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Bancos ampliam criptomoedas para clientes com avanço da regulação

Bancos ampliam cardápio de criptomoedas para clientes com avanço da regulação

Nos últimos anos, o cenário financeiro brasileiro tem testemunhado uma transformação significativa com a entrada e expansão dos criptoativos nas prateleiras dos grandes bancos. O que antes se resumia a uma oferta restrita, focada principalmente no Bitcoin, hoje se diversificou em um leque com mais de uma dezena de ativos virtuais disponíveis para investidores. Essa expansão é acompanhada de perto pelo avanço da regulamentação no setor, trazendo mais segurança e clareza para o mercado.

As criptomoedas, em sua essência, operam por meio de redes descentralizadas de computadores que registram e validam transações sem a necessidade de intermediários tradicionais, como os bancos. Embora o Bitcoin seja o nome mais conhecido, o universo dos ativos digitais é vasto, com milhares de outras moedas, cada uma com características e propósitos distintos. O Ether, por exemplo, está intrinsecamente ligado à rede Ethereum, enquanto as stablecoins, como a USDC, buscam manter uma paridade estável com moedas fiduciárias, como o dólar.

Grandes instituições financeiras como Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Nubank têm ampliado significativamente sua oferta de produtos relacionados a criptoativos desde o ano passado. Esse movimento estratégico está diretamente correlacionado com o estabelecimento de um marco regulatório mais robusto no Brasil, proporcionando um ambiente mais seguro para a atuação dessas empresas e para os investidores.

Entendendo os riscos e a volatilidade dos criptoativos

Apesar do entusiasmo e da crescente oferta, analistas e especialistas do mercado financeiro fazem um alerta importante: investimentos em criptoativos exigem cautela e um profundo entendimento dos riscos envolvidos. A volatilidade inerente a essa classe de ativos demanda que o investidor avalie cuidadosamente o nível de exposição que está disposto a ter em seu portfólio.

Cristiano Corrêa, professor de finanças do Ibmec, destaca a amplitude das variações de preço no mercado de criptomoedas. “Há variações de preços maiores do que em ações. Uma ação pode cair 4% ou 5% em um dia ruim. Em cripto, esses movimentos podem ser muito mais rápidos e maiores. Isso não significa que o investidor vai perder dinheiro, mas que está exposto a uma amplitude maior de variação”, explica.

Diante disso, a recomendação unânime é que a exposição a criptoativos seja limitada e direcionada a investidores com maior tolerância ao risco. “Faz sentido para aquele investidor cujo perfil seja compatível com essa capacidade de eventualmente suportar perdas. Ele não deve pegar todo o patrimônio e colocar em criptomoedas, mas pode separar uma parte para aproveitar movimentos de grande volatilidade”, aconselha Corrêa.

Diversificação com abordagem conservadora

Felipe Quiodine, planejador financeiro pela Planejar, endossa a ideia de usar criptoativos como ferramenta de diversificação, mas sempre com uma abordagem conservadora. “Algo entre 1% e 3% da carteira total. Esse percentual cumpre dois objetivos: primeiro, a captura de valorização, se houver; em segundo lugar, limita o impacto caso a posição sofra perdas severas”, sugere.

Mesmo com a volatilidade e os riscos inerentes, os dados da Receita Federal pintam um quadro de crescimento expressivo nas operações com criptoativos no Brasil. Em 2025, pessoas jurídicas movimentaram cerca de R$ 497 bilhões com essas moedas, representando 98,3% dos R$ 505,5 bilhões negociados no total por pessoas físicas e jurídicas. O volume total apresentou um crescimento de 22% em relação a 2024 e um impressionante aumento de 433% desde 2020.

Embora esses números não detalhem a participação exata dos produtos oferecidos pelos bancos nesse montante, eles sinalizam claramente a crescente inserção de empresas e instituições financeiras nas transações com criptoativos.

O papel do avanço regulatório

A expansão da oferta de criptoativos pelos bancos ocorre em paralelo ao desenvolvimento e consolidação do marco regulatório brasileiro. Em 2022, foi aprovado o Marco Legal dos Criptoativos, que estabeleceu princípios fundamentais para o setor e delegou ao Banco Central a responsabilidade de regulamentar as prestadoras de serviços de ativos virtuais.

Desde 2026, o Banco Central tem implementado regulamentações específicas para essas empresas, incluindo exigências de capital mínimo, segregação patrimonial e supervisão. As prestadoras que já operavam no mercado possuem um prazo até novembro para se adequarem às novas normas.

