Latam prevê menor crescimento de oferta no Brasil no 3º trimestre com efeito da guerra
A Latam Airlines revisou suas projeções de capacidade para o terceiro trimestre de 2024 no Brasil, antecipando uma redução de 3 pontos percentuais em relação ao planejado inicialmente. Apesar dessa adequação, a companhia aérea ainda espera registrar um crescimento de 8% na oferta doméstica no período, comparado ao mesmo trimestre do ano anterior. No entanto, o CEO da Latam Brasil, Jerome Cadier, expressou que a expectativa original era de um crescimento mais robusto, de 11%. Essa desaceleração projetada é um reflexo direto das turbulências geopolíticas globais, especialmente a guerra, que têm elevado significativamente os custos operacionais, sobretudo o preço do combustível de aviação (QAV).
A instabilidade no Oriente Médio e seus desdobramentos têm um impacto direto e sensível na indústria aérea. Cadier destacou que, mesmo que um acordo de paz fosse alcançado entre os Estados Unidos e o Irã e a guerra chegasse ao fim, os preços do QAV devem permanecer em patamares elevados pelos próximos 6 a 12 meses. A expectativa é que o combustível de aviação não retorne aos níveis de preço observados em 2025. Essa previsão recalibra as expectativas para o setor, forçando as empresas a buscarem soluções para mitigar os efeitos da inflação de custos.
Diante desse cenário, a Latam tem adotado uma estratégia de ajustes tanto nos preços das passagens quanto na oferta de voos. O executivo esclareceu que não houve cortes generalizados de rotas ou destinos. Em vez disso, a companhia optou por reduzir a frequência de determinados trechos. Um exemplo citado foi a ponte aérea Rio-São Paulo, uma das mais importantes e movimentadas do país, que terá sua frequência ajustada. Essa medida visa otimizar a operação e gerenciar os custos de forma mais eficaz em um ambiente de preços de combustíveis voláteis e elevados.
A complexidade da cadeia de suprimentos global e a infraestrutura de produção de petróleo foram apontadas por Cadier como fatores que dificultam um retorno rápido aos preços anteriores. “Você não consegue tirar um navio de um lugar para o outro em questão de dias e você também não consegue reconstruir eventualmente a infraestrutura de refino e de extração de petróleo que foram destruídas. Eu acho que vai demorar um tempo”, explicou o CEO. Essa visão sublinha a persistência dos desafios econômicos decorrentes do conflito.
Impacto financeiro da guerra no primeiro trimestre
O impacto financeiro da guerra já se fez sentir nos resultados da Latam. No primeiro trimestre de 2024, a companhia registrou um impacto de aproximadamente US$ 40 milhões (equivalente a R$ 200 milhões na época) devido ao conflito no Irã. Esse evento forçou a empresa a rever suas projeções para diversos indicadores financeiros e operacionais. Anteriormente, a Latam projetava um preço médio do barril de petróleo em torno de US$ 90. Com as novas estimativas, a companhia agora prevê que esse valor suba para US$ 170 nos segundo e terceiro trimestres de 2024, e para US$ 150 no final do ano.
Revisão das projeções de Ebitda e alavancagem
As projeções de Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) para 2026 também foram ajustadas. Em dezembro de 2023, a Latam estimava que a margem de Ebitda alcançaria entre US$ 4,2 bilhões e US$ 4,6 bilhões. Na revisão de maio de 2024, essa faixa foi reduzida para entre US$ 3,8 bilhões e US$ 4,2 bilhões. Similarmente, a projeção para a alavancagem líquida ajustada (relação entre dívida líquida e Ebitda) para o final de 2026 foi revista. Antes, esperava-se que ficasse em ou abaixo de 1,4x, com liquidez superior a US$ 5 bilhões. Agora, a projeção é de alavancagem abaixo ou igual a 1,8x, com liquidez maior ou igual a US$ 4,5 bilhões. Essas revisões refletem a necessidade de adaptação a um cenário econômico mais desafiador.
