Onda woke: Da identidade à classe, um avanço político?
A paisagem política americana tem testemunhado uma notável evolução no discurso progressista, frequentemente rotulado como “onda woke”. Inicialmente, o movimento concentrou-se intensamente em questões de identidade racial e de gênero, abordando o racismo sistêmico, a discriminação e a busca por equidade em diversas esferas da sociedade. No entanto, uma análise mais aprofundada sugere uma transição em curso, com um foco emergente em questões de classe econômica. Essa mudança, argumentam alguns analistas, pode representar um avanço estratégico para a esquerda, afastando-se de debates por vezes elitistas e voltando-se para preocupações mais amplas e tangíveis da classe trabalhadora.
A origem dessa transformação é multifacetada e complexa. Eventos como a ascensão de Donald Trump, o movimento #MeToo, e o assassinato de George Floyd sob o joelho de um policial em 2020, sem dúvida, catalisaram a concentração da esquerda em pautas de identidade. A noção de que “a identidade se tornou destino” permeou o discurso, onde o privilégio branco era negado ao negro mais rico, e a política de justiça social, na prática, tornou-se obcecada por preocupações de elites multirraciais, como a admissão preferencial em universidades de ponta. Para a classe média com empregos de colarinho branco, denunciar privilégios raciais tornou-se um rito de passagem, uma forma de demonstrar “esclarecimento” e desprezar os “deploráveis” que votaram em Trump. Críticos apontam que essa política divisiva, que alienou potenciais aliados da classe trabalhadora, foi abraçada por líderes democratas, ignorando princípios marxistas clássicos sobre a unidade da classe trabalhadora.
O escrutínio da vida dos “socialistas”
Paralelamente a essa discussão teórica, a mídia conservadora tem explorado intensamente os estilos de vida de figuras associadas à esquerda, utilizando-os como munição contra o movimento. O exemplo do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e seus correligionários nos Socialistas Democráticos da América (DSA), ilustra essa dinâmica. O New York Post, em particular, tem se deleitado em expor as aparentes contradições entre a retórica anticapitalista de alguns membros do DSA e seus estilos de vida privilegiados. Matérias destacam figuras como Gustavo Gordillo, descrito como “líder anti-ricos do DSA”, que supostamente reside em um apartamento de luxo avaliado em US$ 1,5 milhão, financiado por seus pais.
O jornal também apontou para Tracy Rosenthal, defensora da abolição dos aluguéis e filha de um produtor musical bem-sucedido, rotulada como “nepo baby do Grammy”. Outro alvo foi Grace Ryan, uma herdeira de 25 anos de uma fortuna do setor de chocolates, que publicou fotos em redes sociais fumando charuto em um barco e vestindo um suéter de US$ 400. A defesa de Ryan, invocando o conceito de noblesse oblige – a obrigação de quem tem privilégios de agir com responsabilidade social –, foi recebida com escárnio por alguns, mas levanta uma questão pertinente: o privilégio inerente de um indivíduo impede sua capacidade de lutar por causas sociais?
Essa crítica, embora explorada pela direita, ecoa debates internos na esquerda desde os tempos de Karl Marx, que dependeu do apoio financeiro de Friedrich Engels, filho de um industrial têxtil. George Orwell, em “O Caminho para Wigan Pier”, já expressava ceticismo sobre os adeptos do socialismo, descrevendo-os como “jovens esnobes bolcheviques” ou “homens pequenos certinhos de colarinho branco” que, apesar de suas ideologias, não tinham a intenção de perder sua posição social. Essa tensão entre a ideologia e a prática pessoal tem sido um ponto de vulnerabilidade para a esquerda.
A transição para o “Woke 2.0”: Foco na classe
A emergência do que alguns chamam de “Woke 2.0” sugere uma mudança de paradigma. A transição do foco em identidade para a classe econômica parece ter sido impulsionada por uma série de fatores recentes. A derrota de Kamala Harris em 2024 e o crescente apoio de Trump a eleitores não brancos da classe trabalhadora, juntamente com a repressão a programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) e a decisão da Suprema Corte sobre admissões universitárias, podem ter sinalizado a necessidade de uma nova abordagem.
Além disso, a indignação de ativistas democratas com a situação em Gaza, em detrimento de injustiças internas, e a própria vitória de Mamdani com uma plataforma focada em acessibilidade econômica, como visto em eleições moderadas na Virgínia e Nova Jersey, apontam para essa reorientação. A campanha de Mamdani, com seu compromisso com “o calor do coletivismo”, embora ainda incerta em seus resultados práticos, sinaliza uma tentativa de ressonância com as dificuldades econômicas enfrentadas pelos nova-iorquinos.
Apesar das divisões internas entre progressistas e moderados, suas agendas parecem convergir em torno do “precariado” – aqueles em empregos instáveis e de baixa remuneração. Em todo o espectro democrata, o discurso populista econômico ganha força, defendendo salários mais altos, preços mais baixos e cuidados de saúde acessíveis. A linha divisória não é mais apenas a cor da pele, mas o saldo bancário. Bilionários são os vilões, e qualquer pessoa que trabalhe para pagar suas contas é, em um sentido amplo, considerada parte da classe trabalhadora.
Implicações e desafios da nova agenda
Essa mudança para um foco em classe pode ser vista como um retorno às raízes do movimento progressista, que historicamente lutou pela melhoria das condições da classe trabalhadora. Ao priorizar a economia, a esquerda pode estar buscando reconectar-se com um eleitorado mais amplo, que talvez se sentisse alienado pelas discussões anteriores focadas predominantemente em questões de identidade, percebidas por alguns como pertencentes a uma elite acadêmica ou cultural.
No entanto, os desafios persistem. A crítica sobre o estilo de vida de alguns ativistas de esquerda continuará a ser explorada pela oposição. A capacidade de traduzir a retórica econômica em políticas concretas e eficazes será crucial. Além disso, a questão de como equilibrar as preocupações de identidade com as de classe é complexa e requer nuances para evitar a alienação de grupos que ainda enfrentam discriminação significativa com base em raça, gênero ou orientação sexual.
A evolução do movimento woke de um foco em identidade para um em classe é um desenvolvimento político significativo. Se essa transição representa um avanço genuíno e sustentável para a esquerda americana, ou apenas uma tática adaptativa, ainda está para ser visto. O sucesso dependerá da capacidade de articular uma visão inclusiva que aborde as necessidades econômicas de todos os americanos, sem ignorar as injustiças sociais persistentes. Como George Orwell observou, os adeptos do socialismo podem ser sua pior propaganda. A nova agenda de classe oferece uma oportunidade para superar essa imagem, focando em questões que afetam a vida cotidiana de milhões.
Palavras-chave secundárias: política americana, movimento woke, justiça social, classe trabalhadora.
