Jornal local prospera ao manter vínculo forte com leitores em Nova York
Em Glens Falls, uma cidade no interior de Nova York, o jornal impresso não é uma relíquia do passado. O The Chronicle, fundado por Mark Frost em 1980, demonstra que o enraizamento profundo na comunidade e o contato humano direto são ingredientes essenciais para a sobrevivência e o sucesso de publicações locais em um cenário midiático desafiador. Enquanto muitos jornais lutam para se manter à tona, o Chronicle não apenas sobrevive, mas prospera, servindo como um pilar de informação e identidade para seus leitores.
A dedicação de Mark Frost ao jornal vai além da redação. Suas manhãs de quinta-feira são dedicadas a circular em seu Subaru Forester, distribuindo pessoalmente as edições. Essa interação direta com os leitores é um dos pilares do modelo de negócios do Chronicle. William Norton, um morador de Stony Creek, é um exemplo fiel, recolhendo 40 exemplares para compartilhar com seus vizinhos. “É só isso que eles têm para ler por lá”, afirma Norton, evidenciando o papel insubstituível do jornal em comunidades menores.
Frost adota uma abordagem proativa para garantir que cada exemplar chegue a um leitor engajado. Ele questiona quem leva pilhas do jornal, ciente dos custos de impressão e da importância de cada cópia. Essa preocupação com o desperdício, como no episódio em que recuperou jornais destinados a embalar vidros, reflete a mentalidade de uma categoria de publicações que luta pela relevância. De acordo com Zach Metzger, da Universidade Northwestern, enquanto milhares de jornais fecharam as portas desde os anos 2000, cerca de 2.250 publicações independentes, muitas delas familiares como o Chronicle, têm se mostrado “relativamente resilientes”.
O contato pessoal cultivado por Frost ao longo de décadas é um diferencial crucial. Agradecer a cada leitor que pega uma edição fortalece o vínculo e o senso de pertencimento. Diana Palmer, prefeita de Glens Falls, corrobora essa visão: “Eu diria que a maioria dos contatos que tenho com cidadãos engajados vem de pessoas que dizem ter lido alguma coisa no Chronicle”. Essa influência se estende aos anunciantes locais, que encontram no jornal um canal eficaz para alcançar seu público.
A resiliência diante das crises: o caso do The Chronicle
A trajetória do Chronicle não foi isenta de dificuldades. A pandemia de Covid-19 representou um risco real de falência, forçando a redução da equipe de 12 para apenas quatro funcionários. No entanto, com a gradual recuperação dos anunciantes, o jornal conseguiu se reerguer. Atualmente, a equipe conta com sete pessoas, e a edição de junho sobre formaturas do ensino médio, com 44 páginas, foi a mais robusta em seis anos. “De algum modo”, reflete Frost, “conseguimos atravessar o tempo”.
Mais de 40 anos promovendo a identidade de Glens Falls
Fundado em 1980 com um modesto investimento de US$ 1.700, o Chronicle tem um compromisso inabalável com o orgulho de Glens Falls, cidade de aproximadamente 15 mil habitantes que já ostentou o apelido de “a cidade natal dos Estados Unidos”. Mark Frost, nascido e criado na cidade, nutre um apego histórico pela região, o que se reflete em sua cobertura editorial.
Um exemplo notório desse apego foi a crítica de Frost ao filme “12 Anos de Escravidão”. Ele atacou a produção por não destacar o papel significativo de Glens Falls na vida de Solomon Northup, um homem negro livre que foi sequestrado e escravizado antes de reconquistar sua liberdade e escrever suas memórias. Frost argumentou que Saratoga Springs recebia os créditos indevidos por ter apresentado Northup aos homens que o sequestraram, enquanto Glens Falls, palco de eventos cruciais em sua história, era negligenciada.
O jornal atua como um guardião da identidade local, promovendo a cultura e a história da região. A seção “School Views”, onde crianças respondem a perguntas, é um exemplo de como o Chronicle engaja as novas gerações. Uma pergunta simples como “Você gosta da escola?” gera respostas que revelam a conexão entre os alunos e o jornal. Sadie Palmer, recém-formada e filha da prefeita, relembra com carinho a emoção de ver seus textos publicados na infância, guardando recortes do jornal como tesouros familiares.
As escolas, reuniões da prefeitura e o comércio local formam a espinha dorsal da cobertura do Chronicle. Edições recentes abordaram a decisão da Finch Paper de parar a produção de celulose e o quadro de funcionários da prisão local. A publicação também reserva espaço para curiosidades e temas mais regionais, como ataques de cascavel ou técnicas de preparo de cervo, mesclando o sério com o cotidiano.
A cobertura otimista de inaugurações de estabelecimentos comerciais e o entusiasmo com as edições de aniversário, onde anunciantes celebram o jornal, demonstram um ciclo virtuoso de apoio mútuo. “Nosso jornal está mais interessado em quem está progredindo do que em quem está fazendo besteira”, declarou Frost em 2020, resumindo a filosofia editorial focada no progresso e nas boas notícias.
Um modelo de negócios resiliente e adaptável
Os anunciantes do Chronicle são, em sua maioria, empresas locais, cujos anúncios chegam a 20 mil exemplares impressos e a uma versão digital enviada por e-mail a um público semelhante. Alexandria Gazetos Mineo, proprietária do restaurante New Way Lunch, descreve a cena: “Às quintas-feiras, as pessoas vêm, sentam-se para comer um cachorro-quente e ler o Chronicle”. Essa integração do jornal na rotina da comunidade é um fator de sucesso.
Mark Frost sempre recusou propostas para replicar o modelo do Chronicle em outras cidades, reafirmando seu compromisso com Glens Falls. Sua dedicação é tal que ele já exerceu todas as funções do jornal, exceto contabilidade e TI. No entanto, aos 75 anos, a questão da sucessão se torna cada vez mais relevante.
A sucessão familiar: o futuro do Chronicle nas mãos da nova geração
A transição para a próxima geração é um ponto crítico para muitos jornais de nicho, como aponta Metzger. A falta de sucessores dispostos a assumir ou comprar essas publicações é um desafio recorrente. Contudo, o Chronicle parece trilhar um caminho diferente.
Zander Frost, filho de Mark e Sandra Hutchinson (editora assistente), viu sua carreira em um grupo de comédia em Los Angeles ser interrompida pela pandemia. Ao retornar a Glens Falls, deparou-se com o pai em uma exaustiva rota de entregas e ofereceu ajuda. Essa iniciativa o levou a se aprofundar no jornal. Ele passou a vender anúncios, começando com promoções de baixo custo, reformulou processos tecnológicos, escreveu, editou e auxiliou a mãe em diversas áreas administrativas.
Embora Mark e Sandra abordem o futuro com cautela, sem pressionar o filho, a expectativa é que Zander assuma o comando. “Quando você faz parte de uma empresa familiar, é algo muito profundo”, comenta Zander. A declaração final, “O plano de sucessão sou eu”, sinaliza a continuidade do legado do Chronicle, assegurando que o jornal continuará a desempenhar seu papel vital na comunidade de Glens Falls.
O sucesso do The Chronicle em Nova York é um testemunho do poder do jornalismo local quando este se mantém fiel à sua missão de servir e conectar sua comunidade. Em um mundo cada vez mais digital e fragmentado, o contato humano, o compromisso com a verdade e a dedicação ao interesse local provam ser moedas de grande valor, capazes de garantir a prosperidade e a relevância de um veículo de comunicação.
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