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A pré-história dos computadores no Brasil: Patinho Feio, Cobra e clones

A pré-história dos computadores no Brasil: Patinho Feio, Cobra e clones

O Dia da Informática no Brasil, celebrado em 15 de agosto, nos convida a revisitar as origens da computação em terras brasileiras. Enquanto o mundo celebra o marco do ENIAC em 1946, o Brasil deu seus primeiros passos na tecnologia de computadores somente em 1957, com equipamentos importados. No entanto, a partir da década de 1960, um movimento audacioso começou a florescer: a busca pelo desenvolvimento de máquinas genuinamente nacionais. Essa jornada, repleta de desafios, inovações e até mesmo de clones ousados, é contada através de projetos como o “Patinho Feio”, a fundação da Cobra e a tentativa de criar um clone do Macintosh.

O início da computação no Brasil: importação e os primeiros passos

O ENIAC, criado nos Estados Unidos por John Eckert e John Mauchly, era um gigante de 30 toneladas. Sua chegada ao Brasil, sob a forma do Univac 120, foi um marco para a Prefeitura de São Paulo em 1957, utilizado para processamento de dados de serviços municipais. Naquela época, a computação era uma “loucura” que exigia estruturas gigantescas e gerava calor colossal, como descreve o físico Marco Aurélio Alvarenga Monteiro. A empresa Remington Rand, gigante dos suprimentos de escritório, era a responsável pela comercialização desses equipamentos. Paralelamente, a indústria privada, como a fábrica de brinquedos Estrela, já vislumbrava o potencial dos computadores para otimizar suas operações, adquirindo um Univac em 1958. O clima de desenvolvimentismo e modernização impulsionava o país, e a informática não ficava de fora desse anseio.

Em 1960, o presidente Juscelino Kubitschek participou da inauguração de um Burroughs Datatron B-205 na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Essa máquina, pesando mais de uma tonelada, foi adquirida por um consórcio envolvendo a Marinha, o CNPq e o Itamaraty. Computadores, naquela época, eram de uso restrito e guardados em salas específicas, como contextualiza o engenheiro Carlos Rafael Ximenes das Neves. Apesar de impressionantes, eram máquinas limitadas, capazes de apenas uma centena de cálculos por segundo, um número ínfimo comparado aos padrões atuais.

Zezinho, Patinho Feio e a busca pela autonomia tecnológica

A década de 1960 marcou uma virada, impulsionando a criação de computadores nacionais. Em 1961, estudantes do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) desenvolveram o Zezinho, considerado o primeiro computador inteiramente projetado e construído no Brasil. Apesar de sua curta vida útil, sendo suas peças reaproveitadas para novas experiências acadêmicas, o Zezinho representou um passo fundamental.

O impulso decisivo para a indústria computacional brasileira veio com o incentivo militar, durante a ditadura. O capitão José Luiz Guaranys Rego, da Diretoria de Eletrônica da Marinha, defendia a necessidade de uma indústria eletrônica nacional autônoma, especialmente para a operacionalização da frota naval. Diante da aquisição de fragatas inglesas, Rego argumentou que a dependência tecnológica externa tornaria os navios obsoletos. A Guerra Fria e a exigência de segurança nacional pela autonomia informática foram os catalisadores.

Em 1968, o Projeto Guaranys, financiado pelo BNDE (futuro BNDES), fomentou o desenvolvimento de computadores nas universidades. Uma acirrada disputa surgiu entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade de São Paulo (USP). A Unicamp lançou o projeto Cisne Branco, em alusão ao hino da Marinha. A USP respondeu com o projeto Pato Feio, rapidamente apelidado de Patinho Feio. Embora o Cisne Branco não tenha funcionado, o Patinho Feio entrou em operação em 1972. Pesando 100 kg e fruto de dois anos de pesquisa, foi um marco, apesar de sua inauguração ter sido marcada por um pequeno contratempo técnico com um fotógrafo afoito. O Patinho Feio, embora experimental, serviu de embrião para o primeiro computador a ser utilizado pela Marinha.

