Flávio Bolsonaro repetirá Trump e Milei sobre a OMS? As implicações para o Brasil
A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem sido alvo de críticas e até mesmo cogitada para desfiliação por líderes da direita nas Américas, com os exemplos mais proeminentes sendo o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o atual presidente da Argentina, Javier Milei. Diante da proximidade política declarada entre a família Bolsonaro e esses líderes, surge a questão: Flávio Bolsonaro, em sua campanha eleitoral, se comprometerá a manter o Brasil na OMS ou considera a saída do órgão como parte de seus planos de governo?
A possibilidade de o Brasil se desvincular da OMS não é novidade. Em 2020, durante o auge da pandemia de Covid-19, Jair Bolsonaro chegou a cogitar a saída da organização, alegando um suposto viés ideológico. Agora, com a campanha eleitoral em andamento e a proximidade de Flávio Bolsonaro com figuras como Trump e Milei, o tema ganha contornos de urgência para o debate público.
Entendendo o histórico de desfiliação da OMS
Para compreender a relevância dessa discussão, é fundamental revisitar os movimentos recentes de outros países. Donald Trump, em seu último ano de mandato, anunciou a saída dos Estados Unidos da OMS, com a retirada tornando-se efetiva em janeiro de 2026. A justificativa principal girava em torno de alegações de má gestão e parcialidade da organização, especialmente em relação à China e à pandemia de Covid-19.
Pouco tempo depois, a Argentina, sob a liderança de Javier Milei, seguiu um caminho semelhante. Milei divulgou a intenção de seu governo em se retirar da OMS, repetindo muitas das críticas feitas por Trump. Essa ação reforça uma tendência de desconfiança em relação a organismos multilaterais de saúde por parte de certos espectros políticos.
Por que a OMS é crucial para a saúde global e brasileira?
Embora seja legítimo criticar a OMS e defender reformas em suas estruturas e procedimentos, a ideia de uma saída do Brasil do órgão merece uma análise aprofundada e não deve ser tratada como um tema secundário. A OMS desempenha um papel insubstituível na coordenação da rede internacional de vigilância de epidemias. É através dela que surtos são identificados precocemente, informações são compartilhadas entre países e respostas coordenadas a emergências sanitárias são formuladas.
O Brasil possui uma responsabilidade histórica e estratégica nesse cenário. O país foi um dos idealizadores da OMS e teve a honra de ter Marcolino Candau como o diretor-geral de maior longevidade em sua história, um marco de prestígio e influência brasileira no organismo. Além disso, o Brasil construiu uma tradição de liderança em saúde pública, com um Sistema Único de Saúde (SUS) reconhecido internacionalmente por sua abrangência e princípios universais. A saída da OMS poderia minar essa posição de destaque e comprometer a participação brasileira em iniciativas globais de saúde.
O silêncio sobre a OMS no debate eleitoral
Apesar da sua extrema relevância para a população, o tema da permanência ou saída do Brasil da OMS, assim como o financiamento do SUS e outras questões cruciais para a saúde pública, tem sido notavelmente ausente do debate eleitoral. A dois meses das eleições, a campanha tem se caracterizado por discussões superficiais, planos de governo genéricos e um modelo de disputa que privilegia a polarização em detrimento de propostas concretas e aprofundadas.
Essa falta de clareza e compromisso público por parte dos candidatos sobre um tema tão vital gera um cenário de incerteza para o eleitor. Sem que haja posicionamentos firmes e assumidos, torna-se impossível para a população cobrar ações futuras. O voto, nesse contexto, corre o risco de ser um “voto no escuro”, sem a devida informação sobre as prioridades e planos de governo em uma área tão sensível.
Quais são os riscos de uma saída da OMS?
Uma eventual saída do Brasil da OMS acarretaria uma série de riscos e desvantagens significativas:
- Perda de acesso a informações cruciais: A OMS é o principal canal para a disseminação de dados e alertas sobre doenças emergentes, pandemias e outras ameaças à saúde pública global. Sem essa conexão, o Brasil ficaria mais vulnerável a surpresas sanitárias.
- Dificuldade na coordenação de respostas a emergências: Em casos de surtos de doenças ou crises sanitárias que ultrapassem fronteiras, a OMS facilita a cooperação internacional, o envio de equipes de especialistas, o compartilhamento de recursos e a padronização de protocolos. A ausência desse canal de coordenação tornaria a resposta brasileira mais lenta e isolada.
- Impacto em programas de saúde e vacinação: A OMS desempenha um papel fundamental no desenvolvimento de diretrizes para programas de imunização, controle de doenças infecciosas e não transmissíveis, e na promoção da saúde em geral. A desfiliação poderia afetar o acesso a novas vacinas, tratamentos e conhecimentos técnicos desenvolvidos em conjunto com a organização.
- Prejuízo à imagem e influência internacional do Brasil: O país perderia um importante fórum para defender seus interesses em saúde, participar da formulação de políticas globais e compartilhar suas próprias experiências e avanços. A tradição de liderança brasileira em saúde pública seria comprometida.
- Custos financeiros e administrativos: Embora a contribuição financeira para a OMS seja um ponto de debate, a saída implicaria em custos de reestruturação e na perda de acesso a benefícios e programas financiados ou apoiados pela organização.
A importância de um debate público transparente
A discussão sobre a OMS no Brasil não pode se resumir a um eco de discursos internacionais ou a uma mera pauta de campanha ideológica. É fundamental que os candidatos apresentem propostas claras e detalhadas sobre como pretendem gerir a saúde pública brasileira no contexto global. Questionamentos diretos sobre a permanência na OMS, os planos para fortalecer a vigilância epidemiológica e a cooperação internacional em saúde são essenciais para que o eleitor possa fazer uma escolha informada.
A experiência de outros países mostra que a saída de organismos multilaterais pode ter consequências de longo prazo, nem sempre positivas. O Brasil, com sua vasta experiência e responsabilidade em saúde pública, tem a oportunidade e o dever de contribuir ativamente para o aprimoramento da OMS, em vez de simplesmente cogitar sua saída. Um debate aberto e honesto sobre o tema é crucial para garantir a segurança sanitária e o bem-estar da população brasileira.
O que esperar do futuro?
Acompanharemos de perto os próximos passos dos candidatos e se o tema da OMS ganhará a devida relevância no debate eleitoral. A falta de compromissos claros sobre a participação do Brasil em instituições globais de saúde representa um risco que precisa ser abordado com a seriedade que merece. A população brasileira tem o direito de saber quais são os planos para a proteção de sua saúde em um mundo cada vez mais interconectado e sujeito a desafios sanitários globais.
