Mercado aposta em corte de juros, mas vê risco fiscal nos próximos passos do BC
O mercado financeiro demonstra forte convicção de que o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciará mais um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros (Selic) nesta quarta-feira (5), levando-a para 14% ao ano. Essa expectativa, unânime entre 30 instituições consultadas pela Bloomberg, é impulsionada pela desaceleração da inflação e pela moderação da atividade econômica. No entanto, a clareza sobre os próximos passos do Banco Central (BC) diminui consideravelmente quando o assunto é o futuro do ciclo de afrouxamento monetário, com a questão fiscal emergindo como o principal obstáculo para futuras decisões.
Além da continuidade dos cortes, economistas consultados pela Folha também antecipam ajustes na comunicação do Copom. Após o encontro de junho, a linguagem utilizada pelo colegiado foi considerada confusa por especialistas, gerando desconfiança e ruídos no mercado. A expectativa é que, desta vez, o BC adote uma comunicação mais clara e coesa.
Expectativas para a decisão do Copom e a comunicação do BC
Tony Volpon, ex-diretor do BC e professor adjunto da Universidade Georgetown, destaca a necessidade de um comunicado mais simples. Segundo ele, o Copom criou um “espantalho” em junho com simulações alternativas, gerando polêmica e uma aparente incongruência entre o diagnóstico e a decisão de cortar juros. “Espero que eles tenham aprendido a lição da última reunião. Vamos ver como vão justificar a decisão”, afirma Volpon, que, alinhado ao consenso, acredita na continuidade dos cortes de juros frente às novas informações econômicas.
Volpon ressalta que o BC deve continuar reduzindo a Selic se os próximos indicadores confirmarem a perda de tração da economia, um sinal de alerta para 2027. “A gente está com um impulso fiscal creditício muito forte na economia nesse momento. Mas a economia está perdendo dinamismo. Isso é um sinal preocupante”, adverte. Ele critica as “medidas eleitoreiras” com vida curta, que visam os próximos meses e podem mascarar problemas mais sérios na manutenção do dinamismo econômico.
O ex-diretor do BC avalia que a movimentação do mercado pode influenciar a continuidade do ciclo de juros, mas prefere aguardar a concretização das incertezas. Outro fator determinante no cenário doméstico, segundo Volpon, é a alta global de juros. Ele cita a reprecificação das curvas de juros em um mundo mais deficitário, com diversos países, incluindo o Brasil, enfrentando dificuldades em retornar a uma política fiscal sustentável no pós-pandemia.
Palavras-chave secundárias: risco fiscal, política monetária, taxa Selic
Resumo da seção: O mercado antecipa um corte de 0,25 ponto na Selic, mas a incerteza sobre o futuro do ciclo de cortes aumenta devido ao risco fiscal. A comunicação do Copom também é um ponto de atenção, com expectativas de maior clareza após os ruídos do encontro anterior.
Cenário externo e fiscal: os grandes desafios para o futuro da Selic
Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, aponta a iminência de uma alta de juros pelo Federal Reserve (Fed) como a maior preocupação para o futuro dos juros no Brasil. Ela lembra que em 2024, quando a inflação nos EUA deu um “engasgo” e o Fed pausou seus aumentos, o dólar chegou a R$ 6,30. “Se a gente tiver um cenário parecido, o Copom pode ter de fazer uma pausa nos cortes”, alerta.
Apesar desse risco, Vitória não vê razões para uma interrupção no ciclo de queda da Selic e projeta que a taxa chegue a 13,25% ao ano até dezembro, um pouco abaixo do consenso de mercado (13,75%). “A gente não vê razão para pausa hoje, considerando como está a dinâmica inflacionária, com atividade mais fraca e câmbio bastante favorável, mesmo com um cenário externo com mais volatilidade”, argumenta.
Vitória prevê que a atividade econômica desacelere ainda mais no segundo semestre, especialmente após as eleições, com menor estímulo fiscal via transferência de renda e gastos do governo. Isso, segundo ela, contribuirá para uma inflação mais controlada. Ela também observa que o estímulo fiscal implementado pelo governo, com o anúncio de vários programas, não teve o impacto esperado. “A gente tem visto uma limitação muito grande na expansão de crédito pelo lado da demanda das famílias e das empresas. As famílias estão endividadas, as empresas também. Não adianta oferecer subsídio que não tem espaço”, complementa.
Diante desse quadro, Vitória não espera um surto inflacionário decorrente de pressão de demanda e projeta o IPCA próximo de zero ou até negativo em agosto, com alívio na conta de energia elétrica.
Resumo da seção: A alta de juros nos EUA representa um risco para a continuidade dos cortes da Selic no Brasil. Contudo, a economista Rafaela Vitória acredita que a inflação controlada e a atividade econômica mais fraca justificam a continuidade do ciclo de redução, mesmo com um cenário externo volátil.
