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Dólar sobe e Bolsa cai com dados dos EUA e tensão doméstica

Dólar sobe e Bolsa cai nesta sexta com dados dos EUA e tensão no cenário doméstico

A sexta-feira (14) de negociações nos mercados financeiros foi marcada por movimentos divergentes: o dólar registrou alta, enquanto a Bolsa de Valores brasileira (Ibovespa) operou em queda. Investidores estão absorvendo os recentes dados da economia dos Estados Unidos, que apresentaram um quadro misto, e também avaliam a crescente tensão no cenário doméstico, que inclui questões fiscais e geopolíticas.

Às 10h57, a moeda norte-americana já subia 0,54%, sendo negociada a R$ 5,221. Esse movimento de valorização do dólar reflete um comportamento de busca por ativos de segurança em meio a incertezas globais e locais. No exterior, o índice DXY, que compara o dólar com uma cesta de seis moedas fortes, apresentava uma leve queda de cerca de 0,44% no mesmo horário, após a divulgação de dados de vendas no varejo dos EUA que vieram abaixo das expectativas.

Vendas no varejo dos EUA e o impacto na inflação

Os dados de vendas no varejo dos Estados Unidos indicaram uma contração de 0,6% em julho em relação ao mês anterior, contrariando a previsão de alta de 0,1% compilada pela Reuters. Embora este seja um indicador importante para medir o comportamento do consumo das famílias americanas, analistas como Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue, consideram que o impacto nos mercados pode ser limitado. Isso se deve ao fato de a semana já ter sido palco de divulgações de importantes indicadores de inflação nos EUA.

“Ao longo dos últimos dias, os grandes destaques foram os dados de inflação ao consumidor (CPI) e inflação ao produtor (PPI) nos Estados Unidos, que vieram em linha com a expectativa do mercado e reforçaram a percepção de desaceleração gradual da pressão inflacionária”, explicou Yamashita. A leitura desses indicadores de inflação nos EUA tem sido crucial para as expectativas sobre a política monetária do Federal Reserve (Fed).

Expectativas para a taxa de juros do Fed

A divulgação dos dados de inflação nos EUA fortaleceu a aposta de que o Federal Reserve manterá as taxas de juros inalteradas em sua próxima reunião. Dados do FedWatch, do CME Group, mostravam que, às 11h, 69,2% das apostas indicavam a manutenção da taxa na faixa de 3,50% a 3,75%, enquanto apenas 30,8% previam um aumento de 0,25 ponto percentual. Essa perspectiva de juros mais altos por menos tempo no exterior tende a ser um alívio para mercados emergentes, mas o Brasil enfrenta desafios próprios.

Cenário doméstico pesa sobre a Bolsa brasileira

Enquanto o mercado internacional demonstrava algum alívio com a possibilidade de o Fed pausar o ciclo de alta de juros, o Ibovespa seguia em trajetória de queda. Às 11h08, o índice registrava uma desvalorização de 0,94%. Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, aponta que um cenário doméstico tenso está ofuscando os sinais positivos vindos dos EUA.

“O Brasil enfrenta uma combinação nociva de risco fiscal agravado por promessas de campanha, tensão geopolítica com a abertura de processo da Lei da Reciprocidade contra os EUA e uma sequência histórica de oito quedas consecutivas do índice”, afirmou Araújo. Esses fatores internos criam um ambiente de aversão ao risco para investidores estrangeiros e locais.

Fluxo de capital e pressão sobre ativos brasileiros

Na véspera, o dólar já havia fechado em alta de 0,27%, a R$ 5,191, e o Ibovespa em baixa de 0,23%, aos 167.100 pontos, o menor nível desde 20 de janeiro. Um dos fatores determinantes para essa performance tem sido a saída de investidores estrangeiros do Brasil, um movimento que tem se intensificado em agosto. Até o dia 11 do mês, o saldo de agosto estava negativo em R$ 11,9 bilhões, configurando-se como o segundo pior saldo do ano, atrás apenas de maio. No acumulado do ano, porém, o saldo permanece positivo em R$ 29,1 bilhões.

O cenário eleitoral e as preocupações com a trajetória fiscal do país também exercem pressão sobre os ativos brasileiros. O banco JPMorgan, por exemplo, reduziu sua recomendação para ações brasileiras de “overweight” (acima da média) para “neutra”, citando esses fatores. Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, comenta que o rebaixamento pelo JPMorgan ajudou a alertar investidores estrangeiros, que talvez estivessem menos atentos às dinâmicas internas, como a eleição, a dívida bruta e o crescimento das despesas.

Juros altos e conflitos internacionais elevam a busca por dólar

A perspectiva de juros elevados no Brasil por um período mais prolongado, somada às incertezas geradas pela guerra no Irã, também contribui para o cenário. Uma taxa Selic alta favorece investimentos em renda fixa, diminuindo a atratividade da Bolsa. Adicionalmente, conflitos internacionais tendem a impulsionar a busca por ativos considerados mais seguros, como o dólar.

Às 11h05, o barril do petróleo Brent era negociado a US$ 87, com alta de 0,25%, à medida que investidores monitoravam os desdobramentos das negociações entre EUA e Irã e a situação no estreito de Hormuz. Tensões geopolíticas no Oriente Médio frequentemente impactam os preços do petróleo e geram volatilidade nos mercados globais.

Desempenho do varejo brasileiro e cautela econômica

No mercado doméstico, os dados do IBGE divulgados na véspera trouxeram um alento pontual. O setor varejista brasileiro encerrou o segundo trimestre com uma alta nas vendas em junho acima do esperado. O avanço foi de 0,5% em relação a maio, acelerando o ritmo e sinalizando alguma resiliência do consumo, mesmo com juros elevados. No entanto, André Valério, economista sênior do Inter, ressalta que o resultado de junho reforça sinais de moderação da atividade econômica.

“O desempenho de junho foi amplamente explicado por supermercados, um consumo essencial. No ano, grande parte do crescimento é oriundo de combustíveis, farmacêuticos e supermercados, consumos essenciais, enquanto o varejo ampliado, mais sensível ao crédito, demonstra sinais de perda de dinamismo”, explicou Valério. Essa distinção entre consumo essencial e discricionário é um ponto de atenção para a sustentabilidade do crescimento econômico.

Mercados globais e perspectivas para o fechamento da semana

Os mercados globais, por sua vez, apresentavam um quadro misto. As bolsas americanas operavam sem direção única: o S&P 500 subia 0,02%, o Dow Jones recuava 0,08% e o Nasdaq avançava 0,08%. Yamashita observa que os mercados caminham para encerrar a semana próximos de máximas históricas, ainda atentos a debates como os do setor de inteligência artificial, que tem demonstrado recuperação em agosto após um julho mais pressionado.

Em resumo, a sexta-feira nos mercados financeiros reflete um jogo de xadrez complexo, onde os dados econômicos dos EUA, a política monetária do Fed, as tensões geopolíticas e, crucialmente, o cenário doméstico brasileiro de risco fiscal e incertezas políticas, moldam o comportamento do dólar e da bolsa.

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