Filho de rico tem sete vezes mais chance de ficar no topo do que pobre de enriquecer no Brasil
A mobilidade social no Brasil é um tema complexo e, infelizmente, a realidade aponta para uma notável rigidez na estrutura de classes. Um estudo recente do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds), em parceria com o Prospera Lab, reforça essa constatação ao analisar dados sob a perspectiva do topo da pirâmide social: quem nasce rico tem uma probabilidade significativamente maior de permanecer rico, em comparação com a chance de um indivíduo de origem pobre ascender economicamente.
A pesquisa, apresentada na nova edição do Atlas da Mobilidade Social, revela que mais da metade (56,5%) dos filhos de famílias pertencentes aos 25% mais ricos do país continuam nessa mesma faixa de renda na vida adulta. Um percentual ainda mais expressivo, de 30,88%, consegue alcançar o grupo dos 10% com maior renda nacional. Em contrapartida, a jornada para os mais pobres é consideravelmente mais árdua: apenas 8,3% dos filhos de famílias no estrato dos 25% mais pobres conseguem ascender socialmente, com uma ínfima parcela de 1,28% atingindo o grupo dos 10% mais ricos.
Para contextualizar, filhos de famílias com renda média apresentam números intermediários: 17,57% chegam aos 25% mais ricos e apenas 3,92% alcançam os 10% com maior poder aquisitivo.
Em suma, a análise aponta que filho de rico tem sete vezes mais chance de ficar no topo do que pobre de enriquecer. Essa disparidade sublinha a dificuldade de ascensão social em um país marcado por profundas desigualdades.
A renda familiar como determinante do futuro
Paulo Tafner, presidente do Imds, explica que a estratificação social brasileira por renda é um fator crucial. “Como a sociedade brasileira é extremamente estratificada por renda, a renda dos pais é um determinante muito forte do destino dos filhos”, afirma.
A nova versão do Atlas da Mobilidade Social expande os recortes geracionais e de renda. Enquanto a edição anterior focava em pessoas nascidas entre 1983 e 1990, a atualização permite a comparação de duas gerações: a primeira, com indivíduos nascidos entre 1983 e 1987, e a segunda, entre 1988 e 1990. Essa quebra na série temporal possibilita uma análise mais aprofundada da dinâmica da mobilidade social ao longo do tempo.
Leandro Rocha, pesquisador do Imds, destaca a ampliação do escopo da pesquisa: “A edição original media principalmente as chances de ascensão de quem nascia na metade mais pobre da população. Agora, o retrato ampliado traz novos estratos de renda, incluindo os segmentos de renda média e os mais ricos, o que permite medir não apenas quem consegue subir, mas também quem permanece no topo”.
Radiografia da desigualdade: Rendas e estratos sociais
Para garantir a comparabilidade, os valores de renda foram ajustados para dezembro de 2019. Naquele período, a renda familiar média mensal dos 25% mais ricos era de R$ 7.266,03, enquanto os 10% mais ricos possuíam rendimentos superiores a R$ 13.773,14 mensais. Famílias de renda média recebiam cerca de R$ 3.850 por mês, e os 25% mais pobres ganhavam até R$ 2.183,41.
Considerando a inflação acumulada desde então (medida pelo IPCA), os valores atuais seriam significativamente maiores. A renda dos mais ricos estaria acima de R$ 10.600 mensais, com os 10% do topo recebendo mais de R$ 20.100. A classe média teria uma renda em torno de R$ 5.600, e as famílias mais pobres, até R$ 3.200 mensais.
Pequenos avanços, grande persistência
A comparação entre as gerações analisadas demonstra que o avanço na mobilidade social tem sido mínimo. Filhos de pais mais pobres, nascidos entre 1983 e 1987, tinham 7,9% de chance de integrar o grupo dos mais ricos na vida adulta. Para os nascidos entre 1988 e 1990, essa probabilidade subiu apenas para 8,8%.
