Motéis apostam em chef e terceiro hóspede grátis para atrair clientes
A imagem tradicional do motel como um local de encontros rápidos e discretos está se transformando. Estabelecimentos em São Paulo, e em outras cidades do Brasil, estão reinventando a experiência oferecida, investindo em gastronomia assinada por chefs renomados e explorando novas configurações de hospedagem, como a oferta do “terceiro hóspede grátis”, para atrair um público mais amplo e diversificado. Essa nova motelaria busca consolidar-se como um destino de lazer e entretenimento para casais e grupos, indo muito além da funcionalidade básica.
A pesquisa da Associação Brasileira de Motéis (Abramotéis) de 2023 revela uma mudança significativa no perfil dos frequentadores: 85% dos clientes estão em relacionamentos estáveis, como casamentos e namoros. Essa constatação impulsionou empresários do setor a repensar a proposta de valor de seus estabelecimentos. Felipe Martinez, sócio do motel Lush, explica que a ideia é transformar o motel em uma alternativa de entretenimento, comparável a uma viagem, um jantar especial ou uma sessão de cinema. “O motel tinha esse ar de privacidade, de quase estar fazendo uma coisa errada e de querer entrar e sair sem ser visto”, afirma Martinez. “Então olhamos para o público de casais estáveis que procuram nas suítes também uma opção de entretenimento, como uma viagem, um jantar ou um cinema.”
A experiência gastronômica como diferencial
Um dos pilares dessa transformação é a oferta de experiências gastronômicas sofisticadas. No Lush, por exemplo, o festival “Chefs no Motel” apresenta pratos elaborados por chefs como Bia Rosa. O menu, que inclui entrada e prato principal, com opções como queijo brie forneado, croqueta de costela e medalhão de mignon ao molho de vinho tinto, custa R$ 109. Essa aposta na alta gastronomia visa proporcionar aos clientes uma experiência completa, incentivando-os a permanecer por mais tempo e a desfrutar de todas as comodidades oferecidas.
A estratégia de oferecer menus assinados por chefs não é isolada. Diversos motéis buscam parcerias com profissionais da culinária para elevar o padrão de seus serviços. O objetivo é claro: transformar a ida ao motel em uma “escapada da rotina”, onde o casal possa desfrutar de um jantar, um bom vinho e momentos de relaxamento, como em uma banheira de hidromassagem, sem a necessidade de sair de casa para ter uma experiência noturna completa.
O novo perfil do frequentador e o aumento do tempo de permanência
A pesquisa da Abramotéis é um marco para entender a evolução do setor. Ao constatar que a maioria dos clientes está em relacionamentos estáveis, os gestores de motéis perceberam a oportunidade de oferecer mais do que apenas um espaço para encontros casuais. A ideia é criar um ambiente que proporcione lazer, relaxamento e experiências memoráveis. Para Martinez, “Esse público pensa: ‘Se eu vou sair da minha casa para ter um vale-night com quem eu já durmo todas as noites, que a experiência valha o preço e seja completa’. Ele não sai de casa para ter uma horinha e voltar; ele quer jantar, tomar um vinho, usar uma hidro.”
Essa mudança de percepção reflete-se no tempo de permanência. No Lush, a estadia mínima é de três horas, mas há opções de day-use, pernoite e diárias que podem chegar a R$ 3.000. A permanência prolongada justifica o investimento em infraestrutura de alta qualidade, que vai além da cama e inclui piscinas, hidromassagens, sistemas de aquecimento e tetos solares. Essa estrutura mais completa visa atender às expectativas de um público que busca conforto, privacidade e opções de entretenimento diversificadas.
Desempenho financeiro e a lógica da “nova motelaria”
A aposta em experiências completas e a maior permanência dos hóspedes têm resultados financeiros expressivos. O RevPar (Receita por Quarto Disponível), um indicador chave no setor hoteleiro, pode alcançar R$ 800 no motel Lush. A taxa de ocupação média chega a 170%, pois uma mesma suíte pode ser utilizada por diferentes clientes ao longo do dia. Em comparação, o RevPar na hotelaria tradicional nacional foi de R$ 251,60 em junho de 2023, segundo o FOHB. É importante notar que a lógica de ocupação dos motéis é distinta, permitindo um giro maior de clientes.
Contudo, a operação de motéis que oferecem serviços premium demanda um investimento considerável. A limpeza e a manutenção dos quartos e das áreas de lazer, como piscinas e hidromassagens, precisam ser rigorosas e frequentes. Restaurantes com operação 24 horas também elevam os custos. No Lush Ipiranga, por exemplo, a infraestrutura inclui 17 piscinas e 36 hidromassagens. A empresa de gestão de motéis LHG, originada do Lush, projeta um faturamento de R$ 68 milhões para o ano, demonstrando que o modelo é economicamente viável.
Em relação à higienização das piscinas, uma das controvérsias recorrentes, o Lush esclarece que a água é filtrada continuamente e tratada com um sistema automatizado à base de sal, que gera cloro, garantindo a sanitização constante. Nas hidromassagens, o uso de jatos de ar, em vez de água, e a higienização das superfícies a cada uso minimizam riscos.
Explorando novas fronteiras: o “terceiro hóspede grátis” e a diversidade sexual
Além de atrair casais em relacionamentos estáveis, alguns motéis estão explorando um nicho de mercado voltado para experiências sexuais que fogem do tradicional. A oferta do “terceiro hóspede grátis” é uma estratégia comercial que visa reduzir o custo para grupos, especialmente aqueles interessados em ménage ou outras dinâmicas sexuais. O motel Classe A, por exemplo, permite até quatro pessoas por suíte, com a proprietária Robson Marinho relatando que, em 99% dos casos, as reservas são feitas por dois homens e uma mulher.
Essa abertura para novas configurações sexuais é impulsionada por uma mudança cultural na percepção da sexualidade. Segundo Mayumi Sato, diretora do Sexlog, plataforma de conteúdo sexual, “Fantasias que antes ficavam apenas no imaginário hoje são planejadas, conversadas e vividas com mais naturalidade.” Uma pesquisa realizada pela Sexlog com mais de 20 mil usuários indicou que 53,1% dos inscritos têm interesse em experiências de troca de casais, além de práticas como voyeurismo e sexo em grupo.
A demanda por esses novos formatos se reflete na infraestrutura dos motéis. Suítes com barras de pole dance, piscinas privativas, churrasqueiras, tetos solares e decorações temáticas (como pubs) são cada vez mais comuns. Há também pacotes especiais para aniversários e descontos para públicos específicos, como pessoas com mais de 50 anos. A lógica é a mesma da gastronomia de chef: transformar a suíte em um destino completo, onde o sexo é apenas um dos elementos de uma experiência multifacetada.
O futuro da motelaria: conveniência, experiência e personalização
A “nova motelaria” representa um avanço significativo na forma como esses estabelecimentos são percebidos e utilizados. Ao investir em conforto, entretenimento e experiências personalizadas, os motéis estão se consolidando como opções viáveis para quem busca lazer, intimidade e a exploração de fantasias. A conveniência de ter tudo em um só lugar – jantar, beber, relaxar, comemorar e, para alguns, explorar a sexualidade de forma mais aberta – é o grande atrativo.
A tendência é que essa evolução continue, com motéis buscando inovar em serviços e infraestrutura para atender às demandas de um público cada vez mais exigente e aberto a novas experiências. A personalização, a qualidade dos serviços e a capacidade de oferecer um ambiente seguro e discreto para a realização de desejos diversos serão fatores cruciais para o sucesso nesse mercado em constante transformação.
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