Carlos Akira Sato, cofundador da consultoria Syscapital e especialista em mercados regulados e tokenização de ativos, explica o impacto positivo dessa regulamentação. “Nesse cenário, os bancos brasileiros, normalmente mais conservadores em relação à atuação em novos mercados, ficam mais seguros para lançar seus produtos”, afirma.

Expansão da oferta por grandes bancos e fintechs

O Itaú Unibanco, por exemplo, expandiu sua carteira de criptomoedas em 2025, oferecendo atualmente 15 criptoativos, incluindo Bitcoin, Ether e USDC. O banco ressalta que os ativos disponibilizados aos clientes ficam sob sua custódia e orienta os investidores a alinharem seus objetivos com os riscos e as dinâmicas do mercado.

O Banco Safra lançou em 2025 sua própria stablecoin, o Safra Dólar, gerida e custodiada pela instituição, apresentada como uma alternativa para a dolarização de patrimônio.

O Banco do Brasil, em janeiro deste ano, passou a oferecer investimentos diretos em Bitcoin e Ether para seus clientes, com movimentação superior a R$ 11 milhões em transações. Anteriormente, desde 2022, a instituição já permitia exposição a criptoativos por meio de fundos e ETFs.

Bradesco e Santander também disponibilizam acesso a criptoativos através de ETFs. No universo das fintechs, o Nubank ampliou seu portfólio em maio de 2026, adicionando quatro novas criptomoedas à sua plataforma, totalizando 28 ativos disponíveis, incluindo os principais como Bitcoin e Ether.

O Nubank classifica os criptoativos como investimentos de alto risco, mas os apresenta como uma opção para diversificação de carteiras, alcançando seus mais de 7 milhões de clientes no Brasil.

Bancos evitam exposição própria direta a criptoativos

Apesar da robusta expansão da oferta aos clientes, a exposição direta dos bancos a criptoativos, ou seja, a parcela de risco que as próprias instituições assumem ao deter esses ativos, permanece limitada. Análises de balancetes enviados ao Banco Central, com base em março de 2026, não indicam a existência de saldos ou registros de ativos virtuais próprios em nome dos bancos.

O Banco Central esclarece que as instituições podem atuar como intermediárias e custodiar ativos virtuais, desde que cumpram as regulamentações aplicáveis e informem formalmente a autoridade monetária. Na custódia, os ativos são mantidos em nome dos clientes e não se tornam automaticamente propriedade da instituição financeira.

Carlos Castilho, diretor executivo de serviços financeiros da EY, pontua que não há uma proibição geral para que instituições financeiras mantenham posições próprias em criptoativos. “Do ponto de vista contábil, há exposição própria quando a instituição utiliza recursos para adquirir o criptoativo, controla os benefícios econômicos associados a ele e assume diretamente os riscos de preço, liquidez e crédito”, explica.

Isac Costa, professor do Insper, atribui o avanço dos bancos no setor à demanda dos clientes, à busca por redução de custos operacionais e à consolidação das regras regulatórias, tanto nacionais quanto internacionais. Contudo, ele não percebe um movimento significativo das instituições em investir na classe de ativos em si, dadas as volatilidades e riscos.

“O mercado cripto já foi considerado por muitas instituições tradicionais como um ‘mercado marginal’, e houve uma mudança. Porém, uma coisa é oferecer criptoativos a investidores que demandam essa categoria de ativo, e outra é abraçar as teses de investimento e manter criptoativos em carteira própria”, observa Costa.

Principais criptomoedas em participação de mercado

A dominância no mercado de criptomoedas é notável, com algumas poucas moedas concentrando a maior parte da capitalização. Os dados da plataforma CoinMarketCap, que utiliza a capitalização de mercado (preço atual multiplicado pela circulação do ativo), revelam a seguinte distribuição:

  • BTC (Bitcoin): 59,23%
  • ETH (Ethereum): 11,21%
  • USDT (Tether): 6,79%
  • BNB (Binance Coin): 3,67%
  • SOL (Solana): 2,29%

Essa concentração demonstra a força dos ativos mais estabelecidos, mas também abre espaço para a exploração de novas moedas e tecnologias dentro do ecossistema de ativos digitais, um cenário que os bancos brasileiros estão cada vez mais dispostos a explorar junto aos seus clientes.

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