Otimismo com a PEC do fim da escala 6×1 e o futuro dos aeronautas
Em paralelo às questões macroeconômicas, o CEO da Latam Brasil, Jerome Cadier, demonstrou otimismo em relação às discussões sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa o fim da escala 6×1 no país. Essa escala, que permite jornadas de trabalho de até seis dias consecutivos antes de um descanso, tem sido alvo de debates acalorados no setor trabalhista e em categorias específicas como a dos aeronautas.
Em maio, Cadier havia manifestado preocupações sobre o impacto que a aprovação da PEC, em sua forma original, poderia ter na operação internacional da companhia. A principal apreensão residia nas implicações para a jornada de trabalho de pilotos e comissários de bordo, que possuem regulamentações específicas. No entanto, após reuniões com o Ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, e com representantes da pasta, uma perspectiva mais alinhada parece ter emergido.
O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) esclareceu que os aeronautas, por possuírem especificidades em suas escalas de trabalho previstas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e em leis específicas, como a Lei nº 13.475/2017, que dispõe sobre o exercício da profissão de tripulante de aeronave, já possuem um regime diferenciado. Cadier reconheceu essa particularidade: “A gente não é contra isso, mas tem uma particularidade da operação de tripulantes na companhia aérea os que voam, que precisam estar refletidas na lei”.
O CEO expressou confiança de que a eventual eliminação da escala 6×1 respeitará as especificidades da profissão de tripulante de aeronave, garantindo que as necessidades operacionais e de segurança da aviação sejam consideradas. “Eu tô otimista que essa transformação e eliminação do 6×1 vai respeitar alguns limites específicos”, afirmou Cadier. Essa postura sugere um diálogo construtivo entre a empresa e o governo para encontrar um equilíbrio entre a modernização das leis trabalhistas e a manutenção da eficiência e segurança das operações aéreas.
Entendendo a escala 6×1 e suas implicações
A escala 6×1 é um modelo de jornada de trabalho que permite que um empregado trabalhe por até seis dias consecutivos antes de ter direito a um dia de descanso. Essa prática tem sido criticada por diversos setores, sob o argumento de que pode levar à fadiga excessiva e prejudicar o bem-estar do trabalhador. No caso dos aeronautas, a natureza do trabalho, que exige alta concentração, tomada de decisão rápida e responsabilidade pela segurança de centenas de passageiros, torna a discussão ainda mais crucial.
A legislação brasileira já prevê regras específicas para a jornada de trabalho dos tripulantes de aeronaves, considerando os riscos e as particularidades da profissão. A Lei nº 13.475/2017, por exemplo, estabelece limites de horas de voo, períodos de descanso e outras condições para garantir a segurança e a saúde dos profissionais. A discussão em torno da PEC 6×1, portanto, busca harmonizar essas regulamentações existentes com a proposta de extinção geral da escala.
O futuro da aviação no Brasil: desafios e oportunidades
O cenário atual para a Latam e para o setor aéreo brasileiro é de cautela e adaptação. A guerra no Oriente Médio e a consequente alta do petróleo impõem desafios significativos, forçando as empresas a reavaliarem suas estratégias de crescimento e a buscarem maior eficiência operacional. A redução na projeção de capacidade da Latam para o terceiro trimestre é um indicativo claro dessa necessidade de ajuste.
Por outro lado, a perspectiva positiva em relação à PEC da escala 6×1, com a promessa de respeito às especificidades dos aeronautas, representa um avanço na modernização das relações de trabalho. A capacidade de conciliar as demandas dos trabalhadores com as necessidades operacionais das empresas aéreas será fundamental para o desenvolvimento sustentável do setor.
A indústria da aviação é intrinsecamente ligada à economia e à mobilidade de pessoas e bens. Portanto, a estabilidade nos custos operacionais e um ambiente regulatório claro e favorável são essenciais para que as companhias aéreas possam continuar a expandir suas operações, oferecer preços competitivos e, consequentemente, impulsionar o turismo e os negócios no Brasil. A Latam, ao ajustar suas projeções e buscar soluções pragmáticas, demonstra resiliência e um compromisso em navegar pelas complexidades do mercado global.