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Crise de Combustíveis: Jogo Arriscado de Trump em Hormuz

Jogo arriscado de Trump em Hormuz piora a crise global de combustíveis

Em meados de julho, o presidente Donald Trump anunciou uma medida que prometia abalar os mercados globais de energia: o restabelecimento do bloqueio naval ao Irã e a imposição de uma taxa de 20% sobre as cargas que transitassem pelo estratégico Estreito de Hormuz. A reação foi imediata. O Brent, referência global para o preço do petróleo, disparou 10%, atingindo US$ 83 o barril. Naquela mesma noite, os Estados Unidos lançaram ataques aéreos contra o Irã, que, por sua vez, respondeu atingindo dois petroleiros dos Emirados Árabes Unidos com mísseis. Apesar de uma trégua ter sido assinada em junho, a situação em Hormuz tornou-se crítica, com o tráfego praticamente paralisado e o Brent, embora ainda 25% abaixo do pico de abril, refletindo a instabilidade.

Um dos fatores que impediram uma escalada ainda maior nos preços foi a expectativa de que Trump recuasse, especialmente com as eleições de meio de mandato se aproximando. De fato, em 14 de julho, o presidente abandonou seus planos de taxação, substituindo-os por investimentos não especificados do Golfo Pérsico nos EUA. No entanto, um elemento mais crucial para a contenção temporária dos preços foi a dinâmica da oferta e demanda global de petróleo bruto.

A complexa relação entre petróleo bruto e produtos refinados

Atualmente, a oferta mundial de petróleo bruto supera a demanda. Essa aparente abundância, contudo, não se deve a um aumento na produção, mas sim à redução do consumo por refinarias paralisadas. Com a produção global de derivados refinados permanecendo 8 milhões de barris por dia (bpd) abaixo dos níveis pré-conflito, os produtos refinados, como diesel e gasolina, continuam escassos. Essa escassez, mesmo diante de um superávit de petróleo bruto, eleva os preços dos derivados em 35% a 70% em relação ao período anterior ao conflito. Traders apostam bilhões na continuação dessa tendência de alta.

A Agência Internacional de Energia (AIE) emitiu um alerta sombrio: a crise energética se agravará significativamente caso os fluxos através do Estreito de Hormuz não sejam retomados. As margens de lucro das refinarias europeias com a venda de diesel atingiram o nível mais alto desde 2011. Nos Estados Unidos, os chamados “crack spreads” globais 3-2-1, que medem a lucratividade da conversão de petróleo bruto em gasolina e diesel, bateram recordes. Na Ásia, o preço do combustível de aviação disparou para US$ 160 o barril em 14 de julho.

As incertezas nas exportações de petróleo e derivados

A magnitude da crise energética global depende crucialmente das perspectivas de exportação de três regiões vitais: o Golfo Pérsico, a China e a Rússia. Atualmente, essas perspectivas são, na melhor das hipóteses, incertas.

Impacto do fechamento de Hormuz nas exportações do Golfo Pérsico

O Golfo Pérsico historicamente lidera as exportações de destilados médios, como diesel e combustível de aviação. Desde fevereiro, com o Estreito de Hormuz praticamente fechado, os suprimentos despencaram, e a produção das refinarias na região caiu 30%, o equivalente a 3 milhões de bpd. Enquanto o petróleo bruto pode ser escoado por oleodutos que contornam o estreito, não existem rotas alternativas para os produtos refinados. Embora as exportações tenham apresentado uma leve recuperação com a reabertura parcial de Hormuz, atualmente, apenas o petróleo bruto iraniano consegue sair da região.

Agravando a situação, ataques iranianos desde o início do conflito eliminaram cerca de 1,4 milhão de bpd de capacidade de refino no Golfo. A extensão exata dos danos ainda é desconhecida. Sarah Raffoul, da Argus Media, estima que as exportações de combustíveis só se recuperarão em três a quatro meses, condicionado à reabertura confiável de Hormuz.

Restrições de exportação chinesas e a recuperação lenta

As refinarias chinesas estão processando 3 milhões de bpd a menos do que em fevereiro. Tradicionalmente uma grande exportadora de gasolina e diesel, a China impôs uma proibição temporária às exportações por parte de suas refinarias estatais durante grande parte do conflito. Essa proibição foi suspensa em julho, sob a condição de que os estoques das refinarias não caíssem abaixo dos níveis de fevereiro. As principais petroleiras chinesas aumentaram sua meta coletiva de exportação para aproximadamente dois terços do volume vendido no ano anterior. Contudo, com o aumento das tensões em Hormuz, a suspensão completa das restrições de exportação parece distante, segundo Frédéric Lasserre, da Gunvor.

Ataques à infraestrutura de refino russa e suas consequências

Na Rússia, as refinarias enfrentam ataques contínuos. A campanha de drones ucranianos intensificou-se drasticamente desde abril, atingindo mais alvos, com maior frequência e em locais mais distantes da linha de frente. Unidades sofisticadas de refino, responsáveis pela conversão de frações de petróleo bruto em produtos de alto valor, foram danificadas. Algumas dessas unidades podem levar meses para serem reparadas.

Em junho, as refinarias russas processaram 3,8 milhões de bpd de petróleo bruto, uma queda de 1,5 milhão de bpd em relação a janeiro, segundo estimativas do JPMorgan Chase. A maior parte da gasolina e querosene produzida normalmente permanece na Rússia. No entanto, a escassez atual, em plena temporada de férias, está gerando caos, com motoristas em filas por dias, vendas racionadas e preços até 50% acima do normal em algumas regiões. A agricultura, os serviços públicos e a logística também sofrem impactos.

Quase metade do diesel russo e praticamente todo o óleo combustível utilizado na navegação são normalmente exportados. A Rússia é o segundo maior fornecedor mundial de diesel (12% das exportações globais) e o líder em óleo combustível (16%). As exportações russas despencaram, e o governo proibiu novos embarques de diesel. Essa medida afeta não apenas os poucos compradores que desafiam as sanções ocidentais, mas também países como a Turquia, que agora reterá seu diesel refinado internamente, impactando o suprimento no Mediterrâneo, segundo Mick Strautmann, da Vortexa.

O Brasil, por exemplo, está buscando suprimento de diesel americano para substituir o fornecimento russo, o que pressiona ainda mais os compradores no Atlântico. A perda de suprimento russo pode se estender a outros produtos, à medida que as refinarias priorizam a produção de diesel em detrimento de combustível de aviação e gasolina, conforme aponta Benedict George, da Argus.

Cenários futuros para a crise energética

A resolução da crise energética global depende de uma combinação de fatores. Se os conflitos no Golfo cessarem e Hormuz for reaberto de forma confiável, se o refino asiático ressurgir e a produção russa se recuperar, a oferta poderá retornar ao mercado justamente quando a demanda sazonal diminuir com o fim do verão. No entanto, esses são cenários repletos de incertezas.

Um cenário menos benigno pode forçar os Estados Unidos, o exportador de equilíbrio do mercado global, e outros importadores, a esgotarem seus estoques já baixos. Consequentemente, os preços dos derivados de petróleo subiriam ainda mais, esmagando a demanda e, paradoxalmente, incentivando as refinarias a aumentar a produção. Isso, por sua vez, levaria a um aumento nos preços do petróleo bruto.

O maior choque petrolífero da história ainda está em andamento. O humor dos consumidores nos EUA e na Europa continua intrinsecamente ligado a conflitos e decisões políticas a milhares de quilômetros de distância, demonstrando a fragilidade e a interconexão do mercado global de energia.

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