Faraó dos Bitcoins alega ter fortuna para pagar credores após quatro anos de prisão
Quatro anos após sua prisão em agosto de 2021, Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como o “faraó dos bitcoins”, reapareceu em depoimento à Justiça afirmando que sua fortuna, armazenada em carteiras de criptomoedas, seria suficiente para pagar todos os seus credores. A declaração, obtida pelo programa Fantástico da TV Globo e exibida neste domingo (6), levanta novas questões sobre a recuperação dos ativos digitais e a complexidade do esquema que levou à sua queda.
“Está lá. Está tudo lá”, declarou Glaidson durante o depoimento realizado em 2025. Ele se refere a uma fortuna em criptomoedas supostamente guardada em um dispositivo apreendido pela Polícia Federal. Uma carteira de criptomoedas, seja ela um software, aplicativo ou dispositivo físico, é a chave para acessar e movimentar ativos digitais, funcionando como uma conta bancária para o universo das moedas virtuais.
Glaidson Acácio dos Santos, que emergiu de origens humildes para fundar a GAS Consultoria Bitcoin, foi detido pela Polícia Federal do Rio de Janeiro em uma operação que desvendou o que as autoridades apontam como um esquema de pirâmide financeira. A empresa, sediada na região dos Lagos, teria movimentado cifras bilionárias em parceria com outras firmas especializadas em criptomoedas.
GAS Consultoria: do sucesso à falência
Ao longo de nove anos, a estrutura criada pelo ex-garçom e ex-pastor da Igreja Universal, Glaidson, e seus colaboradores, atraiu milhares de clientes em 13 estados brasileiros e em outros sete países. A lista de credores, compilada pelos administradores judiciais da massa falida da GAS Consultoria, ultrapassa a marca de 77 mil pessoas e empresas, com uma dívida estimada em quase R$ 3 bilhões, conforme reportado.
O Ministério Público Federal (MPF) classifica a operação como uma organização criminosa, imputando a Glaidson e seus associados os crimes de manutenção de instituição financeira sem autorização, gestão fraudulenta e negociação irregular de valores mobiliários. A suspeita central é que os rendimentos gerados pelos investimentos em criptomoedas eram insuficientes para sustentar os retornos prometidos aos investidores. O esquema, segundo o MPF, dependia da entrada contínua de novos clientes para honrar os compromissos com os antigos, caracterizando a clássica estrutura de pirâmide.
A promessa de recuperação e a incerteza da senha
Durante seu depoimento, Glaidson reiterou sua confiança na existência dos fundos, afirmando que a quantia armazenada na carteira seria suficiente para saldar todas as dívidas. No entanto, um detalhe crucial chamou a atenção: “A senha, agora de cabeça eu não sei. Mas está lá. Está tudo lá”, disse ele, levantando dúvidas sobre a acessibilidade real dos fundos. A recuperação de criptomoedas em casos judiciais frequentemente esbarra na dificuldade de acesso às chaves privadas ou senhas, especialmente quando detidas pelos próprios acusados.
Glaidson também se defendeu das acusações, classificando-as como “inverdades”. “Eu não cometi crime algum, no meu ponto de vista. Eu acho que foi algo muito precipitado da parte da paralisação da atividade da minha empresa”, declarou, contestando a natureza criminosa de suas operações.
A trajetória de Glaidson Acácio dos Santos
Antes de se tornar o “faraó dos bitcoins”, Glaidson Acácio dos Santos teve uma trajetória marcada por diferentes fases. Ele atuou como pastor da Igreja Universal na Venezuela, onde conheceu sua esposa, Mirelis Zerpa. Mirelis foi presa nos Estados Unidos em 2024 e deportada para o Brasil no ano passado, sendo considerada pela investigação como a possível mentora intelectual do esquema. Sua experiência no mercado de criptomoedas na Venezuela e menções em fóruns online como articuladora de pirâmides financeiras reforçam essa suspeita.
Ao retornar ao Brasil, Glaidson trabalhou como garçom em quiosques de Cabo Frio e em um resort em Búzios, ambos no litoral fluminense. Ele afirma ter iniciado seus investimentos em criptomoedas e a captação de clientes em 2012, recrutando em grande parte colegas de trabalho, ex-pastores e fiéis da Universal. O primeiro registro de suas transações no mercado de criptomoedas, identificado nas investigações, data de dezembro de 2014, com a abertura de uma conta na corretora Foxbit.
O lado político e a impugnação da candidatura
Mesmo após sua prisão em 2021, Glaidson Acácio dos Santos demonstrou influência política. Em 2022, ele concorreu ao cargo de deputado federal pelo Rio de Janeiro, filiado ao Democracia Cristã (DC), e obteve 37.935 votos. No entanto, sua candidatura foi posteriormente impugnada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), impedindo sua posse.
Desafios na recuperação de criptoativos em casos judiciais
A recuperação de ativos em criptomoedas em processos judiciais é um desafio crescente e complexo. A natureza descentralizada e, por vezes, anônima das transações com moedas digitais dificulta o rastreamento e a apreensão dos fundos. Em casos como o de Glaidson, a alegação de posse de fundos em carteiras digitais exige provas concretas e métodos para acessar esses ativos, o que nem sempre é simples.
Advogados especializados em direito digital e criptoativos explicam que a recuperação depende de diversos fatores, como a capacidade de identificar as carteiras, obter as chaves privadas ou senhas, e a cooperação de exchanges e outras plataformas. A afirmação de Glaidson, embora promissora para os credores, ainda precisará ser corroborada por evidências tangíveis e pela capacidade de converter esses ativos digitais em moeda fiduciária para o pagamento das dívidas.
O futuro dos credores da GAS Consultoria
A declaração de Glaidson, se comprovada e viabilizada, traria um alívio significativo para os mais de 77 mil credores que esperam há anos pela devolução de seus investimentos. No entanto, o caminho para a liquidação dessas dívidas ainda é incerto. A Justiça terá que determinar a autenticidade da posse dos fundos, a forma de acessá-los e o processo para sua distribuição, o que pode levar tempo e exigir perícias técnicas complexas.
A comunidade de investidores e os administradores judiciais aguardam com expectativa os próximos desdobramentos deste caso, que se tornou um dos maiores exemplos de fraudes com criptomoedas no Brasil. A promessa de pagamento feita pelo “faraó dos bitcoins” pode ser um fio de esperança, mas a concretização dependerá da superação de barreiras tecnológicas e legais.
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