Nova York lança mercados públicos com alimentos 30% mais baratos diante da inflação
Viver em Nova York já é um desafio financeiro considerável, mas a escalada da inflação nos preços dos alimentos tem elevado ainda mais o custo de vida para os seus residentes. Em resposta a essa crescente preocupação, o prefeito Zohran Mamdani oficializou um ambicioso projeto: a criação de cinco supermercados públicos que oferecerão um desconto de 30% na cesta básica. A iniciativa visa aliviar o peso financeiro sobre os nova-iorquinos e garantir o acesso a alimentos a preços mais justos.
O democrata-socialista anunciou a novidade na semana passada, segurando uma penca de bananas com a etiqueta “30% off”. Ele detalhou que os cinco estabelecimentos serão inaugurados até o final de seu mandato, em 2029. Cada um dos novos supermercados será estabelecido em um dos cinco “boroughs” administrativos da cidade: Manhattan, Brooklyn, Queens, Bronx e Staten Island, assegurando uma distribuição geográfica equitativa.
Um dos pilares do projeto é a universalidade do acesso aos descontos. Todos os cidadãos, independentemente de sua renda, terão a oportunidade de se beneficiar da redução de 30% nos preços. A Prefeitura estima que essa medida possa resultar em uma economia anual de cerca de 15% nas despesas com supermercado para os nova-iorquinos, o que pode equivaler a aproximadamente US$ 1.000 (cerca de R$ 5.000) por família. Contudo, a proposta não está isenta de críticas. Alguns, inclusive dentro da própria base política de Mamdani, consideram a iniciativa insustentável a longo prazo, citando um investimento público estimado em US$ 70 milhões.
Os desafios econômicos por trás da proposta
A principal crítica à viabilidade do projeto reside na baixa margem de lucro típica do setor de supermercados, que geralmente varia entre 1% e 3%. A operação desses estabelecimentos depende fortemente do volume de vendas para gerar receita significativa. Mesmo com milhões em faturamento, o lucro individual por item comercializado é frequentemente mínimo. Críticos argumentam que a competição, mesmo com supermercados locais já estabelecidos, se tornará desleal, afetando a sustentabilidade do mercado existente.
Com esta medida, Mamdani cumpre uma de suas promessas de campanha, abordando um dos problemas mais urgentes nos Estados Unidos: o aumento do custo de vida, especialmente no que diz respeito à alimentação. Dados oficiais revelam que a inflação acumulada no setor alimentício atingiu 33% em todo o país desde 2019, antes mesmo da pandemia agravar a crise global.
As consequências da crise sanitária foram agravadas por eventos geopolíticos, como as guerras na Ucrânia e no Irã. A invasão russa à Ucrânia gerou desdobramentos globais nos preços dos alimentos, enquanto o conflito iniciado pelos EUA no Irã impactou principalmente o custo dos combustíveis, que, por sua vez, afeta indiretamente os preços dos produtos alimentícios através dos custos de transporte e produção.
Inflação de alimentos nos EUA: números e impactos
A inflação mensal no setor de alimentos em junho registrou 0,2%, com uma taxa anual de 3%. As maiores pressões de preço foram observadas em frutas e vegetais (5,3%) e carnes (2,6%). Dados de maio indicam que uma família com dois adultos e duas crianças necessita de, em média, US$ 1.018,20 (aproximadamente R$ 5.230) mensais para se alimentar. Comparativamente, cinco anos atrás, esse valor era de US$ 835 (R$ 4.290), demonstrando um aumento significativo no custo da alimentação básica.
Embora o preço de alguns itens tenha diminuído desde o início da administração de Donald Trump, o custo de muitos outros alimentos subiu consideravelmente. Por exemplo, o preço dos ovos diminuiu 30% desde que Trump retornou à Casa Branca. No entanto, o da carne moída cresceu 18,2% e o do suco de laranja aumentou 23,4%, segundo cálculos da rede NBC.
A inflação alimentar nos EUA tem gerado preocupação quanto ao aumento da insegurança alimentar, que ocorre quando um lar tem acesso limitado ou incerto a alimentos suficientes e nutritivos. O Departamento de Agricultura americano realizava uma pesquisa anual para monitorar essa situação. Em 2024, 13,7% dos domicílios americanos enfrentavam algum grau de insegurança alimentar. No ano passado, Donald Trump anunciou o cancelamento dessa pesquisa, dificultando o acompanhamento oficial e nacional do problema.
Mudanças no programa SNAP e o impacto nos beneficiários
Além disso, o governo de Trump implementou mudanças significativas no principal programa de assistência alimentar dos EUA, o SNAP (Supplemental Nutrition Assistance Program), popularmente conhecido como “food stamp” ou vale-alimentação. Essas alterações resultaram em uma redução no número de beneficiários.
Criado nos anos 1960 com orçamento federal, o programa passou por formalização de alterações em julho do ano passado. Os dados mais recentes indicam que o SNAP atende atualmente 38,7 milhões de beneficiários, uma queda de quase 9% em relação ao ano anterior. Essa redução significa que aproximadamente 1 em cada 10 americanos faz parte do programa, enquanto anteriormente essa proporção era de 1 em cada 8. O benefício médio por pessoa é de US$ 190 mensais para compras em supermercados.
As novas regras do programa exigem que mais adultos comprovem trabalho ou voluntariado por, no mínimo, 80 horas mensais para ter acesso ao benefício. Anteriormente, veteranos de guerra, pessoas em situação de rua, jovens adultos recém-saídos de orfanatos, pais com filhos entre 14 e 17 anos, e idosos entre 55 e 64 anos estavam isentos dessa exigência. A análise de um think-tank progressista, o Center on Budget and Policy Priorities, sediado em Washington, revelou que pelo menos 1 milhão de crianças perderam o acesso ao vale-alimentação desde que os parâmetros do programa foram alterados. Considerando dados de 19 estados, a estimativa nacional é que mais de 1,5 milhão de menores tenham sido afetados.
A iniciativa de Nova York, ao propor a criação de mercados públicos com preços significativamente reduzidos, surge como uma resposta direta a essas preocupações crescentes com a inflação alimentar e a insegurança alimentar. O projeto busca não apenas oferecer alívio financeiro imediato, mas também reavaliar o papel do governo na garantia do acesso a necessidades básicas em um cenário econômico cada vez mais desafiador.
