Produção de fertilizantes no Brasil: um ciclo de crises e poucos avanços
A cada turbulência geopolítica internacional, o setor de fertilizantes brasileiro entra em alerta. Acordos diplomáticos, como o recente entre Estados Unidos e Irã, podem trazer alívios temporários nos preços globais, e uma queda na demanda interna já vinha sendo observada nas últimas semanas. No entanto, a questão estrutural da dependência brasileira de importações e a dificuldade em avançar na produção nacional permanecem como um gargalo persistente, impactando diretamente a rentabilidade do agronegócio. A lição de crises passadas, como a deflagrada pela guerra na Ucrânia em 2022, parece não ter sido totalmente assimilada, e o país segue refém de flutuações externas.
Paulo Bruno Rocha Craveiro, analista sênior da Datagro, explica que a decisão do produtor rural em investir em fertilizantes está intrinsecamente ligada à relação de troca de seus produtos com o custo do insumo e à perspectiva de retorno sobre o investimento. “Se os preços dos fertilizantes estão elevados e geram aumento de custos, há um recuo no interesse de compra, uma vez que o produtor não vê lucratividade”, afirma. Essa dinâmica expõe a vulnerabilidade do mercado brasileiro, que depende majoritariamente do exterior para suprir sua demanda.
A dependência externa e a estagnação da produção nacional
A raiz do problema reside na alta dependência brasileira de fertilizantes importados, estimada em cerca de 85%. Crises internacionais, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, evidenciaram a fragilidade dessa posição. Desde 2022, o objetivo declarado é reduzir essa dependência para aproximadamente 50%, uma meta que, segundo Craveiro, “não temos visto esse movimento acontecer”. O Brasil enfrenta dificuldades significativas para produzir fertilizantes a preços competitivos no mercado mundial, o que inviabiliza a execução de grandes projetos de expansão ou instalação de novas unidades fabris em território nacional.
Os números da produção interna reforçam essa análise. Entre janeiro e março deste ano, o país produziu 1,4 milhão de toneladas de fertilizantes, um volume inferior aos 1,7 milhão de toneladas registrados no mesmo período do ano anterior. No total, a entrega de insumos pela indústria aos produtores, de janeiro a março deste ano, alcançou 9,8 milhões de toneladas, conforme dados da Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos). Essa estagnação, ou até mesmo retração, da produção local contrasta com a necessidade crescente do agronegócio.
Desafios complexos: tributação, meio ambiente e competitividade
A complexidade para impulsionar a produção nacional de fertilizantes envolve uma série de fatores, incluindo questões tributárias e ambientais. Contudo, a solução, segundo o analista da Datagro, não passa por medidas protecionistas como a taxação de produtos importados. “Não adianta fazer um movimento de proteger a indústria nacional de fertilizantes taxando o produto que vem de fora”, alerta Craveiro. Tal medida poderia comprometer a competitividade dos produtos agrícolas brasileiros no mercado internacional. O caminho a ser trilhado é o de aprimorar a viabilidade da produção interna, focando na redução do custo do insumo.
A falta de competitividade da produção brasileira deixa o mercado interno refém das oscilações e decisões do mercado externo. Embora acordos diplomáticos e a perspectiva de um maior fluxo de suprimento global possam levar a uma redução nos preços internacionais, essa queda não se reflete imediatamente no Brasil. O processo de negociação com fornecedores, a redefinição de preços e a absorção de estoques adquiridos a valores mais altos demandam tempo.
“Vemos os preços caindo no mercado internacional, mas ainda leva um tempo para uma consolidação dessa queda aqui no mercado brasileiro”, observa Craveiro. Essa defasagem temporal adiciona uma camada de incerteza para os produtores, que precisam planejar seus investimentos com base em custos que podem demorar a se ajustar.
A lição não aprendida e a busca por estabilidade
A experiência da pandemia e da guerra na Ucrânia serviu como um duro aprendizado para muitos produtores. Diante do temor de escassez, alguns anteciparam compras em grande volume e a preços elevados, para descobrir que o insumo, de fato, não faltou. Essa cautela excessiva, impulsionada pelo medo, resultou em custos mais altos e margens apertadas.
Atualmente, tanto importadores quanto produtores avaliam os novos rumos do mercado. A incerteza gerada por acordos em negociação, que ainda possuem pontos a serem definidos, impede uma estabilidade imediata. “O acordo prevê um período para avaliação de vários pontos ainda não definidos, o que gera incertezas no mercado”, explica Craveiro. A expectativa é por um cenário mais estável, onde cláusulas indefinidas não causem novas volatilidades de preço.
O impacto das margens apertadas e a busca pela eficiência
Com margens de lucro cada vez mais apertadas no campo, o produtor brasileiro tem um olhar aguçado sobre os custos. O fertilizante representa uma parcela significativa desses gastos, mas sua aplicação está diretamente atrelada à produtividade. O cálculo é simples: quanto maior a produtividade, menor o custo por unidade produzida. Portanto, o produtor busca o momento mais oportuno para adquirir o insumo, visando mitigar despesas e otimizar seus resultados.
O papel do Irã no cenário internacional de fertilizantes
Um ponto crucial no recente acordo diplomático é a suspensão das sanções ao Irã para negociações internacionais. O país persa é um relevante fornecedor de matérias-primas essenciais, incluindo petróleo e fertilizantes. A expectativa é que a liberação das sanções aumente o volume de produtos iranianos no mercado global. Além disso, a possibilidade de negociações diretas, sem a necessidade de triangulações que historicamente encareciam as mercadorias, pode representar um fator de redução de custos a médio e longo prazo.
Produção nacional de fertilizantes: um resumo dos desafios
O Brasil, apesar de ser um gigante agrícola, enfrenta um paradoxo no setor de fertilizantes. A dependência de importações, que beira os 85%, o torna vulnerável a crises globais. A produção interna, embora com potencial, esbarra em dificuldades de competitividade global, problemas tributários e ambientais. A meta de reduzir a dependência para 50% ainda parece distante, com números de produção que não demonstram avanço significativo. Medidas protecionistas não são a solução, e o foco deve ser em melhorar a viabilidade e reduzir os custos da produção nacional. Enquanto isso, o produtor rural segue atento às flutuações do mercado internacional, buscando o melhor momento para adquirir insumos e garantir a rentabilidade de sua lavoura, em um ciclo contínuo de cautela e adaptação.