Eternit troca Faria Lima por Hortolândia em busca de eficiência e proximidade com a cadeia produtiva
A Eternit, tradicional fabricante brasileira de materiais de construção, anunciou nesta terça-feira (16) uma movimentação estratégica significativa: a transferência de sua sede administrativa da badalada Avenida Faria Lima, em São Paulo, para Hortolândia, no interior do estado. A decisão visa otimizar a operação da empresa, aproximando a gestão da produção e dos fornecedores, com a expectativa de gerar uma economia anual de “dois dígitos de milhões de reais”, segundo o diretor-presidente Rodrigo Inácio.
A mudança, que não teve o valor exato do investimento divulgado, representa um divisor de águas na estratégia da companhia. Ao realocar a sede administrativa para a unidade fabril em Hortolândia, a Eternit busca eliminar custos fixos associados a uma operação descentralizada. “A saída da Faria Lima para a unidade fabril gera uma economia bastante relevante e perene, porque deixamos de ter custos fixos dentro de uma operação que estava fora de uma unidade fabril”, explicou Inácio. A expectativa é de que a economia anual ultrapasse a marca de dezenas de milhões de reais, um impulso financeiro crucial para a empresa.
Apesar da aproximação com fornecedores e potenciais consumidores locais ser um dos pilares da estratégia, a transferência implica em um distanciamento do epicentro financeiro de São Paulo, essencial para companhias listadas na B3, como a Eternit. A empresa busca, contudo, mitigar os impactos dessa decisão, especialmente após sair de um processo de recuperação judicial em 2024 e almejar a retomada da confiança dos investidores. Carisa Cristal, CFO da Eternit, assegura que a proximidade física com bancos e investidores tem se tornado menos relevante na era digital. “Já temos bons relacionamentos com os bancos e também com os investidores, então acaba que, para ser mais rápido, a maioria das interações acontecem on-line hoje em dia. Então, a gente acredita que [a mudança de sede] não será algo que vai penalizar a companhia”, afirmou Cristal, ressaltando que a frequência de visitas de investidores e representantes bancários à sede paulistana era baixa.
Impacto na força de trabalho e a nova realidade da Eternit
A sede administrativa da Eternit em São Paulo contava com aproximadamente 130 funcionários. Para facilitar a transição, a empresa implementou um programa de ajuda de custo para auxiliar os colaboradores que optassem por se mudar para Hortolândia. De acordo com Rodrigo Inácio, um terço dos funcionários migrou para a nova localidade, outro terço adotou o regime de trabalho híbrido, e o restante não aceitou a realocação. “Entre 30 e 40 famílias já fizeram a transição completa”, informou o presidente.
Desafios recentes: o impacto do petróleo e a volatilidade do mercado
A decisão de realocação ocorre em um cenário de desafios para a Eternit, especialmente no que tange aos custos de produção. A empresa tem enfrentado um aumento expressivo no preço do polipropileno, matéria-prima derivada do petróleo, crucial para a fabricação de produtos alternativos ao amianto – cujo uso é proibido no Brasil desde 2017. “Esse polímero teve um aumento muito significativo no mês de abril e afetou sim as operações em termos de custos. O próprio cimento também teve o seu comportamento de aumento de custo e o frete em geral das mercadorias transportadas também aumentou em função do custo do combustível”, detalhou Inácio.
A crise do petróleo também reverberou na subsidiária Sama, mineradora de amianto da Eternit. Embora a empresa não produza mais materiais derivados de amianto no Brasil, a operação em Minaçu (GO) ainda é autorizada a exportar a fibra de crisotila. No primeiro trimestre de 2024, o volume de crisotila exportado atingiu 22 mil toneladas, uma retração de 26,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em 2025, o volume foi de aproximadamente 169 mil toneladas. “A operação da mina hoje é de exportação para a Ásia, e os clientes da Ásia também sofreram os mesmos impactos que a gente vem sofrendo aqui. A gente não acredita que a perspectiva de compra anual seja alterada, mas houve deslocamento do momento dos embarques e isso acaba afetando a operação”, explicou o presidente.
Eternit mira o futuro: construção industrializada e soluções inovadoras
Em meio aos desafios e às mudanças estruturais, a Eternit aposta firmemente na expansão de seus negócios para o segmento de construções industrializadas. Tradicionalmente conhecida por suas telhas, a companhia tem investido em soluções completas para casas, edifícios e construções industriais pré-fabricadas. A estratégia se alinha à crescente demanda pela construção a seco, que utiliza sistemas como steel frame (estrutura metálica) e wood frame (estrutura de madeira), em detrimento da alvenaria convencional.
A empresa destaca que a construção industrializada é, atualmente, sua fonte de receita com maior crescimento. No primeiro trimestre de 2024, essa área registrou um avanço de 17,7% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Para atender a esse mercado em expansão, a Eternit já destinou cerca de R$ 30 milhões na conversão de suas linhas de produção.
“A gente diz que hoje a Eternit, que era só fabricante de telhas ou de coberturas, é uma empresa com solução para piso, parede e coberturas. Esse é o caminho para o futuro da companhia, como ela quer ser reconhecida num ecossistema de um modelo industrializado”, ressaltou Rodrigo Inácio. Essa visão de futuro consolida a Eternit não apenas como fornecedora de materiais, mas como parceira em soluções construtivas completas e inovadoras.
Raio-X da Eternit
Para contextualizar a empresa e sua nova fase:
- Fundação: 1959
- Nova Sede Administrativa: Hortolândia (SP)
- Número de Clientes: 17 mil
- Receita Líquida em 2025: R$ 1,1 bilhão
A mudança estratégica da sede administrativa da Eternit para Hortolândia sinaliza um compromisso com a eficiência operacional e a adaptação às novas dinâmicas do mercado de construção, buscando fortalecer sua posição e impulsionar o crescimento em segmentos promissores como a construção industrializada.