Danone investe no Brasil em meio à febre da proteína: ‘Quero crescer mais que a matriz’, diz CEO
O executivo português Tiago Santos, CEO da Danone no Brasil, tem uma ambição clara e audaciosa: superar o desempenho da matriz global da empresa, sediada na França. Desde que assumiu o comando das operações brasileiras em 2024, Santos tem direcionado esforços para aumentar as vendas e a rentabilidade do mercado nacional, com resultados positivos nos últimos dois anos e meio.
“Eu quero crescer mais que a matriz em vendas e quero que a rentabilidade do Brasil cresça mais que a da matriz. Nos últimos dois anos e meio, posso falar que temos conseguido isso. Esse é o nosso mandato”, afirmou Santos em entrevista à Folha de S.Paulo.
Danone amplia investimentos no Brasil para capitalizar no mercado de proteínas
A estratégia de crescimento da Danone no Brasil está ancorada em investimentos robustos e na capitalização de tendências de consumo. A empresa tem direcionado “alguns milhões de euros” para a expansão da capacidade produtiva de suas fábricas em Poços de Caldas (MG). Desde o início da pandemia, a matriz já injetou R$ 1 bilhão no mercado brasileiro, demonstrando um compromisso firme com o potencial local.
Esses aportes não são limitados pela conjuntura do crédito doméstico. Santos ressalta que a alta da taxa Selic tem um impacto menor nas operações da Danone, indicando uma estrutura financeira que permite maior autonomia em suas decisões de investimento.
O reforço na capacidade produtiva, aprovado pelo grupo global há dois anos, responde diretamente à crescente demanda por iogurtes proteicos. Um dos carros-chefes da Danone nesse segmento é o YoPro, que já se consolidou como a segunda linha mais vendida da companhia no país. As linhas tradicionais como Danone, Activia e Danoninho seguem como pilares importantes, mas o YoPro representa um vetor de crescimento significativo.
A febre da proteína: um fenômeno de mercado impulsionado pelo ‘wellness’
O mercado de proteína no Brasil apresenta um dinamismo singular, especialmente quando se trata de produtos voltados para performance e bem-estar. Tiago Santos destaca que, embora outros países apresentem nuances semelhantes, o foco brasileiro em proteína associada à performance é um diferencial.
O YoPro, lançado no Brasil em 2018, combina proteínas do leite como whey protein e caseína. Inicialmente focado em atletas de alta performance e entusiastas de atividades físicas intensas, o produto expandiu seu alcance. O consumo de proteína se tornou uma verdadeira febre, atraindo consumidores além do público tradicionalmente associado ao fisiculturismo.
O interesse pelo termo “proteína” no Brasil disparou, com um aumento de 350% registrado pelo Google Trends nos últimos cinco anos. Essa tendência se reflete na diversificação de produtos disponíveis nos supermercados, que agora incluem salgadinhos de grão-de-bico, barras de cereais enriquecidas, e até mesmo opções como sorvetes e cervejas proteicas.
O principal gatilho por trás dessa revolução no consumo é o movimento de bem-estar e saúde (wellness). Essa jornada de autocuidado tem alterado hábitos de consumo globalmente, e o Brasil não é exceção. O crescimento de conteúdos digitais focados em fitness e a popularização de medicamentos como os GLP-1 (canetinhas emagrecedoras) têm intensificado essa busca por um estilo de vida mais saudável.
Medicamentos GLP-1 e a nova demanda por alimentos proteicos
Relatórios de mercado, como o do Itaú BBA, apontam que o tema da saúde e bem-estar é estrutural para os negócios, não cíclico. O mercado de GLP-1 no Brasil, estimado em R$ 36,8 bilhões atualmente, deve alcançar R$ 61 bilhões até 2030. Medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, voltados para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, agem promovendo saciedade e reduzindo o apetite.
Um efeito colateral comum desses medicamentos é a perda de massa magra, caso não haja uma dieta adequada e a prática de exercícios físicos. Profissionais de saúde recomendam o aumento da ingestão de proteína para mitigar essa perda, já que ela é fundamental para a construção e manutenção de músculos e tecidos.
Essa dinâmica cria uma oportunidade singular para empresas de laticínios e alimentos proteicos. A redução do apetite e a menor tolerância a grandes volumes de alimentos sólidos, como o tradicional arroz com feijão e bife, combinada com a necessidade de repor massa magra, impulsiona a demanda por alimentos densos em proteína e de baixo volume, como as bebidas prontas para consumo.
Dados recentes confirmam essa tendência: um levantamento da Scanntech em parceria com a McKinsey indicou um crescimento de 16% no consumo de iogurtes proteicos por brasileiros entre janeiro e outubro do ano passado.
Danone mira consolidação no mercado de proteínas com expansão estratégica
A expansão produtiva das fábricas da Danone em Poços de Caldas é uma resposta direta a essa demanda crescente. “Fazemos investimentos onde achamos que terá mais procura; ninguém investe para ter máquina vazia”, explica Santos. Ele enfatiza que a decisão estratégica não se baseou unicamente na alta dos medicamentos GLP-1, mas sim em uma visão de longo prazo para consolidar a posição da Danone no promissor mercado de proteínas.
Globalmente, a Danone tem ampliado seu portfólio através de fusões e aquisições (M&A) focadas no segmento de nutrição e saúde. Aquisições como a da Made Group, fabricante australiana de bebidas e laticínios, e a compra da Huel, empresa britânica especializada em refeições nutricionalmente completas, demonstram essa estratégia.
No Brasil, a empresa mantém-se atenta a oportunidades locais. Santos descreve o mercado brasileiro como “granularizado”, com uma vasta gama de concorrentes em diferentes níveis, o que exige uma abordagem estratégica e adaptável.
Raio-X | Danone no Brasil
| Item | Informação |
|---|---|
| Criação Global | 1919 |
| Sede Global | Paris, França |
| Funcionários Globais | 88.000 |
| Funcionários no Brasil | 4.000 |
| Receita Anual Global (2025) | 27,3 bilhões de euros (R$ 162 bilhões) |
| Principais Concorrentes | Nestlé, Chobani, Lactalis, Vigor |
A estratégia da Danone no Brasil, focada em inovação, investimento em capacidade produtiva e alinhamento com as tendências de saúde e bem-estar, posiciona a empresa para um futuro de crescimento robusto e competitivo no dinâmico mercado brasileiro.
