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O que é soberania para potências médias em 2024?

O que é soberania para potências médias em um mundo redefinido pela tecnologia?

A ascensão de potências globais como China e Estados Unidos tem levado nações de médio porte a reavaliar suas posições e estratégias no cenário internacional. Em um evento recente promovido pela Fundação Körber em Berlim, com a participação de líderes políticos, econômicos e acadêmicos de países como Brasil, Índia, Japão, África do Sul e Alemanha, o conceito de soberania foi amplamente discutido sob a nova ótica da geopolítica tecnológica. O encontro, que também marcou o lançamento do “Relatório das Potências Médias Emergentes 2026”, revelou preocupações crescentes e a necessidade urgente de adaptação.

O relatório, que consultou especialistas de diversas nações, aponta para uma percepção cada vez mais negativa da influência dos Estados Unidos globalmente. No grupo formado por África do Sul, Alemanha, Brasil e Indonésia, menos de 25% dos especialistas consideram a influência americana positiva. A Alemanha, em particular, viu sua avaliação positiva despencar de quase 80% em 2024 para apenas 10% em 2026, uma queda vertiginosa em dois anos. Em contraste, a Índia mantém uma avaliação positiva próxima a 50%.

Quando a mesma pergunta é direcionada à China, os resultados divergem significativamente. Nos países de África do Sul, Brasil e Indonésia, mais de 74% dos consultados veem a influência chinesa de forma positiva, com o Brasil liderando essa percepção a 83%. A Índia, por outro lado, registra apenas 23% de avaliação positiva, e a Alemanha, 14%. Essa polarização reflete as diferentes relações e dependências que cada nação mantém com as duas superpotências.

O cerne do debate em Berlim girou em torno da soberania digital e o impacto da inteligência artificial (IA). Ana Palacio, ex-chanceler da Espanha, destacou que a IA está redefinindo fundamentalmente a noção de poder. Ela explicou que essa tecnologia cria uma convergência sem precedentes entre setores como indústria, defesa, administração pública, segurança e educação. A nova “topografia do poder” é moldada por um conjunto complexo de elementos, incluindo energia, dados, semicondutores (chips), minerais críticos, infraestrutura de cabos submarinos, plataformas digitais e, claro, os próprios modelos de IA.

A necessidade de um “teste de realidade” para potências médias

Para que uma nação seja considerada uma “potência média” no cenário atual, é imperativo que realize um rigoroso “teste de realidade”. Isso implica mapear suas dependências tecnológicas e estratégicas, identificar riscos potenciais, analisar seus parceiros internacionais e, crucialmente, construir capacidades tecnológicas mínimas essenciais para sua autonomia. A mera regulamentação de tecnologias desenvolvidas em outros países, embora importante, não é suficiente. É preciso uma conjugação de políticas regulatórias com uma robusta política industrial voltada para o desenvolvimento tecnológico.

O maior risco para uma potência média é tornar-se meramente uma “usuária” ou uma “reguladora” de tecnologias que foram concebidas e desenvolvidas em outros países. Essas posições implicam uma perigosa vulnerabilidade e limitação de autonomia. A capacidade de influenciar o desenvolvimento e a aplicação dessas tecnologias é fundamental para a preservação da soberania.

Brasil: Oportunidades em energia, minerais críticos e IA de código aberto

Durante o evento, foi enfatizada a importância de três elementos cruciais para o Brasil: energia, terras raras e minerais críticos, e o desenvolvimento de modelos de IA de código aberto. A IA, em sua essência, é um jogo de energia. Como afirma Jensen Huang, fundador da Nvidia, o negócio da empresa não é fabricar chips, mas sim transformar elétrons em inteligência. Nesse contexto, a matriz energética brasileira, predominantemente limpa, apresenta uma vantagem significativa.

O potencial do Brasil em biometano, por exemplo, pode gerar simultaneamente empregos, independência energética e impulsionar o desenvolvimento tecnológico. A transição energética e a capacidade de fornecer a energia necessária para os data centers e para o treinamento de modelos de IA são fatores determinantes.

A relevância dos minerais críticos para a soberania tecnológica

No que diz respeito aos minerais críticos, o Brasil tem uma oportunidade histórica de reavaliar sua política mineral. Assim como a Indonésia fez com o níquel, o país pode buscar agregar valor localmente, em vez de exportar matérias-primas sem processamento. Minerais como lítio, cobalto, níquel e terras raras são essenciais para a fabricação de componentes eletrônicos, baterias e outras tecnologias de ponta. Controlar parte dessa cadeia produtiva é vital para a soberania.

IA de código aberto como caminho para a autonomia

A adoção de modelos de IA de código aberto, como os desenvolvidos pela empresa francesa Mistral, oferece uma via para que potências médias possam retreinar e controlar essas tecnologias localmente. Isso permite adaptar os modelos às necessidades e prioridades nacionais, além de reduzir a dependência de plataformas proprietárias estrangeiras. A capacidade de desenvolver e adaptar a IA de forma autônoma é um pilar fundamental da soberania no século XXI.

O futuro da soberania: Adaptação e Escolha

Diante do avanço acelerado da inteligência artificial e da reconfiguração do poder global, as potências médias estão diante de um imperativo: fazer escolhas estratégicas. Ficar inerte ou adiar a tomada de decisões não é uma opção viável. É preciso investir em pesquisa e desenvolvimento, fortalecer a infraestrutura digital, garantir o acesso a recursos estratégicos como minerais críticos e energia limpa, e promover a capacitação tecnológica da força de trabalho.

A soberania, no contexto atual, transcende a mera definição territorial ou militar. Ela se manifesta na capacidade de um país de definir seu próprio caminho tecnológico, de controlar seus dados, de influenciar o desenvolvimento de novas tecnologias e de garantir que essas inovações sirvam aos interesses de sua população e de seu desenvolvimento. A geopolítica da tecnologia exige uma nova compreensão do que significa ser soberano em um mundo cada vez mais interconectado e digitalizado.

Resumo da seção:

O debate sobre soberania para potências médias na era da IA evidencia a necessidade de adaptação estratégica. Países como Brasil, Índia e Alemanha buscam redefinir sua influência diante de EUA e China, focando em autonomia digital, controle de recursos como minerais críticos e energia, e no desenvolvimento de tecnologias próprias, como IA de código aberto. A mera regulamentação não basta; é preciso investimento em política industrial e um “teste de realidade” para mapear dependências e riscos.

Palavras-chave secundárias para o conteúdo:

  • Geopolítica da tecnologia
  • Soberania digital
  • Inteligência artificial
  • Minerais críticos
  • Política industrial

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