Trabalhadores estrangeiros no Japão enfrentam barreiras e sentimento de não pertencimento
O Japão, um país que enfrenta um severo declínio demográfico, tem visto um aumento no número de trabalhadores estrangeiros essenciais para a manutenção de sua economia e sociedade. No entanto, uma nova legislação e um sentimento crescente de descontentamento popular parecem criar um ambiente cada vez menos acolhedor para esses imigrantes. O aumento significativo nas taxas para renovação de vistos e obtenção de residência permanente, somado a políticas de imigração mais restritivas, levanta preocupações sobre o futuro de milhares de estrangeiros que buscam construir uma vida no país.
Srijana Sunar, nepalesa de 29 anos, exemplifica a frustração de muitos. Trabalhando no Japão desde 2018, ela se chocou com o aumento das taxas para renovação de visto, que saltaram de 10 mil ienes (cerca de R$ 320) para um máximo de 100 mil ienes (aproximadamente R$ 3.200) a cada três anos. Com um salário mensal de 145 mil ienes (R$ 4.600), esse custo representa uma parcela considerável de sua renda, dificultando seus planos de estabilidade a longo prazo.
Seu marido, Spandan Sunar, que reside no Japão desde 2016, expressa um sentimento de desvalorização. “Nossos esforços de longo prazo não foram recompensados pela sociedade japonesa”, declarou. Apesar de ter visto regular, cumprir as leis e pagar impostos, o casal sente que sua liberdade de escolha de empregos e condições de trabalho é limitada. Eles sonham em obter a residência permanente, mas o aumento da taxa para este processo, que pode chegar a 300 mil ienes (R$ 9.600), somado à exigência de uma renda anual superior a 3 milhões de ienes (R$ 95,9 mil), apresenta um obstáculo financeiro considerável.
A necessidade de mão de obra estrangeira no Japão
O Japão tem enfrentado um declínio populacional acentuado. Em abril de 2025, a população japonesa era de aproximadamente 119,7 milhões de pessoas, uma queda de 941 mil em relação ao ano anterior. Para mitigar essa crise demográfica e a consequente escassez de mão de obra, o país tem visto um aumento constante no número de estrangeiros. No final de 2025, cerca de 4,12 milhões de estrangeiros residiam no Japão, um aumento de mais de 356 mil em relação ao ano anterior, representando aproximadamente 40% da compensação do declínio populacional.
Toshihiro Menju, especialista em políticas migratórias japonesas, ressalta a indispensabilidade dos trabalhadores estrangeiros. “Sem eles, a sociedade não funcionaria”, afirma. Ele destaca que o aumento da participação feminina no mercado de trabalho e o uso de robótica, embora importantes, não são suficientes para suprir a demanda. “A realidade é que o número de trabalhadores estrangeiros tem aumentado em diversos setores, desde profissões altamente qualificadas até áreas de cuidados essenciais. As pessoas que sustentam a infraestrutura fundamental da sociedade estão diminuindo”, conclui.
Endurecimento das políticas de imigração
Em janeiro, o governo japonês aprovou um pacote de medidas mais restritivas para estrangeiros, sob o pretexto de “medidas abrangentes para a aceitação e coexistência de estrangeiros”. Essa iniciativa, que surgiu após a criação de um Departamento de Políticas para Estrangeiros em novembro de 2025, inclui o dobro do tempo de residência necessário para naturalização, passando para dez anos consecutivos, e a introdução de requisitos de proficiência na língua japonesa para a obtenção da residência permanente.
Takashi Yamashita, parlamentar do Partido Liberal Democrata e presidente de uma equipe de projeto ligada ao Departamento de Políticas para Estrangeiros, justifica as medidas: “Muitos dos nossos sistemas não foram concebidos pensando em um número tão grande de visitantes e residentes estrangeiros.” Ele afirma que o governo busca traçar uma linha clara, apoiando aqueles que utilizam o sistema corretamente e adotando uma postura rígida contra o uso indevido, visando eliminar a “sensação de injustiça” entre a população. Contudo, ele também reconhece a importância de criar um ambiente onde os residentes estrangeiros legais possam viver com tranquilidade.
No entanto, para profissionais como Yanika Roongpairoj, pesquisadora tailandesa de 35 anos, as novas regras impactaram seus planos de longo prazo. Apesar de ter obtido um doutorado no Japão em 2024 e ter uma carreira promissora na área farmacêutica, ela admitiu que as mudanças políticas afetaram suas projeções futuras no país.
Crescimento do sentimento negativo em relação a estrangeiros
O endurecimento das políticas ocorre em um contexto de crescente preocupação da população japonesa em relação aos estrangeiros. Uma pesquisa realizada pelo jornal Nikkei entre outubro e dezembro de 2025 revelou que 37% dos entrevistados consideram “ruim” o aumento do número de estrangeiros em locais de trabalho e comunidades, um aumento de dez pontos percentuais em relação a 2024.
Um consultor japonês anônimo de 26 anos em Tóquio expressou sua preocupação com a “convivência promovida de forma descontrolada, sem compreensão e concessões suficientes em questões relacionadas à segurança pública e às normas sociais.” Ele citou exemplos cotidianos, como pessoas ouvindo música sem fones de ouvido ou falando ao telefone em trens, comportamentos que, embora sutis, geram desconforto em uma sociedade que valoriza a discrição.
Koki Yamaguchi, estudante japonês de pós-graduação, percebe um sentimento de ameaça à cultura e identidade do Japão. “Um sentimento negativo está gradualmente se acumulando entre os japoneses, de que a cultura e a identidade do Japão estão sendo ameaçadas por outros países”, afirmou.
Ascensão da ultradireita e xenofobia velada
O partido de ultradireita Sanseito capitalizou esse sentimento popular com o slogan “Japão para os japoneses”, obtendo ganhos significativos nas eleições para a Câmara Alta em julho de 2025. Sachi Takaya, professora associada da Universidade de Tóquio, observa que o partido “conseguiu definir a agenda em torno da questão dos estrangeiros”. Ela critica o governo Takaichi por, na prática, implementar políticas xenófobas, apesar de afirmar o contrário.
A professora também relembra que o governo do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe evitava debates diretos sobre imigração, mas expandiu a presença de trabalhadores estrangeiros através do sistema de Trabalhador Qualificado Específico. A postura mais dura do atual governo em relação aos trabalhadores estrangeiros levanta dúvidas sobre seu real impacto na redução de sua presença no país.
Um futuro incerto para os trabalhadores estrangeiros
Para Spandan Sunar, o futuro no Japão é incerto. Apesar dos altos custos e das políticas mais rigorosas, ele e sua esposa sentem que permanecer no país é a única opção viável. “Não há outra alternativa senão ficar no Japão”, disse. Ele alerta que seria uma “perda” para o Japão se as novas políticas levassem trabalhadores estrangeiros a deixar o país. “Criar um ambiente em que sejamos incentivados a permanecer e contribuir acabaria beneficiando o Japão”, concluiu, ressaltando a importância de um ambiente acolhedor para o desenvolvimento do país.
A situação dos trabalhadores estrangeiros no Japão é complexa, marcada pela necessidade econômica de mão de obra e por um crescente sentimento de resistência cultural e social. As novas políticas e o aumento das taxas representam desafios significativos para aqueles que buscam estabilidade e integração, levantando questões sobre a capacidade do Japão de equilibrar suas necessidades demográficas com a criação de uma sociedade verdadeiramente inclusiva.