Bom senso e pânico: o que o mercado aprendeu com a crise?
A antiga máxima de René Descartes, de que o bom senso é o bem mais distribuído entre os homens, parece ter guiado os mercados financeiros globais nas semanas de intensa tensão que antecederam o acordo entre Estados Unidos e Irã. As bolsas de valores mantiveram-se próximas de níveis recordes, como se um desfecho razoável fosse uma certeza inabalável. No entanto, confundir um desfecho favorável com a ausência total de risco é um erro recorrente, e desta vez, o mundo esteve perigosamente perto de aprender essa lição da maneira mais difícil.
O entendimento firmado entre as partes estendeu o cessar-fogo por 60 dias e permitiu a reabertura do Estreito de Hormuz, rota essencial por onde transitava cerca de 14% do consumo mundial de petróleo antes do conflito. Contudo, a própria natureza do acordo já revelava fragilidades: tratava-se de um Memorando de Entendimento (MoU), e não de um acordo formal, e crucialmente, não incluía Israel, a quem se exigia, paradoxalmente, a suspensão de ataques no sul do Líbano. O próprio presidente dos EUA, Donald Trump, em sua comunicação via Twitter, foi explícito: “Não, não é definitivo, é apenas um MoU”, alertando que os ataques poderiam ser retomados.
Apesar dessas ressalvas, o anúncio do acordo trouxe um alívio significativo. A perspectiva de uma escalada do conflito por mais algumas semanas era assustadora. Os estoques globais de petróleo já haviam sofrido uma redução drástica de 400 milhões de barris desde o início da crise e continuavam a diminuir a um ritmo alarmante de 6 milhões de barris por dia. Um nível crítico de estoques poderia levar a um aumento explosivo dos preços, desencadeando uma recessão global. Não foi à toa que Trump saudou o acordo com a exaltação “Let the oil flow!” (Deixe o petróleo fluir!).
A ascensão do “pânico silencioso” nos mercados
Os riscos, porém, não eram invisíveis a todos. Pouco antes do acordo, o termo “pânico” começou a ecoar na imprensa internacional. O New York Times citou a chefe de commodities de um grande banco americano, que descreveu “um pânico silencioso se estabelecendo”. O renomado economista e ganhador do Prêmio Nobel, Paul Krugman, admitiu sentir “um certo pânico” (“I am in a bit of panic”). Apesar desses alertas, o mercado financeiro permaneceu amplamente impassível, ancorado na crença de que o bom senso, invariavelmente, prevaleceria.
As razões para a busca de um acordo eram claras: o Irã, com sua economia fragilizada, necessitava desesperadamente restabelecer o fluxo de divisas provenientes de suas exportações de petróleo. Os Estados Unidos, após declararem publicamente que não haveria acordo com Teerã a não ser a “rendição incondicional”, agora se viam na posição de admitir o impasse e buscar uma saída que, embora talvez não pudesse ser chamada de “honrosa”, ao menos pudesse ser vista como realista. A necessidade mútua criou um terreno fértil para a diplomacia, ainda que tensa.
A repetição de manchetes e a sensação de “O Dia da Marmota”
Durante as semanas que antecederam o acordo, a imprensa internacional foi palco de um fluxo constante de notícias sobre o desenrolar das negociações. Em um dia, os avanços pareciam iminentes; no dia seguinte, o Irã negava a conclusão das discussões; em outro, nações vizinhas eram consultadas; e, em seguida, ataques pontuais de ambos os lados faziam os entendimentos retroceder. Essa dinâmica repetitiva, com manchetes que pareciam ecoar as de dias anteriores, gerou uma sensação de déjà vu, comparável ao filme “O Dia da Marmota”, onde a mesma situação se repete indefinidamente.
Foi essa atmosfera de negociações intermináveis e a aparente confiança generalizada em um desfecho favorável que me remeteram a um episódio similar em que também apostei no bom senso e errei: a Guerra das Malvinas, em 1982.
A Guerra das Malvinas: uma lição de bom senso falho
Assim como na crise recente, as negociações na Guerra das Malvinas pareciam se arrastar. Em resposta à invasão argentina das Ilhas Falkland (Malvinas), uma formidável força-tarefa naval britânica zarpou em 5 de abril, enfrentando uma jornada de 13 mil quilômetros. Diariamente, os jornais reportavam o avanço da frota, que, aos meus olhos de estagiário em um hedge fund em Paris, não demonstrava pressa excessiva, enquanto as tratativas diplomáticas se desenrolavam com seus inevitáveis avanços e recuos.
Naquela época, a percepção geral entre colegas e investidores era de que o bom senso se imporia. A Argentina, diante da clara superioridade bélica britânica, retiraria suas tropas das ilhas antes da chegada da esquadra. Durante os 27 dias que separaram a partida da frota de Portsmouth do início do conflito armado, o mercado financeiro apostou consistentemente nessa hipótese.
Contudo, o bom senso não compareceu. Em 2 de maio, os britânicos afundaram o cruzador argentino General Belgrano, marcando o início do conflito que se estendeu até 14 de junho, culminando na rendição argentina. A guerra resultou na morte de 649 militares argentinos, 255 britânicos e 3 civis ilhéus. O presidente argentino, Leopoldo Galtieri, renunciou três dias após a rendição, evidenciando o custo humano e político de uma aposta equivocada no bom senso.
O legado do MoU e a urgência da transição energética
No caso atual, o risco de um fechamento prolongado do Estreito de Hormuz parece, ao menos por ora, afastado. As projeções indicam que os preços do petróleo levarão tempo para retornar aos níveis pré-guerra, não apenas pela fragilidade do MoU, mas também pelo tempo necessário para a delicada remoção de minas nas águas do estreito. Ainda assim, a existência do acordo afasta o risco imediato de uma explosão de preços capaz de desencadear uma recessão global.
Isso não sugere que as preocupações com o risco fossem infundadas. Pelo contrário. A situação convida a uma reflexão final: o bom senso, em sua natureza ponderada, frequentemente adia. O pânico, com toda a sua carga de irracionalidade, possui uma virtude que o bom senso tende a dispensar: ele obriga à ação. A instabilidade geopolítica, como demonstrado, é um catalisador poderoso para mudanças.
Uma pesquisa recente da agência Public First, que consultou 2.000 executivos em 18 países, revelou que 80% deles consideram que a instabilidade geopolítica tornou mais urgente a substituição de fontes de energia fóssil por renováveis. Se o susto das últimas semanas servir para acelerar a transição energética e reduzir a vulnerabilidade global a gargalos marítimos estratégicos como o Estreito de Hormuz, poderemos descobrir que o verdadeiro legado desta crise não foi o frágil memorando que a encerrou, mas a sensação de urgência que ela provocou. Às vezes, um certo pânico, com sua capacidade de forçar a ação, pode ser mais benéfico para a prudência do que uma confiança excessiva no império do bom senso.
Conclusão: Equilibrando bom senso e a necessidade de ação
A análise do episódio recente no Golfo Pérsico e a comparação com a Guerra das Malvinas sublinham a complexa relação entre bom senso e pânico no cenário global. Enquanto o bom senso nos guia a esperar desfechos racionais, o pânico, com sua urgência intrínseca, pode ser o motor necessário para impulsionar mudanças cruciais e evitar catástrofes maiores. A crise em torno do Estreito de Hormuz, apesar de suas incertezas, pode ter plantado a semente para um futuro energético mais seguro e resiliente, impulsionado pela percepção de risco e pela necessidade de ação.