Dólar cai levemente com adiamento de negociações EUA-Irã

Dólar abre em leve queda nesta sexta após adiamento de negociações entre EUA e Irã

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

O dólar iniciou o pregão desta sexta-feira (19) com uma leve desvalorização frente ao real, espelhando um movimento de recuo da moeda norte-americana em relação a outras divisas de economias emergentes no mercado internacional. Investidores mantêm a atenção voltada para o Oriente Médio, especialmente após o adiamento das negociações de paz entre os Estados Unidos e o Irã. Às 9h17, o dólar operava em baixa de 0,28%, cotado a R$ 5,1598. Na véspera, a divisa havia registrado uma alta expressiva de 1,26%, fechando o dia a R$ 5,174, enquanto a B3 (Bolsa de Valores brasileira) encerrou o pregão em queda de 0,1%, aos 168.277 pontos.

O comportamento do câmbio nesta sexta-feira é influenciado por decisões recentes de política monetária tanto do Brasil quanto dos Estados Unidos. Cada uma, à sua maneira, contribuiu para a valorização do dólar no dia anterior, e agora o mercado reage a essas informações.

Decisão do Copom e impacto na Selic

No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, como amplamente esperado pelo mercado, decidiu por um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, a Selic, que agora se situa em 14,25% ao ano. A surpresa, contudo, veio na extensão do horizonte temporal considerado para a convergência da inflação à meta de 3%. O Copom alterou essa projeção do quarto trimestre de 2027 para o primeiro trimestre de 2028.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Essa mudança sinaliza que o Banco Central estendeu o prazo para atingir seu objetivo de inflação, deixando os próximos passos mais abertos. A justificativa apresentada foi a avaliação de trajetórias de juros “alternativas” para alcançar a meta em um horizonte um pouco mais distante. O mercado interpretou essa postura como uma sinalização de maior suavidade no combate à inflação, abrindo espaço para mais reduções da Selic ao longo do ano. Além disso, essa comunicação pode ter sido utilizada para justificar o corte de 0,25 ponto percentual mesmo diante da recente piora em alguns índices inflacionários.

Projeções de inflação e o cenário econômico brasileiro

Os dados mais recentes do Boletim Focus, divulgados na última segunda-feira (15), já indicavam um afastamento das projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em relação à meta de 3%. Para o ano corrente, a expectativa de inflação saltou de 5,11% para 5,30%, um patamar consideravelmente acima do teto da meta, que é de 4,5%. As projeções para 2027, prazo que anteriormente estava na mira do Copom devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia, atingiram 4,10% (contra 4% registradas quatro semanas antes). A estimativa do IPCA para 2028 também apresentou elevação, passando para 3,68% (ante 3,65%).

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

“Essa decisão do Banco Central e essa sinalização futura nos leva a acreditar que o BC tem uma preferência neste momento por continuar no ciclo de corte de juros”, avalia Carlos Lopes, economista do banco BV. Este foi o terceiro corte consecutivo de 0,25 ponto na taxa Selic, após o BC iniciar em março o chamado ciclo de “calibragem” da taxa, que, apesar dos cortes, ainda se encontra em um nível historicamente alto, mas é o menor valor desde maio do ano passado, quando também estava em 14,25%.

Impacto do diferencial de juros

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

O corte na Selic, combinado com a sinalização de continuidade do ciclo de afrouxamento monetário, segundo Leonel Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX, tende a diminuir a atratividade dos ativos brasileiros. “Isso gera pressão sobre a taxa de câmbio, contribuindo para a desvalorização do real”, afirma.

O diferencial de juros entre o Brasil e os Estados Unidos é apontado como um dos principais fatores de atração de capital estrangeiro para o país. A disparidade entre a Selic e a taxa de juros americana (Fed Funds) torna a estratégia de “carry trade” particularmente vantajosa. Essa operação consiste em tomar recursos em economias com taxas de juros baixas, como EUA ou Japão, e aplicá-los em países com juros mais altos, como o Brasil, para lucrar com essa diferença percentual.

Com a perspectiva de uma Selic em trajetória descendente, uma das pontas dessa operação de “carry trade” se enfraquece. E a outra ponta, a dos juros americanos, também apresentou novidades que levaram investidores a repensar suas posições no mercado brasileiro.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Decisão do Federal Reserve e o tom “hawkish”

O Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano, manteve sua taxa de juros inalterada, na faixa de 3,5% a 3,75%, conforme amplamente antecipado pelo mercado. No entanto, o que surpreendeu os investidores foi a projeção de que 9 dos 19 membros do comitê de política monetária do Fed esperam ao menos uma alta de 0,25 ponto percentual na taxa de juros ainda neste ano. Desses, 6 membros preveem ao menos duas elevações. Outros 9 membros não esperam alterações na taxa.

A coletiva de imprensa de Kevin Warsh, o novo presidente do Fed, também foi interpretada pelo mercado como “hawkish”, ou seja, com um tom mais rigoroso no combate à inflação. “A surpresa não foi a manutenção dos juros, mas o tom da coletiva. O mercado buscava sinais de uma postura mais favorável a cortes, mas Warsh estreou reforçando o compromisso com a inflação e com a credibilidade do Fed. No fim, mais do que a decisão em si, a mensagem mexeu com as expectativas para os próximos meses”, comentou Cleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimentos.

Impacto nas expectativas de juros globais

O tom mais restritivo já havia aparecido no comunicado oficial. Em um sinal inicial da influência do novo chair do Fed, o comitê removeu completamente qualquer orientação sobre movimentos futuros das taxas de juros. O novo formato apenas informou a decisão sobre a taxa atual e reafirmou que “o Comitê entregará estabilidade de preços”.

“Foram declarações mais conservadoras do que o mercado esperava. Isso elevou as apostas para uma trajetória de juros mais alta nos Estados Unidos. Atualmente, os investidores majoritariamente projetam três altas de juros pelo Fed até janeiro de 2027, contra apenas uma antes da decisão anunciada ontem”, explica Leonel Mattos, da StoneX.

Essa perspectiva de juros mais altos nos EUA tem implicações diretas para o mercado global e, consequentemente, para o Brasil. “Esse cenário favorece os juros americanos, eleva os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos (treasuries) e aumenta a atração de capitais externos para o país. Consequentemente, fortalece o dólar globalmente e gera pressão sobre a taxa de câmbio brasileira.”

Resumo do cenário cambial

Em suma, a combinação de expectativas de uma Selic mais baixa no Brasil e a perspectiva de juros mais altos nos Estados Unidos deteriora o diferencial de juros oferecido pelo Brasil. “Isso reduz a atratividade dos títulos nacionais para investidores estrangeiros e dificulta a entrada de capital externo”, conclui Mattos. O adiamento das negociações entre EUA e Irã adiciona uma camada de incerteza geopolítica, que, embora tenha levado a uma leve queda do dólar nesta sexta, não altera o panorama de pressão sobre o real no médio prazo, moldado por essas dinâmicas de política monetária e riscos externos.

Deixe um comentário