IA no trabalho: medo de substituição cai no Brasil, aponta Datafolha

IA no trabalho: medo de substituição cai entre brasileiros, revela Datafolha

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À medida que a familiaridade com ferramentas de inteligência artificial (IA) como ChatGPT e Claude aumenta no Brasil, o receio de que essas tecnologias substituam empregos tem diminuído. Uma pesquisa recente do Datafolha, realizada em junho, aponta que a parcela de brasileiros com medo de perder o emprego para a IA caiu de 56% para 48% em um ano. Paralelamente, o uso da IA no ambiente profissional registrou um crescimento notável, passando de 17% para 24% entre aqueles que já ouviram falar sobre a tecnologia.

Os dados da pesquisa contrastam com as preocupações de alguns líderes do setor de tecnologia. Dario Amodei, CEO da Anthropic, empresa por trás do chatbot Claude, recentemente publicou um documento alertando para o risco de desemprego em massa devido à IA e defendendo políticas de estímulo à contratação. Amodei é conhecido por sua visão de “catastrofista” sobre o avanço tecnológico.

Uso da IA no dia a dia do brasileiro

A pesquisa do Datafolha, que ouviu 2.004 pessoas em 139 municípios entre os dias 17 e 18 de junho, revela que, além do uso profissional, a IA tem sido empregada em outras atividades:

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  • Pesquisas na internet: 25%
  • Estudos: 17%
  • Criação de vídeos e imagens: 4%

A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. A diminuição do medo em relação à IA pode ser interpretada como um ajuste após o “catastrofismo” inicial, mais do que uma reflexão do cenário real onde a substituição de trabalhadores já começa a ocorrer em alguns setores.

Opiniões divididas sobre o impacto da IA no mercado

Economistas consultados pela Folha de S.Paulo sugerem que a queda no receio da substituição pela IA pode ser um reflexo de um ceticismo inicial que se dissipou, em vez de uma mudança fundamental no mercado. Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre, observa que “as pessoas ouviram que iria acabar o emprego de todo mundo, mas ainda existe trabalho no mercado”.

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Essa divisão de opiniões se alinha com o diagnóstico de incerteza apresentado pelo vencedor do Prêmio Nobel de Economia, Daron Acemoglu. Para ele, a IA não deve eliminar empregos na mesma proporção em que sua adoção avança. A tecnologia tem o potencial de substituir trabalhadores em tarefas específicas, reduzindo a demanda por mão de obra, mas também pode diminuir custos de produção e aumentar a eficiência, o que, por sua vez, poderia impulsionar a demanda por outros bens e serviços, criando novas oportunidades de emprego. O equilíbrio entre essas duas tendências ainda é incerto, com os ganhos de produtividade ainda em fase de consolidação.

Exposição à IA generativa no Brasil

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Um estudo do FGV Ibre, baseado em metodologia da Organização Internacional do Trabalho (OIT), indicou que, no terceiro trimestre do ano passado, quase 30 milhões de trabalhadores brasileiros estavam em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa, o que representa 29,6% da força de trabalho.

Destes, cerca de 5,2 milhões estavam no nível mais alto de exposição. Esse grupo é composto predominantemente por jovens, indivíduos com maior escolaridade, residentes da região Sudeste e trabalhadores do setor de serviços, com destaque para as áreas de informação, comunicação e serviços financeiros.

Tomás Aguirre, economista e membro do grupo Governance AI, aponta que a maioria das carreiras mais afetadas pela IA tende a se adaptar à nova economia. Isso se deve a fatores como especialização técnica, maior reserva financeira para transições e juventude.

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Baseado em dados dos EUA, o grupo sugere que profissionais de escritório, como engenheiros de computação e advogados, embora altamente expostos à IA, possuem mais recursos para se adaptar após eventuais demissões. O estudo divide a exposição à tecnologia em duas categorias: substituição e complementaridade.

O cenário brasileiro e a classe média em risco

Aguirre considera o cenário brasileiro mais preocupante. O país apresenta uma alta taxa de trabalhadores expostos à substituição pela IA e menor capacidade de poupança. “O risco que eu vejo está na classe média: ela pode ficar descoberta, porque a proteção social, pensando no Bolsa Família, não é desenhada para ela”, alerta o economista.

Devido à escolaridade e ao perfil da economia brasileira, com maior peso para o funcionalismo público e serviços menos intensivos em tecnologia, há uma concentração de ocupações ligadas a tarefas repetitivas, como em recursos humanos ou criação de jingles. Essas áreas, segundo Duque, do FGV Ibre, devem sofrer um enxugamento da força de trabalho.

“Toda revolução tecnológica tem seus perdedores de curto prazo”, afirma o economista. Os dados iniciais apontam os jovens como as principais vítimas nesse primeiro momento. Cargos gerenciais, ocupados por profissionais mais experientes, tendem a ser menos vulneráveis, pois a IA, por enquanto, não assume a tomada de decisões complexas, que é uma atribuição crescente em cargos de maior escalão.

Opinião pública sobre o uso da IA em decisões cruciais

A pesquisa Datafolha também revelou que a maioria dos brasileiros é contra o uso da automação em processos decisórios sensíveis. Por exemplo:

  • Uso de IA em contratações e demissões: 79% consideram inadequado.
  • Uso de IA em decisões sobre tratamentos médicos: 68% desaprovam.
  • Decisões automatizadas na concessão de crédito: 67% são contrários.

A adoção de IA em processos de recrutamento e seleção, bem como em departamentos de RH para definir cortes, já é uma realidade em plataformas como Gupy e Infojobs. No entanto, a opinião pública demonstra resistência quanto à aplicação da tecnologia em decisões que afetam diretamente a vida das pessoas.

O futuro do trabalho e a adaptação à era da IA

O avanço da inteligência artificial no mercado de trabalho é inegável, e a percepção dos brasileiros sobre seu impacto está em constante evolução. Enquanto o medo da substituição diminui, o uso da tecnologia cresce, abrindo novas possibilidades e desafios. A adaptação dos trabalhadores, a criação de novas políticas de proteção social e o debate ético sobre o uso da IA em decisões críticas serão fundamentais para moldar o futuro do trabalho no Brasil.

A incerteza sobre o saldo final entre a destruição e a criação de empregos pela IA persiste. No entanto, a pesquisa Datafolha oferece um vislumbre importante sobre como a sociedade brasileira está reagindo a essa transformação, indicando uma crescente aceitação e familiaridade com a tecnologia, acompanhada de cautela em relação a seus usos mais sensíveis.

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