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Bancos apertam crédito e veem piora com calotes em 2026

Bancos veem piora do crédito e sinalizam aperto nos empréstimos diante da alta dos calotes

O cenário para a obtenção de crédito no Brasil em 2026 apresenta-se cada vez mais desafiador. Bancos privados, economistas e analistas convergem na avaliação de que o acesso a empréstimos se tornará mais restrito e custoso nos próximos meses. Essa perspectiva é impulsionada por uma combinação de juros elevados, que persistem acima do esperado, e pelo comprometimento significativo da renda das famílias brasileiras, fatores que elevam o risco de inadimplência e levam as instituições financeiras a adotar uma postura mais cautelosa.

Milton Maluhy, presidente do Itaú Unibanco, o maior banco do país, declarou em teleconferência com analistas que “o ciclo do crédito vai ser desafiador”. Ele ressaltou um “excesso de crédito dado pelo mercado” e afirmou que, neste momento, prefere abrir mão de crescimento e participação de mercado a correr o risco de lidar com a inadimplência futura. Essa cautela se reflete nas estratégias adotadas, com prioridade em reduzir o risco em detrimento da expansão agressiva da carteira de crédito.

O Bradesco também sinalizou uma política de maior prudência. Marcelo Noronha, presidente do banco, informou que a instituição está “reduzindo o crédito pessoal e fazendo colateralizado”, indicando uma preferência por operações com garantias. Essa abordagem visa mitigar os riscos inerentes a um ambiente econômico incerto.

Aumento das provisões para perdas com calotes

A cautela dos executivos se materializa nos balanços financeiros divulgados pelas três maiores instituições financeiras privadas do país – Itaú Unibanco, Bradesco e Santander. No segundo trimestre de 2026, essas instituições somaram R$ 28,7 bilhões em provisões para perdas com calotes, um aumento de 12,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Esse “colchão de segurança” cresceu a um ritmo superior ao da carteira de crédito, que avançou apenas 9,4%, atingindo R$ 3,37 trilhões.

Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, descreve o momento como “difícil para o setor bancário”, citando a inflação que corrói a renda das famílias e os juros altos que diminuem a capacidade de financiamento das empresas. Essa conjuntura pressiona a saúde financeira de indivíduos e corporações, elevando o risco para o sistema bancário.

Inadimplência em patamares históricos

Em maio de 2026, a inadimplência geral do sistema financeiro atingiu o pico da série histórica iniciada pelo Banco Central em 2011, chegando a 4,74% de todo o crédito concedido em atraso há mais de 90 dias. Embora tenha ocorrido uma ligeira queda para 4,68% em junho, após o início do programa Desenrola 2.0, o indicador permanece significativamente acima da média histórica de 3,29%.

Flávio Ataliba, pesquisador do FGV IBRE, atribui essa alta não apenas à taxa Selic em 14%, mas também à precificação de juros futuros ainda elevados, reflexo da percepção de risco fiscal no Brasil. “Quanto mais medo de calote, mais se cobra para emprestar dinheiro”, explica, elevando o custo do crédito.

A expectativa inicial para o fim de 2026 era de uma queda da Selic para a faixa de 12%. Contudo, as projeções atuais indicam apenas mais uma redução de 0,25 ponto percentual, levando a taxa a 13,75%. Essa persistência de juros altos impacta diretamente a capacidade de pagamento de devedores e o custo de novas captações.

Comprometimento da renda e inflação de alimentos

Outro fator de preocupação é a inflação dos alimentos, que consome mais de 23% do orçamento das famílias com renda de até um salário mínimo, segundo Ataliba. Esse cenário agrava a situação financeira das populações de menor renda, tornando-as mais vulneráveis ao endividamento.

O comprometimento da renda das famílias com dívidas bancárias, em relação à renda acumulada nos últimos 12 meses, atingiu 49,93% em janeiro de 2026, o pico da série iniciada em 2005 pelo Banco Central. Esse percentual se manteve próximo a esse patamar até maio, último dado disponível, indicando um endividamento elevado e persistente.

Perspectivas para o mercado de crédito em 2026

Apesar de o desemprego se encontrar em mínimas históricas, a perspectiva para os próximos meses não é de melhora significativa. O mercado antecipa uma desaceleração da atividade econômica como consequência direta dos juros altos, o que pode impactar a geração de empregos e a renda.

“A transmissão da Selic na ponta é muito lenta. Olhando esses sinais, a tendência é que a inadimplência piore ou, no mínimo, se estabilize no segundo semestre”, avalia Ataliba. A lentidão na transmissão da política monetária significa que os efeitos da alta dos juros demoram a se manifestar plenamente na economia, prolongando o período de aperto.

Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, sugere que eventos externos como o fim da guerra no Oriente Médio e um El Niño menos intenso poderiam criar espaço para cortes mais expressivos na Selic, beneficiando o mercado de crédito. No entanto, ele enfatiza que “para discutirmos juros estruturalmente mais baixos e uma aceleração sustentável do ciclo de cortes, é inevitável falar sobre o fiscal”. A sustentabilidade da política monetária está intrinsecamente ligada à responsabilidade fiscal do governo.

Os bancos, por sua vez, esperam um ajuste fiscal no próximo mandato presidencial, independentemente do candidato eleito. Essa expectativa é fundamental para a ancoragem das projeções de longo prazo e para a redução do risco país.

Restrição de crédito e foco em garantias

Diante do cenário de juros elevados, inadimplência crescente e renda comprometida, o risco para os bancos aumenta. “Isso gera um maior custo do crédito e uma postura mais cuidadosa por parte dessas empresas”, explica Lin. Como resultado, a oferta de crédito para consumidores de baixa renda tem sido restringida, e há uma preferência clara por empréstimos com garantias.

As linhas de crédito que têm recebido maior atenção incluem o crédito consignado para trabalhadores CLT, financiamentos imobiliários e de veículos com colateral, e linhas com garantia governamental via FGI (Fundo Garantidor para Investimentos) e FGO (Fundo Garantidor de Operações) para pequenas e médias empresas. Essa segmentação visa priorizar operações com menor risco de inadimplência.

Desempenho dos grandes bancos

Apesar da melhora geral em algumas métricas, os três principais bancos privados do país aumentaram suas proteções contra calotes no segundo trimestre. Itaú Unibanco e Bradesco afirmaram que o aumento da Provisão para Devedores Duvidosos (PDD) acompanhou o crescimento da carteira de crédito. Já o Santander citou o cenário macroeconômico, apresentando o balanço mais impactado entre os pares, com lucro abaixo do esperado devido ao maior gasto com PDD.

Análises da XP indicam que a carteira de crédito do Santander segue praticamente estagnada, com o banco em fase de ajuste de portfólio e reconhecimento de riscos. A corretora estima que “a normalização do custo do crédito ainda deve levar alguns trimestres”.

Mesmo o Itaú, que historicamente apresenta o menor índice de inadimplência (1,9% há seis trimestres), registrou uma deterioração. O BTG classificou os resultados do segundo trimestre de 2026 como mais fracos que o usual, mas destacou a solidez dos ativos e um nível de provisões considerado conservador.

O Itaú também revisou para baixo sua projeção de receita com serviços e seguros para 2026, de 5% a 9% para 2% a 5%. O ajuste se deve à maior volatilidade de mercado e à menor receita com tarifas de cartões, enquanto os custos associados a esse produto para alta renda seguem em alta.

O Bradesco, por sua vez, ainda lida com maior inadimplência. Apesar de aumentar a participação de créditos com garantia na carteira de 58,5% para 61%, os empréstimos ao varejo continuam sendo um ponto de atenção, segundo o Citi. O custo de crédito para os clientes do Bradesco subiu para 5,9%, ante 5,5% no início do ano.

“Daqui para frente, a principal discussão será se o ritmo de crescimento das receitas e os ganhos de eficiência conseguirão continuar superando os custos de crédito mais elevados, à medida que o ciclo de crédito brasileiro se torna mais desafiador”, comentam analistas do Citi. A capacidade de gerar valor em um ambiente de crédito mais adverso será crucial.

Apesar dos desafios, executivos do Bradesco reafirmaram suas previsões de resultado para o ano, esperando uma expansão de 8,5% a 10,5% para a carteira de crédito. Contudo, considerando o crescimento de 11,6% no primeiro semestre, a expectativa é de uma desaceleração gradual nas concessões daqui para frente.

Resumo da situação

O cenário de crédito em 2026 é marcado por uma deterioração generalizada, com bancos elevando provisões para perdas com calotes e restringindo a oferta de empréstimos. Juros altos, inflação persistente e o alto comprometimento da renda familiar são os principais vetores dessa tendência. Instituições financeiras focam em operações com garantias e crédito consignado, enquanto o crédito pessoal e para empresas sem lastro adequado torna-se mais escasso. A recuperação do mercado de crédito depende, em grande medida, de uma melhora no quadro fiscal e de uma eventual queda sustentada da taxa Selic.

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