Governo Milei privatiza hotéis populares na Argentina

Governo Milei privatiza hotéis populares de US$ 10 a diária em ponto turístico

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O governo argentino, liderado pelo presidente Javier Milei, anunciou planos para privatizar o complexo de hotéis estatais de Chapadmalal, um destino de férias à beira-mar que historicamente ofereceu hospedagem acessível, com diárias a partir de US$ 10. A medida marca o fim de uma era de “turismo social” peronista e sinaliza uma profunda reorientação econômica sob a visão libertária de Milei.

Construído no final da década de 1940, durante o governo de Juan Domingo Perón e sua esposa Eva Perón (Evita), os nove hotéis de Chapadmalal representavam um pilar do movimento peronista: garantir direitos aos trabalhadores, incluindo o direito a férias e lazer. Até recentemente, argentinos de diversas classes sociais podiam desfrutar de estadias com refeições incluídas por preços subsidiados, que em alguns casos chegavam a apenas US$ 3 ou US$ 4 por noite.

O complexo, que podia acomodar até 5.000 hóspedes, era um palco de momentos de lazer e confraternização. Trabalhadores rurais e de outras profissões podiam vivenciar o mar, desfrutar de jantares e participar de festas, sentindo que mereciam aquele descanso. “Pessoas que passavam os dias trabalhando no campo vinham para cá e sentiam: ‘Sim, eu mereço isso’. As crianças saíam com esperança de que a vida podia ser boa”, relembra Cintia Suárez, que trabalha em Chapadmalal há 20 anos.

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O legado do turismo social peronista

O “turismo social” em Chapadmalal ia além do simples descanso; era uma manifestação tangível da filosofia peronista de inclusão e direitos trabalhistas. O complexo oferecia não apenas hospedagem, mas também uma experiência completa, com restaurantes, um centro médico, capela, cinema e teatros. Para muitos argentinos, especialmente aqueles de regiões mais pobres do interior, era a primeira oportunidade de conhecer o oceano. “Não se pode subestimar o valor cultural… o que significa para as pessoas ter direito ao tempo de lazer”, argumenta Suárez, lamentando a perda desse benefício.

A visão por trás de Chapadmalal, no entanto, contrasta com a atual agenda econômica do governo Milei, que prioriza a redução do Estado e a promoção do livre mercado como soluções para as crises econômicas crônicas da Argentina. O presidente eliminou a exigência legal de “turismo social” para 2025 e anunciou uma licitação para a concessão privada de 30 anos de Chapadmalal. Um segundo complexo estatal, em Córdoba, será totalmente vendido.

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O orçamento destinado ao turismo social estatal, que era de aproximadamente US$ 7 milhões, foi considerado incompatível com a visão de Milei para a Argentina. O ministro da Desregulamentação, Federico Sturzenegger, declarou que “não faz sentido o Estado administrar uma atividade complexa na qual não tem vantagem competitiva nem experiência”, prevendo que um operador privado “aumentaria seu valor turístico”.

Críticas e o impacto da privatização

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A decisão de privatizar Chapadmalal gerou críticas por parte dos peronistas e de setores da sociedade que veem na medida um desmonte de políticas sociais importantes. Manuel Diez, líder sindical aposentado e ex-funcionário do complexo, expressa preocupação com o futuro do país: “Agora temos um país onde apenas algumas pessoas conseguem viver bem e muitas pessoas estão vivendo muito mal. O que está acontecendo com Chapadmalal representa o povo nesse sentido”.

A Argentina vive um momento de divisão política, com o movimento peronista buscando se reerguer após a derrota eleitoral em 2023. Embora o apoio a Milei tenha diminuído em meio a cortes de empregos e queda nos salários reais, a paciência da população com as medidas de austeridade está sendo testada. “A pergunta que as pessoas estão fazendo agora não é ‘devemos ter turismo social no estilo peronista?’, mas ‘o modelo de Milei me permite uma qualidade de vida boa o suficiente para que eu possa tirar férias de vez em quando?'”, questiona Marcelo García, diretor para as Américas da consultoria Horizon Engage.

O futuro de Chapadmalal: entre o acesso e o aprimoramento

O complexo de Chapadmalal, localizado a 30 km de Mar del Plata, possui uma infraestrutura notável, incluindo restaurantes, centro médico, capela, cinema e cinco teatros. Funcionários e ex-hóspedes relembram histórias emocionantes, como a de uma mulher que chorou ao abraçar o mar pela primeira vez. A figura de Evita Perón é reverenciada em todo o complexo, simbolizando o compromisso histórico com o bem-estar dos trabalhadores.

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Apesar de outros países oferecerem programas de turismo subsidiado, a escala de instalações estatais como Chapadmalal é rara, comparável a alguns ex-estados soviéticos. Contudo, o complexo enfrentou décadas de subinvestimento, levando à deterioração de algumas instalações. O governo peronista anterior (2019-2023) investiu em reformas, o que reverteu parcialmente a queda no número de visitantes.

Em maio, os cerca de 50 funcionários restantes de Chapadmalal foram demitidos, gerando protestos e ações judiciais. O governo da província de Buenos Aires solicitou a administração dos hotéis, mas não obteve resposta. “Interesses empresariais massivos” são apontados como um fator na decisão de privatização, especialmente após o boom turístico do setor privado na região.

Um funcionário da agência estatal de propriedades confirmou que o processo de licitação está em andamento, mas ainda não há definição sobre se os hotéis serão operados como instalações econômicas ou de luxo. A secretaria de Turismo da Argentina recusou-se a comentar.

Gustavo Casais, um artista de rua e hóspede frequente, expressa o receio de que a privatização torne Chapadmalal inacessível para a população comum. “Se a privatização é para apenas melhorar o hotel, então tudo bem, mas se significa que os preços serão impossíveis para pessoas comuns, isso é terrível”, lamentou. “Chapadmalal tem que ser para o povo.” A transição de um símbolo do “turismo social” para um empreendimento privado levanta questões cruciais sobre o futuro do acesso ao lazer e às férias na Argentina.

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