiência produtiva, a diversificação de culturas e a gestão financeira mais rigorosa tornam-se cruciais para a sobrevivência e o crescimento das empresas do setor.

A análise da Neot sugere que os pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre indicam que a crise está longe de uma normalização, mantendo uma velocidade de expansão significativa e apontando para um novo recorde anual. A resiliência do agronegócio brasileiro será testada nos próximos anos, exigindo estratégias inovadoras e um ambiente de negócios mais favorável.

Palavras-chave secundárias: crise no agronegócio, juros altos no agro, preços de commodities.

Resumo da análise da Neot

  • Aumento de 33% nos pedidos de recuperação judicial no agronegócio no 1º trimestre.
  • 517 solicitações registradas, indicando potencial recorde em 2026.
  • R$ 38 bilhões em passivos totais sob estresse financeiro.
  • Principais causas: quebra de safras, queda de preços de commodities e juros altos.
  • Soja, milho e pecuária são os setores mais afetados.
  • Produtores rurais lideram os pedidos, seguidos por revendas e distribuidores de insumos.
  • Goiás, Mato Grosso e Rio Grande do Sul são os estados com maior concentração de pedidos.
  • Expectativa de perduração dos efeitos da crise por cerca de dois anos.

A recuperação do setor dependerá de um conjunto de fatores interligados, incluindo a estabilidade dos preços internacionais, a previsibilidade climática e o acesso a crédito em condições mais favoráveis. A gestão eficiente e a adaptação às novas realidades do mercado serão determinantes para superar este período desafiador.

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