Indústria brasileira pede cotas contra produtos asiáticos como ‘remédio’ ao tarifaço de Trump
Diante da nova rodada de tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos, setores da indústria nacional buscam no governo Lula uma estratégia de defesa: a imposição de cotas de importação para produtos asiáticos. A medida, que visa proteger setores como calçados, pneus e móveis, é vista como um contraponto à chamada “invasão” de produtos subsidiados e uma forma de mitigar as perdas de mercado no exterior.
Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), explicou que a discussão com o governo federal já começou com foco na questão das importações. “Começamos a reunião [com representantes do governo Lula] falando sobre importação e não sobre o problema da reunião, que era o tarifaço”, afirmou Ferreira em entrevista ao C-Level Entrevista, videocast semanal da Folha.
A complexidade da negociação com os EUA
Ainda que a indústria brasileira busque soluções internas, a negociação com os Estados Unidos se apresenta como um desafio. Ferreira reconhece que o Brasil está em uma “mesa de negociação um pouco mais frágil”, especialmente porque as novas tarifas americanas possuem uma base jurídica mais sólida do que aquelas previamente derrubadas pela Suprema Corte. Essa fragilidade, segundo o dirigente, pode levar o governo Lula a aceitar o pedido de imposição de cotas, que também foi endossado por representantes dos setores de pneus, móveis, madeira, rochas ornamentais e fumo.
A conjuntura eleitoral nos Estados Unidos também é apontada como um fator complicador. “A presença do candidato Flávio Bolsonaro lá deve ter atrapalhado um pouco o fluxo de negociação, e por isso pode ter acontecido esse tarifaço”, especula Ferreira, indicando que a interferência política pode ter influenciado a decisão americana. Ele ressalta que, embora o socorro governamental às empresas afetadas seja importante, ele é considerado paliativo. A indústria necessita de concessões por parte do governo brasileiro para ampliar a lista de exceções tarifárias.
O impacto do tarifaço no setor de calçados
O setor de calçados, um dos mais afetados, esperava uma inclusão na lista de exceções americanas. “Nas audiências de que participaram tanto a Abicalçados quanto outras cinco entidades norte-americanas, tudo o que se falou foi demonstrando a importância da indústria calçadista brasileira para o setor calçadista norte-americano”, relatou Ferreira.
No entanto, os argumentos apresentados e a análise técnica não foram suficientes para alterar a decisão do governo americano. “O que deu errado é que todos os argumentos apresentados, toda a parte técnica que foi feita e apresentada nas audiências da USTR [Escritório do Representante de Comércio dos EUA] não fez parte da decisão do governo norte-americano”, lamentou o executivo.
Uma possível explicação para a exclusão dos calçados brasileiros da lista de exceções reside no baixo impacto que a taxação teria na economia americana. “O que o Brasil exporta para os EUA não chega a ser 1% do que eles consomem. Pode ser que pensem que, se o calçado brasileiro for taxado, o impacto na economia ou na inflação americana seja diferente do que outros produtos que entraram na lista de exceção”, ponderou.
Redirecionamento de exportações e a importância do mercado americano
O mercado americano representa um destino crucial para as exportações brasileiras de calçados, respondendo por 20% do total exportado. A dinâmica de exportação para os EUA envolve o desenvolvimento de produtos pelos importadores americanos, que são então produzidos por empresas brasileiras. Essas empresas, por sua vez, não podem comercializar os mesmos modelos no mercado interno nem exportá-los para outros países.
No último tarifaço, a indústria brasileira e os importadores americanos dividiram o imposto de 50%, cada um arcando com 25%. Contudo, neste ano, a indústria calçadista não possui mais a “musculatura financeira” para absorver parte significativa desse custo adicional. Essa limitação reforça a urgência de encontrar alternativas, como a imposição de cotas.
O pleito à indústria nacional: cotas como solução
Em reunião com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), a Abicalçados e outros setores afetados apresentaram um pleito claro ao governo brasileiro: negociar a redução dos 25% de imposto ou a inclusão de mais setores na lista de exceções. No entanto, a principal demanda, e considerada a única solução eficaz, é a imposição de cotas de importação para produtos asiáticos.
Segundo Ferreira, o aumento das importações de produtos asiáticos tem pressionado a indústria nacional. “A indústria está sofrendo com uma invasão de produtos asiáticos, o que também faz com que a indústria nacional que exporta não consiga começar a aumentar [as vendas dos] seus produtos para o mercado interno. O aumento de importações está acontecendo no nosso setor: aumentou 15% no ano passado, e mais 15% até agora este ano”, detalhou.
A experiência anterior, quando um tarifaço americano foi derrubado pela Suprema Corte, difere da situação atual. “O tarifaço que foi derrubado pela Suprema Corte [dos EUA] é diferente do atual, que a Suprema Corte não consegue derrubar”, explicou Ferreira. Por isso, a estratégia de focar em cotas de importação é vista como mais promissora.
“Não adianta botar 50% de imposto de importação, porque o asiático, o chinês principalmente, vai baixar o preço do produto para invadir o mercado da mesma forma. Tem que ser por cotas, não existe outro remédio a não ser cotas”, enfatizou o presidente da Abicalçados. Essa posição é unânime entre os setores afetados que participaram da reunião.
Estimativas de perdas e a busca por um teto tarifário
No ano passado, o tarifaço americano resultou em perdas estimadas de até 15 mil empregos no setor de calçados. Embora ainda não haja uma estimativa precisa para o período atual, a previsão de queda nas exportações para os EUA aumentou de 3,6% para 7% com a nova taxação.
A Abicalçados está trabalhando em conjunto com a FDRA (Distribuidores e Varejistas de Calçados da América) para tentar barrar o aumento das tarifas ou estabelecer um teto para o imposto de importação, que valeria para todos os produtos, não apenas para os calçados brasileiros. O número exato desse teto ainda é uma negociação em andamento entre a associação americana e o governo dos EUA.
Negociação e concessões: o caminho para a solução
Ferreira não considera o governo brasileiro intransigente, mas defende um diálogo mais intenso. Ele critica a aplicação de impostos de reciprocidade, vista como uma ferramenta que pode piorar as negociações. “O Brasil terá que ampliar a negociação e fazer alguma concessão para que o governo norte-americano retire essa tarifa. Não tem como nós acharmos que, numa guerra de braço, vamos ser vencedores”, alertou.
A negociação pode envolver temas como as terras raras, um interesse declarado dos EUA no Brasil. “O Brasil tem que industrializar as terras raras, mas é isso que tem que ser negociado, não é simplesmente dizer não”, aconselhou Ferreira. A chave está em encontrar um acordo que beneficie ambas as partes sem comprometer os interesses nacionais.
O papel da política nas relações comerciais
A interferência política, como a participação do senador Flávio Bolsonaro em audiências nos EUA, é vista como um fator que pode ter exacerbado a situação. “Todos sabemos o que o governo Trump pensa sobre o nosso governo. Isso pode ter piorado essa questão”, comentou Ferreira. Ele sugere que o governo brasileiro mantenha o diálogo, mas evite misturar temas eleitorais com negociações comerciais.
Raio-X | Haroldo Ferreira, 59
Graduado em Administração pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Haroldo Ferreira iniciou sua carreira na indústria calçadista nos anos 80. Com 22 anos de experiência na Vulcabrás, empresa gestora das marcas Mizuno, Olympikus e Under Armour, ele ocupa o cargo de presidente-executivo da Abicalçados desde 2019.
Palavras-chave secundárias: cotas de importação, tarifas americanas, indústria brasileira, proteção tarifária.
