Rota marítima sofisticada abastece Norte e Nordeste com cigarros contrabandeados
Uma complexa e sofisticada rota marítima tem sido utilizada pelo crime organizado para abastecer os estados do Norte e Nordeste do Brasil com cigarros contrabandeados, majoritariamente provenientes do Paraguai. Essa nova estratégia logística, que contorna a fiscalização terrestre, tem ganhado força desde 2018 e já é considerada consolidada pelas autoridades. A operação envolve embarcações que navegam pelo Oceano Atlântico, com pontos de distribuição que incluem o Suriname, e têm como destino final estados como Pará, Maranhão, Piauí e Rio Grande do Norte.
Casos recentes evidenciam a magnitude dessa operação. Em julho de 2024, uma embarcação interceptada a 407 km de Macapá (AP) transportava impressionantes 1,5 milhão de maços de cigarros paraguaios. No ano anterior, no Pará, uma operação flagrou um barco que se deslocava de Abaetetuba para encontrar um navio em alto mar, com o objetivo de transferir uma carga de cigarros. Na ocasião, três pessoas foram presas.
A inteligência policial aponta que essa rota, embora mais extensa, é escolhida para driblar a fiscalização brasileira. A Polícia Federal (PF), em operações como a “Rota da Fumaça” no final de 2023, desvendou organizações criminosas que lavavam dinheiro e contrabandeavam cigarros através dessa via, com o uso de laranjas e empresas de fachada para ocultar a movimentação financeira.
A logística complexa do contrabando de cigarros
A origem da carga permanece no Paraguai, principal produtor de cigarros contrabandeados para o Brasil. No entanto, em vez de adentrar o país pelas fronteiras terrestres tradicionais no Paraná e Mato Grosso do Sul, os contrabandistas optam por uma rota alternativa. A mercadoria é inicialmente transportada para o Chile, onde é embarcada no porto de Iquique. De lá, a jornada marítima segue pelo Oceano Pacífico, passando por países como Peru, Equador e Colômbia, até alcançar o Canal do Panamá.
Após cruzar o Panamá, os navios seguem para a Venezuela e, posteriormente, para o Suriname. É a partir do Suriname que a carga é redistribuída para embarcações menores, que têm como missão abastecer os estados brasileiros do Norte e Nordeste. Essa estratégia complexa demonstra a capacidade de adaptação e a sofisticação logística empregada pelo crime organizado.
Lucratividade e financiamento do crime organizado
O contrabando de cigarros paraguaios é altamente lucrativo e representa uma fonte significativa de financiamento para o crime organizado na região da tríplice fronteira. Segundo um estudo do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf), a margem de lucro para o contrabando de cigarros pode chegar a 507%. Esse índice é calculado com base na diferença entre o custo de aquisição e transporte ilegal da mercadoria e o valor obtido com sua revenda no mercado clandestino.
A sonegação fiscal inerente a essa atividade permite que os cigarros ilegais sejam vendidos a preços consideravelmente inferiores aos dos produtos legais. A diferença de preço entre cigarros brasileiros e paraguaios pode atingir 650%, tornando a oferta ilegal extremamente atrativa para os consumidores.
O volume de negócios movimentado pelo contrabando de cigarros à margem da economia formal é estimado em bilhões de reais. O Paraguai possui uma capacidade de produção anual de 60 bilhões de cigarros, enquanto o consumo interno do país é de apenas 2,5 bilhões. Isso significa que a maior parte da produção paraguaia é destinada à exportação, e uma parcela significativa, estimada em 62%, tem o Brasil como destino, com o Chile recebendo cerca de 10%. O restante é distribuído para outros países da América do Sul e Caribe.
A influência do contrabando no mercado ilegal
Luciano Stremel Barros, presidente do Idesf, explica que a rota marítima sofisticada não atende apenas o Brasil, mas também países da América do Sul e Caribe. Uma parte excedente da logística voltada para o Caribe, devido à proximidade, acaba sendo direcionada para as regiões Norte e Nordeste do Brasil. Essa interligação logística global ressalta a complexidade e o alcance do contrabando.
Edson Vismona, presidente do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), destaca que o Chile se tornou um ponto estratégico na rota do contrabando, em parte devido ao aumento de impostos sobre cigarros no país, o que impulsionou o mercado ilegal. “Com isso, o mercado ilegal cresceu. O Paraguai é o hub de distribuição de cigarros para todos os países. Essa rota marítima é sofisticada e mostra o quanto vale a pena o investimento do crime organizado”, afirma Vismona.
Vismona também alerta para o impacto do contrabando no mercado local: “No Maranhão, 70% do comércio já é dominado pelo cigarro ilegal. Hoje é cigarro, daqui a pouco serve para outro produto, com a mesma logística.” Esse cenário demonstra como o contrabando de cigarros pode abrir portas para a entrada de outras mercadorias ilícitas, utilizando as mesmas redes e rotas estabelecidas.
Dados alarmantes sobre o contrabando de cigarros
- Lucratividade: Margem de lucro pode chegar a 507%.
- Diferença de preço: Cigarros paraguaios são até 650% mais baratos que os brasileiros.
- Volume de produção paraguaia: 60 bilhões de maços por ano.
- Destino no Brasil: Estima-se que 62% da produção paraguaia seja absorvida pelo mercado ilegal brasileiro.
- Valor financeiro: Movimenta cerca de R$ 10 bilhões anualmente no Brasil, sem recolhimento de impostos.
- Impacto regional: No Maranhão, 70% do comércio de cigarros é dominado pelo produto ilegal.
Operações de combate ao contrabando
As autoridades brasileiras têm intensificado os esforços de fiscalização e combate ao contrabando. A operação conjunta entre a Marinha e a PF em 2024, que resultou na apreensão de cigarros ilegais avaliados em R$ 7,5 milhões com destino à Bahia, é um exemplo da atuação de combate. A embarcação apreendida, sem habilitação para os ocupantes e sem selo da Anvisa, reforça a ilegalidade da carga.
Essas ações, embora importantes, enfrentam a constante evolução das táticas empregadas pelas organizações criminosas. A rota marítima sofisticada, que contorna a fiscalização terrestre e utiliza pontos de distribuição estratégicos como o Suriname, representa um desafio significativo para as forças de segurança. A cooperação internacional e o aprimoramento das estratégias de inteligência são cruciais para desmantelar essas redes e reduzir o fluxo de produtos ilegais no país.
O contrabando de cigarros não apenas gera concorrência desleal para as empresas que atuam legalmente, mas também impacta negativamente a arrecadação pública, privando o Estado de recursos que poderiam ser investidos em serviços essenciais. A complexidade logística e a alta lucratividade mantêm o contrabando como uma atividade financeiramente atraente para o crime organizado, exigindo vigilância contínua e ações coordenadas para sua repressão.
Resumo da seção: A rota marítima sofisticada, com origem no Paraguai e passando por países como Chile e Suriname, é a nova estratégia do crime organizado para abastecer o Norte e Nordeste do Brasil com cigarros contrabandeados. A alta lucratividade, com margens de até 507%, e a dificuldade de fiscalização terrestre impulsionam essa modalidade, que movimenta bilhões de reais anualmente e financia outras atividades criminosas.