Inflação em desaceleração, mas com riscos futuros
Heron do Carmo, professor da FEA-USP e especialista em inflação, destaca o alívio no bolso do consumidor com o ajuste de preços de produtos como hortifrutigranjeiros. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) desacelerou para 4,64% nos 12 meses até junho, abaixo do teto de 4,5% da meta de inflação do BC. O IPCA-15, que sinaliza a tendência da inflação oficial, também mostrou desaceleração, atingindo 4,52% nos 12 meses até julho.
Apesar da trajetória favorável da inflação corrente, Carmo alerta que a tendência futura ainda é de alta. A expectativa de um El Niño mais agressivo deve impactar os preços no próximo ano. “O principal risco para inflação, a meu ver, é a situação da demanda agregada impulsionada pelo lado fiscal”, afirma. Ele ressalta que, embora a política monetária venha se contrapondo a esse impulso, o consumo elevado pode não ser sustentável por muito tempo.
Palavras-chave secundárias: inflação Brasil, IPCA
Resumo da seção: A inflação no Brasil tem mostrado sinais de desaceleração, impulsionada pela queda em preços de alimentos e energia. Contudo, o risco de um El Niño mais forte e o impulso fiscal na demanda agregada são fatores que podem pressionar os preços no futuro.
O que esperar do Copom e do futuro da economia brasileira?
A decisão do Copom nesta quarta-feira (5) é aguardada com grande expectativa. Enquanto o corte de 0,25 ponto percentual na Selic é dado como certo, as sinalizações sobre os próximos passos do ciclo de afrouxamento monetário serão cruciais. O mercado estará atento à comunicação do BC para entender como a questão fiscal e o cenário internacional influenciarão as futuras decisões.
A combinação de uma inflação sob controle, atividade econômica em moderação e um câmbio favorável sugere que o ciclo de cortes pode continuar. No entanto, a fragilidade fiscal do país e a possibilidade de novas altas de juros nos Estados Unidos representam desafios significativos que podem forçar o Copom a uma pausa ou a um ritmo mais lento de redução da taxa básica.
A clareza na comunicação do BC será fundamental para ancorar as expectativas do mercado e evitar volatilidade. Um comunicado transparente e coeso, que aborde os riscos e as perspectivas para a economia brasileira, contribuirá para a credibilidade da política monetária e para a estabilidade do cenário econômico.
Resumo da seção: A expectativa é de continuidade nos cortes da Selic, mas os riscos fiscais e externos podem limitar o ritmo. A comunicação do Copom será essencial para guiar as expectativas do mercado e garantir a estabilidade econômica.
Tabela: Projeções e Expectativas para a Selic
| Indicador | Projeção Consenso (Bloomberg) | Projeção Banco Inter | Comentário |
|---|---|---|---|
| Selic – Próxima Reunião (05/06) | 14,00% a.a. (-0,25 pp) | 14,00% a.a. (-0,25 pp) | Corte esperado devido à inflação controlada e atividade moderada. |
| Selic – Final de 2024 | 13,75% a.a. | 13,25% a.a. | Divergência nas projeções futuras, com Banco Inter antecipando cortes mais profundos. |
| IPCA – Acumulado 12 meses (Junho) | 4,64% | N/A | Desaceleração da inflação corrente, mas acima da meta do BC. |
| Risco Fiscal | Alto | Alto | Principal obstáculo para futuras decisões de política monetária. |
| Cenário Externo | Volátil | Volátil | Alta de juros nos EUA e incertezas globais podem impactar o Brasil. |
Perguntas frequentes sobre o corte de juros no Brasil:
- O que é o Copom e qual sua função? O Comitê de Política Monetária (Copom) é o órgão do Banco Central do Brasil responsável por definir a taxa básica de juros (Selic) e conduzir a política monetária do país.
- Por que o mercado espera um corte na Selic? A expectativa de corte se baseia na desaceleração da inflação e na moderação da atividade econômica, indicando margem para a redução dos juros.
- Qual o principal obstáculo para novos cortes de juros? A questão fiscal é vista como o principal entrave, pois a deterioração das contas públicas pode gerar pressões inflacionárias e aumentar a percepção de risco do país.
- Como o cenário internacional afeta a decisão do BC? A alta de juros em economias desenvolvidas, como os Estados Unidos, pode gerar volatilidade no câmbio e pressionar a inflação brasileira, levando o BC a reconsiderar o ritmo de cortes.
- O que significa a comunicação do Copom? A comunicação do Copom refere-se às declarações e relatórios emitidos pelo comitê após suas reuniões, que sinalizam as intenções e avaliações do BC sobre a economia e a política monetária.
Conclusão: O mercado antecipa mais um corte na Selic, mas o futuro do ciclo de afrouxamento monetário no Brasil está intrinsecamente ligado à evolução do cenário fiscal e às decisões dos principais bancos centrais globais. A clareza na comunicação do Copom será crucial para navegar por este cenário de incertezas.
