Mães endividadas apostam online em busca de renda, aponta estudo
O avanço das apostas online no Brasil tem impactado significativamente a vida das mulheres, especialmente as mães. Um estudo recente aponta que mais da metade das brasileiras já teve algum contato com o universo das “bets”, seja como apostadoras ou afetadas pelo vício de familiares. Dentre elas, um dado alarmante revela que mães com filhos apostam cerca de 1,6 vez mais do que mulheres sem filhos. Essa frequência sugere que, para muitas dessas mães, o jogo não é um mero passatempo ou busca por adrenalina, mas sim uma tentativa desesperada de complementar a renda e fechar as contas do mês.
O levantamento “Mulheres & Bets”, realizado pela Clarice em parceria com o Instituto Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA, combinou 20 grupos qualitativos com 60 mulheres e homens e uma enquete nacional com 2.008 entrevistados. Os resultados pintam um quadro preocupante sobre a relação feminina com as apostas online.
Aumento da participação feminina em grupos de apoio
O reflexo desse fenômeno também é visível nos encontros de Jogadores Anônimos. Nos últimos meses, houve um crescimento notável na participação feminina. Em algumas reuniões, as mulheres já representam quase um terço dos presentes. Histórias como a de uma gestante lutando contra o vício em caça-níqueis online e de uma mãe que conseguiu largar o jogo após pensar no filho demonstram a gravidade e a diversidade de casos.
Beatriz Della Costa, cofundadora da Clarice e porta-voz do estudo, desmistifica a ideia de que as mulheres apostam por luxo ou ostentação, como associado a influenciadoras digitais. “Elas apostam para pagar o bolo do aniversário, para ir comer num japonês, para pedir um delivery, para comprar material escolar. É como se fosse a terceira renda”, explica Della Costa. Segundo a pesquisadora, essa percepção de “atalho” para uma vida mais digna, saindo da mera sobrevivência, é o que explica a forte disseminação das apostas entre mães.
O jogo online, legalizado no Brasil em 2018 e que ganhou força durante a pandemia de Covid-19, capturou bilhões de reais das famílias brasileiras. A popularização das plataformas coincidiu com um período de perda de renda, emprego e estabilidade para muitas mulheres, que viram nas apostas uma promessa de dinheiro rápido e um complemento de renda.
O marketing agressivo e o impacto nas finanças familiares
Entre 2019 e 2025, o mercado de apostas operou com poucas regras de publicidade e prevenção ao vício. O marketing, majoritariamente direcionado às redes sociais, utilizou influenciadores para promover caça-níqueis e falsas “estratégias vencedoras”, atraindo um público vulnerável.
Um exemplo emblemático é o de Bianca Araújo, 38 anos, que perdeu R$ 500 mil, seu casamento, economias e moradia entre 2021 e 2023 devido às apostas online. Iniciando com palpites esportivos, ela acreditou ter encontrado uma nova fonte de renda. “É uma doença mesmo, uma loucura”, relata, lembrando de ter vendido bens e feito empréstimos para sustentar o vício.
A história de Bianca ressalta a rapidez com que o jogo pode destruir vidas. Após um período de ganhos iniciais, o saldo da conta começou a cair drasticamente em 2022, levando-a a vender móveis para cobrir despesas básicas. A superação veio após crises de pânico e a decisão de parar em meados de 2023, mantendo-se abstêmia há três anos.
Mudança no papel social feminino e a pressão por provisão
O psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, do Proad da Unifesp, associa o aumento das apostas entre mulheres a uma mudança no papel social feminino. Com as mulheres cada vez mais assumindo o papel de provedoras do lar, a pressão para gerar renda se intensifica, levando algumas a buscar no jogo uma solução.
“À medida que as mulheres também entram nesse perfil de ser a pessoa que tem que prover alguma coisa, conseguir algum dinheiro, elas também vão correr atrás do jogo com essa função”, afirma Vieira Júnior. Ele ressalta, contudo, a importância de diferenciar o aumento do número de jogadores do desenvolvimento de um comportamento problemático ou dependência.
Cassino online: a porta de entrada para o vício
O estudo da Clarice aponta que as mulheres, especialmente as mães, tendem a ter mais dificuldade em reconhecer e abandonar o jogo quando ele se torna um problema. O custo emocional é elevado, pois apostar pode significar colocar em risco o papel social de cuidadora e provedora, gerando sentimentos de falha.
A pesquisa recomenda a restrição prioritária dos jogos de cassino digital, modalidade mais popular entre as mulheres e mais viciante devido ao retorno imediato. Diferentemente das apostas esportivas, que possuem um processo mais longo, o cassino online oferece gratificação instantânea, tornando-se uma porta de entrada mais rápida para o vício.
Regulamentação e os desafios futuros
Associações do setor, como a ANJL, afirmam que os sites autorizados possuem mecanismos de controle e enfrentam concorrência desleal com plataformas ilegais. Embora a popularização dos jogos via celular esteja diminuindo a diferença entre homens e mulheres, alguns padrões persistem: homens apostam mais em bets esportivas, enquanto mulheres tendem a preferir jogos de cassino virtual.
Apesar da unanimidade em reconhecer os perigos do jogo, o posicionamento governamental ainda é ambíguo. Medidas de restrição, como intervalos obrigatórios entre apostas, atenuam o problema, mas não atacam sua raiz. A pesquisadora Della Costa defende um investimento maior na origem do problema: a pressão financeira que leva essas mulheres a apostar.
A história de Viviane, mãe de uma jovem de 23 anos que se endividou com agiotas após perder o emprego, ilustra a gravidade da situação. A família precisou vender bens e pagar agiotas para tentar resolver a situação. O bloqueio do CPF para impedir o acesso a apostas foi um passo crucial para a recuperação da filha, que está há meses sem jogar, mas as consequências financeiras ainda persistem.
Em suma, o estudo “Mulheres & Bets” lança luz sobre uma realidade complexa e multifacetada. As apostas online, para muitas mães brasileiras, deixaram de ser entretenimento para se tornarem uma ferramenta de sobrevivência em um cenário de dificuldades econômicas. A busca por uma “vida digna” através do jogo tem se mostrado, na maioria dos casos, um caminho perigoso e destrutivo, evidenciando a necessidade de políticas públicas que abordem as causas estruturais do endividamento feminino e ofereçam suporte eficaz para a recuperação.