A mesma rigidez é observada entre os filhos de famílias de renda média. A chance de ascender aos estratos mais ricos passou de 16,6% para 18,6% no mesmo período. Para os pesquisadores do Imds, essa variação é considerada pequena e reforça a persistência da baixa mobilidade social no Brasil.
Desigualdades de Raça e Gênero na Mobilidade Social
O Atlas da Mobilidade Social também permite analisar as disparidades de mobilidade social com recortes de raça e gênero, evidenciando a complexidade das barreiras enfrentadas por diferentes grupos:
- Raça: Entre pessoas brancas nascidas em famílias pobres, 36,32% permanecem nesse estrato na vida adulta. Para pessoas não brancas, essa probabilidade sobe para 51,64%, indicando que a pobreza é mais persistente para minorias raciais.
- Gênero: Mulheres nascidas em famílias pobres têm cerca de 65% de chance de permanecerem nesse grupo na vida adulta, enquanto para os homens essa taxa é de 32,95%. A disparidade se acentua quando se cruza gênero e raça: 69% das mulheres não brancas permanecem entre os mais pobres, comparado a 52,9% das mulheres brancas.
Fatores que influenciam a mobilidade: Educação e Território
A atualização do atlas incorpora 38 indicadores socioeconômicos municipais, como educação, mercado de trabalho e condições locais, para identificar fatores associados à mobilidade social. A educação, em particular, surge como um atenuante para a rigidez social.
A mobilidade social mostrou-se maior em municípios com melhores resultados no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). A probabilidade de ascensão também aumentou quando os pais possuíam maior escolaridade. Como filhos de famílias mais ricas geralmente têm melhor acesso à educação, as disparidades tendem a se perpetuar sem políticas públicas eficazes.
Indicadores territoriais também são relevantes. Cidades com maior formalização do mercado de trabalho, dinamismo econômico e melhor infraestrutura tendem a oferecer mais oportunidades para que filhos de famílias pobres melhorem de vida. Isso demonstra que o local de nascimento pode influenciar significativamente a trajetória de vida de uma criança, mesmo com renda familiar semelhante.
Geografia da Desigualdade: Norte e Nordeste em desvantagem
A análise regional revela que o Acre apresenta a maior persistência da pobreza, com 62% dos filhos de famílias mais pobres permanecendo nesse grupo na vida adulta. Os dez piores resultados foram observados nas regiões Norte e Nordeste do país.
Em contrapartida, as regiões Sul e Sudeste mostram maior mobilidade. Em Santa Catarina, a probabilidade de um filho de pobre continuar nessa condição é de 12,4%; no Paraná, 18,4%; e no Rio Grande do Sul, 20,7%. Esses dados contrastam com os estados do Norte e Nordeste, reforçando a desigualdade regional na oferta de oportunidades.
Entendendo os Critérios da Pesquisa
As análises do Atlas da Mobilidade Social são baseadas em registros de fontes oficiais como a Receita Federal, Ministérios do Trabalho e Emprego e do Desenvolvimento Social, além de pesquisas domiciliares do IBGE. A metodologia foi desenvolvida no artigo acadêmico “Intergenerational Mobility in the Land of Inequality” (Britto et al., 2025).
É importante notar que os grupos de renda foram definidos com base na distribuição nacional, e não na distribuição interna de cada município. Isso significa que uma pessoa considerada pobre em um município de alta renda pode ser classificada como rica no contexto nacional, e vice-versa. Essa perspectiva nacional é fundamental para entender a real dimensão da mobilidade social no Brasil.
Resumo da seção: A pesquisa do Imds, utilizando dados oficiais e uma metodologia robusta, demonstra que a origem socioeconômica é um forte preditor do destino financeiro no Brasil. A rigidez da estrutura social é evidenciada pela baixa chance de ascensão para filhos de famílias pobres e pela alta probabilidade de permanência no topo para os filhos de famílias ricas. As desigualdades de raça e gênero, juntamente com fatores como educação e o local de nascimento, aprofundam esse cenário, com as regiões Norte e Nordeste apresentando os maiores desafios.
