IA no serviço público: um tsunami de demandas?
A inteligência artificial (IA) está se consolidando como uma força disruptiva em diversos setores, e o serviço público não é exceção. Relatos de vários países indicam um aumento significativo no volume de petições, recursos administrativos e solicitações de informação, muitos dos quais redigidos com o auxílio de IA. Essa nova realidade, embora prometa democratizar o acesso a serviços e à justiça, levanta sérias preocupações sobre a capacidade do setor público de lidar com a avalanche de demandas. O fenômeno, comparado a um “tsunami”, exige uma análise profunda sobre os desafios e as oportunidades que a IA apresenta para a administração pública.
O fenômeno global: IA e o aumento de demandas no setor público
O impacto da IA na gestão pública já é uma realidade observável internacionalmente. Na Inglaterra, escolas têm registrado um aumento nas reclamações de pais redigidas por IA, e os pedidos de acesso à informação dispararam. O órgão de supervisão policial do país informou que pelo menos um quarto dos pedidos de revisão judicial já são elaborados com a ajuda da inteligência artificial. Nos Estados Unidos, o Judiciário enfrenta um cenário semelhante, com um crescimento notável nos casos civis movidos sem advogados e petições que, antes concisas, agora chegam a ter centenas de páginas geradas por IA. Um juiz americano chegou a classificar o fenômeno como uma “ameaça existencial” aos tribunais. Na Alemanha, o Judiciário do estado mais populoso reporta um aumento de 55% em processos de urgência, parcialmente atribuído a petições feitas por IA. A tendência é nacional, com a expectativa de que alguns órgãos administrativos fechem 2026 com um volume de recursos até 50% superior ao de 2022.
Os desafios da IA: custos e imprecisões nas demandas públicas
A facilidade e o baixo custo para gerar petições e recursos administrativos com IA trazem consigo um lado sombrio. Muitas dessas demandas contêm erros factuais, citam leis inexistentes ou precedentes falsos. Enquanto a geração do conteúdo se torna barata, a análise e verificação dessas informações continuam sendo processos caros e intrinsecamente humanos. Isso significa que a IA não apenas sobrecarrega o setor público com um volume maior de trabalho, mas também transfere para ele um custo adicional significativo para a triagem e validação das solicitações. A promessa de eficiência da IA esbarra na necessidade de um escrutínio humano qualificado para garantir a precisão e a legalidade dos processos.
O paradoxo da IA: ampliação do acesso versus despreparo institucional
Apesar dos desafios, a IA oferece um aspecto inegavelmente positivo: a democratização do acesso a serviços públicos. Indivíduos que antes encontravam barreiras para interagir com a administração pública ou o sistema judiciário agora podem fazê-lo com o auxílio da tecnologia. Esse fenômeno representa uma ampliação importante do acesso à justiça e aos serviços governamentais. No entanto, o estudo “Radar (Readiness for AI Discovery and Agentic Reach)”, publicado em julho de 2026 pelo Banco Mundial e co-liderado pelo brasileiro Tiago Peixoto, com a colaboração de diversos especialistas, incluindo o autor deste artigo, aponta para um despreparo generalizado do serviço público. A pesquisa analisou 166 países, avaliando a capacidade das IAs em informar cidadãos sobre serviços públicos e a habilidade de agentes de IA em navegar esses serviços para resolver questões. Os resultados indicam que, embora as plataformas de IA sejam proficientes em descrever serviços públicos, o setor público em si ainda não está estruturalmente preparado para atender às demandas geradas e processadas por essa tecnologia.
O futuro do serviço público na era da IA
A projeção é clara: o serviço público precisará se adaptar e se transformar sob a influência da IA, ou corre o risco de ser “afogado” pela quantidade e complexidade das novas demandas. A interação entre cidadãos e o Estado tende a se dar cada vez mais através de interfaces de IA. Em vez de acessar sites governamentais, os cidadãos poderão delegar tarefas como a renovação de carteira de motorista a assistentes virtuais. Paralelamente, a mesma IA poderá estar processando essas demandas internamente nos órgãos públicos e no Judiciário. Essa simbiose digital, embora eficiente em potencial, exige uma infraestrutura robusta, regulamentação clara e capacitação dos servidores públicos para lidar com as novas ferramentas e fluxos de trabalho. A necessidade de uma regulamentação específica para a IA, que vá além da proteção de dados pessoais, como já se discute para a atuação da ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados), torna-se cada vez mais premente.
O que fazer diante do “tsunami” de IA?
A resposta para o desafio imposto pela IA no serviço público reside em uma abordagem multifacetada. Primeiramente, é crucial reconhecer e potencializar o aspecto positivo da ampliação do acesso, garantindo que a tecnologia sirva como ferramenta de inclusão e não de exclusão. Em segundo lugar, o investimento em capacitação e infraestrutura para os órgãos públicos é fundamental. Servidores precisam ser treinados para interagir com sistemas de IA, verificar a veracidade das informações geradas e gerenciar o fluxo de demandas de forma eficiente. A pesquisa “Radar” sugere que a preparação dos países para a IA no setor público varia significativamente, indicando a necessidade de políticas públicas direcionadas para fortalecer essa capacidade.
Estratégias para a adaptação do serviço público à IA
- Desenvolvimento de sistemas de validação de IA: Criar ferramentas que auxiliem os servidores a verificar a precisão e a legalidade de documentos gerados por IA.
- Capacitação contínua de servidores: Oferecer treinamento em ferramentas de IA, análise de dados e novas metodologias de trabalho.
- Regulamentação clara e adaptativa: Estabelecer diretrizes para o uso de IA no serviço público, definindo responsabilidades e limites.
- Investimento em infraestrutura tecnológica: Modernizar os sistemas de informação e comunicação dos órgãos públicos para suportar o aumento do volume de dados e demandas.
- Parcerias público-privadas: Explorar colaborações com o setor privado para o desenvolvimento de soluções de IA adaptadas às necessidades do serviço público.
A urgência da preparação: um olhar para o futuro
O “tsunami” de IA no serviço público não é uma previsão distante, mas uma realidade em construção. A velocidade com que as ferramentas de IA evoluem e se popularizam exige uma resposta ágil e estratégica por parte dos governos. Ignorar essa transformação seria um erro com consequências potencialmente graves para a eficiência, a justiça e a própria legitimidade das instituições públicas. A preparação adequada não se trata apenas de adotar novas tecnologias, mas de repensar fundamentalmente a forma como o serviço público opera, garantindo que ele permaneça acessível, justo e eficaz em um mundo cada vez mais digitalizado e impulsionado pela inteligência artificial.
Em resumo: A inteligência artificial está revolucionando o acesso a serviços públicos e jurídicos, gerando um volume sem precedentes de demandas. Embora democratize o acesso, essa “tsunami” de solicitações, muitas vezes imprecisas e de baixo custo para gerar, sobrecarrega o setor público. Estudos indicam um despreparo generalizado para lidar com essa nova realidade. A adaptação exige investimento em capacitação, infraestrutura e regulamentação, transformando o serviço público para que ele não seja afogado pela IA, mas sim fortalecido por ela.