O nascimento da Cobra e o primeiro computador comercial brasileiro

A partir do projeto Patinho Feio, o governo criou um grupo de trabalho para desenvolver um computador nacional. A tecnologia da USP foi adquirida, levando à fundação da Cobra (Computadores Brasileiros). A empresa nasceu de uma demanda estratégica da Marinha e foi uma joint venture tripartite em 1974, com capital dividido entre o Estado, a brasileira Equipamentos Eletrônicos e a inglesa Ferranti. A criação da Cobra foi impulsionada pela necessidade de nacionalizar sistemas eletrônicos e reduzir a dependência tecnológica, em um contexto de valorização da segurança nacional e restrições à importação de equipamentos.

Com convênio da Marinha e a PUC-Rio como centro de desenvolvimento, o modelo do Patinho Feio foi aprimorado, resultando no G-10, homenagem ao capitão Guaranys. O G-10 serviu de protótipo para o MC 500, o primeiro computador comercial brasileiro. A parceria com a Ferranti foi crucial para a aquisição de expertise tecnológica, com funcionários da Cobra sendo enviados à Inglaterra para aprendizado. O computador Argus 700 da Ferranti serviu de modelo para a “abrasileiração” pela Cobra. O icônico logotipo da empresa, inspirado na ilustração de “O Pequeno Príncipe” com a cobra e o elefante, tornou-se um símbolo.

Mercado, expansão e os anos áureos da Cobra

Com a Marinha como cliente inicial, a Cobra vislumbrava a expansão para o mercado privado. Na década de 1970, a empresa já fornecia soluções de informatização para iniciativas privadas, como o atacadista Makro. O governo incentivava o desenvolvimento de uma indústria nacional de eletrônica digital, e a Cobra se tornou pioneira na fabricação de computadores com tecnologia genuinamente nacional. Clientes como Petrobras, Hospital das Clínicas de São Paulo, e os Ministérios das Comunicações e do Exército também figuravam em sua carteira. A empresa se firmou como grande fornecedora de hardware e software para o setor bancário, anunciando a construção do “Cobrão”, um complexo fabril no Rio de Janeiro.

No início dos anos 1980, a Cobra expandiu sua atuação para microcomputadores, lançando modelos como o Cobra 480, Cobra 300 e Cobra 210. A empresa não apenas montou equipamentos, mas também produziu ciência, desenvolvendo o primeiro microcomputador totalmente projetado no Brasil e o sistema operacional SOX. Os anos 1980 foram considerados os “anos áureos da fabricante”, protegidos pela reserva de mercado. No entanto, essa proteção, aliada à dificuldade de importação de componentes, resultou em produtos nacionais encarecidos e defasados em comparação com o mercado internacional. Com a abertura do mercado em 1992, a capacidade da Cobra e de outras empresas nacionais foi abalada.

O clone da Apple e o fim de uma era

Outro episódio marcante da era de reserva de mercado foi protagonizado pela Unitron Eletrônica em 1985. A empresa anunciou o lançamento do Mac 512, um clone do Fat Mac da Apple. Com aprovação governamental e linha de crédito, a Unitron aplicou engenharia reversa para copiar o design, a topologia da placa-mãe e extrair a interface gráfica do Macintosh. Protótipos foram apresentados em 1986, mas a notícia chegou à Apple, gerando um incidente diplomático com ameaças de sobretaxas a produtos brasileiros. A Secretaria Especial de Informática impediu a comercialização do Macintosh nacional, levando a Unitron ao colapso financeiro e ao encerramento de suas atividades.

O fim da reserva de mercado forçou empresas como a Cobra a se reposicionarem, focando em serviços, especialmente no sistema bancário, e tornando-se integradora de grandes redes de computadores. Posteriormente, a empresa foi adquirida pelo Banco do Brasil, tornando-se BBTS em 2013. A história da pré-história da tecnologia de computadores no Brasil é um testemunho da engenhosidade e da resiliência, marcada por desafios, conquistas e a busca incessante pela autonomia tecnológica.

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