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China: Clima e tarifas impulsionam pecuária bovina

Como mudanças climáticas e tarifas ajudam a China a criar mais gado

A paisagem de Tongliao, na Mongólia Interior, outrora dominada pela aridez do deserto de Gobi, transformou-se radicalmente. De uma região de areia, cascalho e camelos, emergiu como um centro florescente para a indústria pecuária chinesa. Nas últimas décadas, um esforço governamental e, surpreendentemente, as próprias mudanças climáticas, têm revertido a desertificação, criando vastas áreas de pastagens férteis e plantações de milho. Este fenômeno, aliado a estratégias tarifárias protecionistas, está redefinindo a autossuficiência alimentar da China e exercendo influência significativa no mercado global de carne bovina, avaliado em US$ 500 bilhões.

O rebanho nacional de gado de corte da China cresceu impressionantes um terço desde 2018, alcançando quase 90 milhões de cabeças. Desse total, Tongliao, uma área antes considerada inóspita, agora abriga quase 4 milhões de animais. Shen Zhixin, engenheiro sênior de pastagens, descreve a mudança: “A situação agora se inverteu: a areia está recuando, o verde está se expandindo”. Essa transformação não é apenas um feito local; os verões mais chuvosos no norte da China, um reflexo das alterações climáticas globais, têm o potencial de revolucionar a indústria global de carne bovina, com implicações diretas para países exportadores como Argentina, Austrália, Brasil e Estados Unidos.

A China como potência emergente na produção de carne bovina

A China, já o maior importador mundial de carne bovina, respondendo por dois terços das exportações argentinas e parcelas significativas de outros países, está ativamente buscando aumentar sua autossuficiência. O país, que já possui a terceira maior produção de gado do mundo, atrás apenas de Brasil e EUA, não se contenta em apenas aumentar o volume de animais. Há um esforço concentrado em criar gado de corte maior e de melhor qualidade. Nesse sentido, a China compete anualmente com a União Europeia como a principal importadora de sêmen de touro para inseminação artificial, evidenciando um investimento em tecnologia e genética.

Paralelamente à expansão da produção interna, Pequim implementou medidas para proteger seu mercado de importações mais baratas. Tarifas de 55% são aplicadas a importações de carne bovina que excedem cotas anuais estabelecidas por país. Países como Austrália e Brasil já sentiram o impacto dessas políticas, com suas exportações sendo atingidas pelas tarifas após o cumprimento das cotas.

O papel das mudanças climáticas na recuperação de terras

A narrativa oficial chinesa atribui a recuperação de áreas desérticas como Tongliao a décadas de plantio de árvores e à instalação de painéis solares, que estabilizaram as areias e mitigaram os ventos secos. No entanto, dados do Centro Nacional do Clima chinês indicam que as mudanças climáticas também desempenham um papel crucial. Desde a década de 1990, grandes extensões do norte da China tornaram-se significativamente mais úmidas. A precipitação anual aumentou, permitindo que áreas anteriormente áridas sustentem pastagens e plantações, apesar da qualidade do solo em muitas regiões ainda ser um desafio.

Para gerenciar essas novas áreas verdes e evitar o pastoreio excessivo, as autoridades chinesas implementaram um sistema rigoroso. O pastoreio é estritamente proibido em áreas de restauração, e o feno das novas pastagens é colhido mecanicamente e distribuído aos agricultores para alimentar o gado em currais. Sensores de movimento monitoram as áreas para detectar e remover animais infratores, com multas aplicadas aos proprietários.

Melhoria genética e desafios para pequenos produtores

A China também está focada em melhorar a qualidade de seu gado nativo. Tradicionalmente criado para puxar arados, o gado chinês é mais resistente a doenças e condições climáticas adversas, mas menor e com menor teor de carne. Através da inseminação artificial, essas raças estão sendo cruzadas com gado Simental suíço e Angus, resultando em animais que podem pesar o dobro do gado local. Essa estratégia visa não apenas aumentar a produção de carne, mas também a qualidade.

Apesar dos avanços, a indústria enfrenta desafios. O setor imobiliário chinês passou por uma desaceleração, levando muitas famílias a reduzir o consumo de carne bovina em favor de aves e suínos. Isso, combinado com o aumento da produção doméstica, levou a uma queda de 21% nos preços do atacado da carne bovina em 2024, causando revolta entre pequenos agricultores que haviam investido pesadamente na criação de gado. Embora os preços estejam agora se recuperando, impulsionados pelas restrições de importação, a dependência de raças importadas e a desconfiança de alguns pequenos produtores em relação a elas persistem.

Impacto econômico e social

A transformação de Tongliao é um microcosmo do desenvolvimento chinês. Além da pecuária, a região se tornou um importante centro de fabricação de turbinas eólicas, que abastecem grandes cidades ao sul. O aumento da produção de carne bovina, a expansão das lavouras de milho e a industrialização contribuíram para um aumento acentuado no padrão de vida local. A mecanização substituiu o trabalho animal no campo, e a posse de carros tornou-se comum, uma mudança drástica em comparação com o passado, onde camelos eram o principal meio de transporte.

Em 2015, a China importava menos de 500 mil toneladas de carne bovina. Esse número explodiu para um pico de 2,87 milhões de toneladas em 2024, um crescimento vertiginoso que beneficiou pecuaristas globais. No entanto, a queda de preços em 2024 e as subsequentes medidas protecionistas indicam uma mudança de estratégia. A China limitou suas importações totais para 2,69 milhões de toneladas este ano, utilizando o sistema de cotas e a ameaça de tarifas. Essa política é politicamente delicada, especialmente considerando a oposição da China às tarifas impostas pelos EUA e pela UE sobre suas exportações.

Perspectivas futuras para o mercado de carne bovina

Embora a autossuficiência completa em carne bovina seja improvável para a China em um futuro próximo, devido à sua vasta população, a trajetória atual aponta para um aumento significativo na produção doméstica. A combinação de condições climáticas favoráveis em certas regiões, investimentos em tecnologia e genética, e políticas comerciais protecionistas, está fortalecendo a posição da China como um produtor relevante de carne bovina. Isso representa um desafio e uma oportunidade para os mercados internacionais, que precisarão se adaptar a essa nova dinâmica de oferta e demanda global.

Os preços da carne bovina no atacado subiram 17,6% desde a mínima de março do ano passado, refletindo o impacto das restrições de importação e o fortalecimento da produção local. Para agricultores em regiões como Tongliao, isso sinaliza um período de maior prosperidade, consolidando a transformação de uma paisagem árida em um centro vital para a segurança alimentar e o desenvolvimento econômico da China.

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