Big techs exploram e vendem nossas vulnerabilidades emocionais, diz pesquisadora britânica
Em um mundo cada vez mais conectado, as grandes empresas de tecnologia detêm um conhecimento profundo sobre seus usuários, muitas vezes superando até mesmo o de seus círculos sociais mais próximos. Essa capacidade de identificar padrões de comportamento, emoções e até mesmo fragilidades psicológicas é, segundo a pesquisadora britânica Kaitlyn Regehr, explorada comercialmente, levantando sérias preocupações sobre ética e segurança digital. Em entrevista à BBC News Brasil, Regehr, autora do livro “Nação Smartphone”, detalha como o modelo de negócios das redes sociais se baseia na maximização da atenção, mesmo que isso signifique amplificar conteúdos nocivos e explorar vulnerabilidades emocionais.
A discussão ganhou ainda mais força com recentes decisões e movimentos regulatórios globais. O Reino Unido anunciou a proibição do uso de principais redes sociais por menores de 16 anos, enquanto no Brasil, o governo tem intensificado a fiscalização sobre plataformas digitais, buscando maior controle sobre a disseminação de conteúdos prejudiciais, incluindo aqueles relacionados a indução ao suicídio, terrorismo e violência contra mulheres. Esses avanços ocorrem em um cenário de pressão internacional crescente para responsabilizar as empresas de tecnologia não apenas pelo conteúdo publicado, mas também pelo funcionamento de seus algoritmos e sistemas de recomendação.
O julgamento histórico na Califórnia e o foco nos algoritmos
Um marco nesse debate foi a decisão de um júri na Califórnia em março, que concluiu que Meta (Facebook e Instagram) e Google (YouTube) contribuíram para uma crise de saúde mental entre jovens. O caso, movido por uma jovem que alegou ter desenvolvido dependência das plataformas desde a infância, resultando em dismorfia corporal, depressão e pensamentos suicidas, culminou na condenação das empresas a pagar US$ 6 milhões em indenização. Regehr destaca a importância desse julgamento por deslocar o foco da liberdade de expressão para o funcionamento intrínseco das plataformas, especialmente seus sistemas algorítmicos.
“Não se tratava do direito de alguém publicar sua jornada suicida, mas se a Meta tinha o direito de oferecer algoritmicamente esse conteúdo a uma criança”, explicou Regehr, enfatizando que a responsabilidade recai sobre os processos tecnológicos que disseminam o conteúdo, e não apenas sobre o conteúdo em si. Essa perspectiva abre caminho para questionar os mecanismos que tornam as plataformas viciantes e manipuladoras, características que moldaram a experiência digital nas últimas duas décadas.
O modelo de negócios: atenção a qualquer custo
O modelo de negócios das redes sociais, segundo Regehr, é intrinsecamente desenhado para capturar e reter a atenção do usuário. Para isso, os algoritmos frequentemente priorizam conteúdos que geram engajamento, o que muitas vezes inclui desinformação, discurso de ódio e narrativas que exploram as inseguranças e medos das pessoas. Essa atenção extra é o que os anunciantes pagam para obter, criando um ciclo onde o dano pode ser monetizado.
“Desinformação costuma ser mais atraente do que a verdade, e conteúdos que exploram nossas vulnerabilidades conseguem nos manter ali por mais tempo. É essa atenção extra que os anunciantes estão pagando para obter”, afirma a pesquisadora. Ela critica a abordagem de “limpeza posterior” das legislações de segurança online, que focam na remoção de conteúdos ilegais após o dano ter ocorrido, em vez de abordar a segurança desde a concepção (safety by design) das plataformas.
Ferramentas de controle parental e a eficácia questionada
As empresas de tecnologia frequentemente argumentam que oferecem controles parentais e ferramentas de bem-estar digital para mitigar os riscos. No entanto, pesquisas indicam que a eficácia dessas ferramentas é limitada. Muitas delas simplesmente não funcionam, e as que funcionam são facilmente contornadas por crianças e adolescentes. Além disso, mesmo quando utilizadas, há poucas evidências de que melhorem significativamente o bem-estar digital dos usuários.
