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De Tolkien a Asimov: a ficção molda a imagem das big techs

De Tolkien a Asimov: por que big techs buscam obras de ficção para construir imagem

O universo das grandes empresas de tecnologia, o Vale do Silício, frequentemente evoca imagens que parecem saídas diretamente de obras fantásticas e de ficção científica. De objetos que tudo veem a viagens interplanetárias, essas companhias recorrem à literatura especulativa não apenas para batizar produtos e fundos de investimento, mas, fundamentalmente, para moldar sua identidade corporativa e projetar uma visão de mundo.

Essa estratégia, muitas vezes, revela as aspirações e os valores dos empreendedores de tecnologia. Em narrativas que ecoam contos de heróis e inovações disruptivas, os fundadores se posicionam como visionários, portadores de ferramentas que prometem desvendar o futuro e superar desafios, espelhando os arquétipos encontrados em livros de J.R.R. Tolkien e Isaac Asimov, entre outros.

A influência de “O Senhor dos Anéis” no Vale do Silício

Um dos exemplos mais proeminentes dessa conexão é Peter Thiel, cofundador do PayPal e investidor influente. Suas empresas frequentemente ostentam nomes inspirados na obra de J.R.R. Tolkien. A Palantir, especializada em análise de dados para segurança e defesa, leva o nome das esferas místicas de O Senhor dos Anéis, que permitem a visão remota de eventos. Essa alegoria reflete a promessa da empresa de oferecer a seus clientes uma percepção abrangente e profunda de dados.

No entanto, a escolha do nome Palantir não é isenta de críticas. Críticos apontam que, na obra de Tolkien, as esferas também podem manipular e distorcer a realidade, apresentando visões seletivas. Essa ambiguidade é vista por alguns como uma metáfora para os riscos da vigilância total e do uso militarizado da inteligência artificial, levantando questões éticas sobre o poder conferido por tais tecnologias.

A influência de Tolkien no ecossistema de Thiel se estende a outros empreendimentos. O fundo de investimentos Mithril Capital tem seu nome derivado do metal precioso e lendário encontrado nos anões de O Senhor dos Anéis. Outro fundo, Valar Ventures, utiliza o nome dos Valar, seres divinos que, na mitologia de Tolkien, criaram o mundo da Terra-Média. Relatos indicam que, na própria Palantir, funcionários já foram informalmente chamados de “hobbits”, reforçando a imersão cultural.

A referência a O Senhor dos Anéis não se limita ao círculo de Thiel. A Anduril Industries, uma empresa de tecnologia focada em defesa, foi nomeada em homenagem à espada mítica de Aragorn, a “Chama do Ocidente”. Seu fundador, Palmer Luckey, conhecido por criar o Oculus Rift, vê na tecnologia uma ferramenta essencial para o fortalecimento militar dos Estados Unidos, especialmente diante de um cenário global percebido como ameaçador à ordem ocidental.

A Anduril Industries, inclusive, tornou-se um símbolo da recente inclinação de empresas de tecnologia americanas em direção a investimentos em defesa e a uma postura mais nacionalista, alinhada a figuras políticas como Donald Trump, apoiador de Luckey. Essa tendência sugere que as obras de fantasia não são apenas um hobby, mas uma fonte de inspiração para estratégias corporativas e visões de mundo.

Críticas e interpretações da obra de Tolkien

A proliferação de referências à obra de Tolkien tem gerado debates e críticas. O livro Tolkien Contre Les Machines, do ensaísta francês Sébastien Fontenelle, argumenta que Tolkien, em sua obra, teceu uma crítica à industrialização e à concentração de poder. Fontenelle destaca que, em O Senhor dos Anéis, os objetos de vigilância, como os palantíri, pertencem aos antagonistas, e que o verdadeiro eixo moral da história reside nos hobbits, seres humildes que valorizam a simplicidade e a vida comunitária, e não a busca por poder.

Essa interpretação contrasta com a forma como algumas empresas de tecnologia utilizam os nomes e símbolos de Tolkien, sugerindo uma apropriação que pode distorcer o espírito original das obras. A ênfase em objetos de poder e controle, em vez dos valores de simplicidade e resistência, levanta questionamentos sobre a adequação dessas referências.

Ficção científica: a principal fonte de inspiração

Embora a fantasia medieval tenha seu espaço, a ficção científica é, de fato, a fonte de inspiração mais prolífica para as empresas de tecnologia. Muitos dos conceitos que essas companhias buscam concretizar foram originalmente concebidos nas mentes de escritores de ficção científica.

O metaverso, promovido intensamente por Mark Zuckerberg e sua empresa Meta, tem raízes profundas no romance Snow Crash, de Neal Stephenson. Na obra, personagens habitam um mundo digital como refúgio de uma realidade pós-apocalíptica, antecipando a visão de universos virtuais imersivos.