Regehr também expressa ceticismo em relação à ideia de que as empresas que criaram o vício devam oferecer as soluções. Ela sugere que limites mais drásticos, como a remoção temporária do dispositivo, podem ser mais eficazes. A pesquisadora também destaca que a publicidade, através da “segmentação emocional”, explora momentos de vulnerabilidade, como a exclusão de uma foto, para vender produtos ou reforçar inseguranças, ampliando ainda mais o ciclo de dependência.
Microdosagem de conteúdo nocivo e o impacto em adolescentes
Um dos aspectos mais preocupantes levantados pela pesquisa de Regehr é a “microdosagem de dano”. Esse processo envolve a exposição contínua e gradual a conteúdos nocivos, como misoginia e discurso de ódio, de forma lenta e quase imperceptível para o usuário. Adolescentes, em fase de desenvolvimento mental e emocional, são particularmente vulneráveis a esses conteúdos, que podem amplificar inseguranças, problemas de imagem corporal e ansiedade.
“Elas amplificam vulnerabilidades que já existem”, explica Regehr. Ela exemplifica com a disseminação de narrativas que culpam minorias pelo futuro incerto de jovens, um tipo de conteúdo que, em microdoses constantes, pode ser mais facilmente assimilado e acreditado. O foco, portanto, não é um único post, mas o efeito cumulativo de uma exposição prolongada e direcionada.
Regulamentação e o futuro da segurança digital
Diante desse cenário, a regulamentação emerge como um caminho crucial. A participação de Regehr na elaboração do Online Safety Act no Reino Unido, embora crítica de suas limitações, demonstra a importância de legislações que obriguem as plataformas a protegerem seus usuários, especialmente crianças e adolescentes. No Brasil, o debate em torno do ECA Digital, com medidas como restrições ao perfilamento de menores e verificação de idade, aponta para uma direção semelhante.
Contudo, a pesquisadora ressalta que a eficácia dessas leis depende de sua aplicação rigorosa e da imposição de penalidades reais. Ela argumenta que as empresas de tecnologia possuem informações valiosas sobre seus usuários e, portanto, têm a responsabilidade de protegê-los. A criação de mecanismos para que as plataformas informem autoridades sobre riscos de automutilação ou suicídio em crianças e adolescentes é outra medida essencial que atualmente carece de implementação efetiva.
Dieta digital: qualidade sobre quantidade
Regehr propõe o conceito de “dieta digital”, enfatizando a importância da qualidade do conteúdo consumido, em contraposição ao foco excessivo em tempo de tela ou restrições de aplicativos. Uma dieta digital saudável envolveria a priorização de conteúdos educativos e socialmente positivos. Para crianças, ela sugere o uso de telas maiores em ambientes coletivos, como assistir TV em família, em detrimento do uso solitário de feeds algorítmicos em dispositivos individuais.
Para adultos, a reflexão sobre a origem das informações e a busca por conteúdos que informem, eduquem e desafiem o pensamento crítico é fundamental. A pesquisadora também alerta para o fenômeno do “sharenting”, o compartilhamento excessivo de imagens de crianças por pais nas redes sociais, que pode expor os menores a riscos futuros, incluindo roubo de identidade. Ela recomenda o travamento de contas, a observação cuidadosa do conteúdo compartilhado e a conversa sobre consentimento desde cedo.
Em suma, a exploração das vulnerabilidades emocionais pelas big techs é uma realidade complexa, impulsionada por um modelo de negócios focado na maximização da atenção. A necessidade de regulamentação robusta, o foco na segurança desde a concepção dos produtos digitais e a promoção de uma “dieta digital” mais consciente são passos essenciais para mitigar os danos e garantir um futuro digital mais seguro e saudável para todos.