Essa simbiose entre literatura e tecnologia acompanha a própria evolução do gênero. O escritor e crítico cultural argentino Michel Nieva, em seu ensaio Ficção Científica Capitalista, explora como autores como Júlio Verne, com suas máquinas imaginárias detalhadas, pareciam prever a engenharia futura. O submarino Nautilus, de Vinte Mil Léguas Submarinas, é um exemplo clássico, influenciando diretamente o desenvolvimento de submarinos modernos.

Segundo Nieva, a ficção científica capitalista se apoia em três mitos centrais: a conquista de Marte, a busca pela imortalidade e o desenvolvimento da inteligência artificial geral (AGI). Esses temas ressoam fortemente com as ambições declaradas por muitos CEOs de tecnologia.

Os CEOs e seus heróis literários

Diversos líderes da indústria tecnológica confessam sua paixão pela ficção científica. Elon Musk, fundador da SpaceX e Tesla, é um exemplo notório. Em 2018, a SpaceX enviou uma cópia criptografada de Fundação, de Isaac Asimov, em um de seus lançamentos de foguetes, demonstrando a influência do autor na sua visão de futuro espacial. Musk também anunciou que o primeiro foguete destinado a Marte levará o nome “Coração de Ouro”, uma homenagem à nave espacial da série O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams.

Nieva argumenta que as empresas de tecnologia, e o capitalismo em si, utilizam essas referências para construir não apenas uma estética, mas também utopias hiperfuturistas. Essa estratégia visa combater o ceticismo inerente às suas propostas, alinhando-se com a chamada “ideologia californiana” — uma fusão de empreendedorismo e contracultura que remonta aos anos 60, período em que fãs de Tolkien, como os hippies, já demonstravam afinidade com universos fantásticos.

“Esses romances [de ficção científica] tornam startups e produtos mais atraentes do ponto de vista financeiro. Eles se apoiam menos na tecnologia em si e mais na narrativa ao redor dela”, explica Nieva. Ele cita o IPO da SpaceX como um caso emblemático, onde a narrativa da conquista espacial e a construção de um futuro interplanetário se tornaram o principal ativo, superando a própria tecnologia subjacente.

A capacidade de construir narrativas sobre o futuro é, para Nieva, o ativo mais valioso do capitalismo contemporâneo. No caso da SpaceX, essa narrativa engloba a colonização de Marte e a integração de outros projetos como X (anteriormente Twitter), Grok e Tesla nesse futuro imaginado. Essas histórias, embora especulativas, servem como poderosas ferramentas de marketing, moldando a percepção pública e atraindo investimentos.

A flexibilidade nessas narrativas também é notável. Musk, após mobilizar o público com a ideia de colonizar Marte, anunciou recentemente uma mudança de foco para a construção de uma cidade na Lua. Nieva observa que essas “utopias” funcionam mais no campo da especulação financeira do que como objetivos concretos e iminentes, servindo ao propósito de manter o interesse e o investimento, independentemente da viabilidade de sua realização a longo prazo.

Exemplos notáveis de referências em big techs:

  • Palantir: Nomeada em referência às esferas de vigilância de O Senhor dos Anéis, reflete a promessa de visão e controle de dados da empresa de Peter Thiel, mas também levanta preocupações éticas sobre vigilância.
  • Valar Ventures: Fundo de capital de risco fundado por Peter Thiel, inspirado nos seres divinos que criaram a Terra-Média na obra de Tolkien.
  • Anduril Industries: Empresa de defesa que adota o nome da espada lendária de Aragorn em O Senhor dos Anéis. Seu fundador, Palmer Luckey, defende o investimento em tecnologia militar para os EUA.
  • SpaceX: Elon Musk, fã declarado de ficção científica, enviou uma cópia de Fundação de Asimov em um foguete e planeja nomear naves em homenagem a obras como O Guia do Mochileiro das Galáxias.
  • Grok: O chatbot da xAI, de Elon Musk, tem seu nome inspirado em uma palavra marciana do romance Um Estranho numa Terra Estranha de Robert A. Heinlein, significando compreensão profunda.
  • Metaverso: Conceito popularizado pela Meta de Mark Zuckerberg, que já havia sido explorado em profundidade no romance Snow Crash de Neal Stephenson.
  • Nautilus: O submarino fictício de Júlio Verne em Vinte Mil Léguas Submarinas serviu de inspiração histórica para o desenvolvimento de submarinos modernos, demonstrando a influência duradoura da ficção científica na engenharia.

Em suma, a conexão entre as big techs e a literatura de ficção, tanto fantasia quanto ficção científica, é profunda e multifacetada. Vai além de meras escolhas de nomes, servindo como ferramenta estratégica para construir narrativas, projetar visões de futuro e, em última instância, moldar a percepção pública e o valor de mercado. No entanto, é crucial manter um olhar crítico sobre essas apropriações, considerando as complexas questões éticas e sociais que elas podem evocar.

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