Recorde de empresas brasileiras publicam dados de emissões de carbono
O Brasil atingiu um marco histórico no monitoramento de emissões de gases de efeito estufa no setor corporativo. O Programa Brasileiro GHG Protocol (PBGHG), reconhecido como um dos maiores bancos de dados nacionais sobre o tema, registrou um número recorde de empresas divulgando suas informações sobre emissões de carbono. No ciclo deste ano, 757 organizações apresentaram seus inventários referentes às emissões geradas em 2025, representando um aumento de 12% em comparação ao período anterior, quando 670 companhias enviaram seus relatórios. Esses dados, que foram acessados com exclusividade pela Folha, serão apresentados publicamente e disponibilizados na plataforma Registro Público de Emissões, mantida pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
Aumento expressivo e total de emissões registradas
O crescimento no número de participantes do PBGHG reflete diretamente um aumento nas emissões registradas no programa. Somadas, as 757 empresas declararam ter emitido 213 milhões de toneladas de CO2e (dióxido de carbono equivalente) em 2025, considerando apenas a poluição gerada diretamente por suas operações (escopo 1). No escopo 2, que abrange as emissões ligadas ao consumo de energia, o total declarado foi de 8,1 milhões de toneladas de CO2e. Já o escopo 3, que engloba as emissões indiretas provenientes das cadeias de valor das empresas, alcançou a expressiva marca de 1,18 bilhão de toneladas de CO2e no mesmo ano.
Para contextualizar esses números, é importante notar que, segundo os dados mais recentes do Inventário Nacional, o desmatamento (mudança do uso da terra) foi responsável por 805 milhões de toneladas de CO2e em 2022. A divulgação desses dados corporativos oferece uma visão cada vez mais clara do impacto das atividades empresariais no clima.
Fatores impulsionadores do aumento na divulgação
Guilherme Lefevre, gestor do PBGHG, atribui o aumento significativo no número de empresas participantes à crescente importância da agenda climática nos últimos anos. Ele destaca o maior engajamento de setores que anteriormente reportavam poucas emissões, como o agronegócio. “Vem crescendo muito a quantidade de empreendimentos rurais e fazendas comprometidos com a elaboração de inventário, era uma coisa que estava mais restrita ao mundo empresarial e corporativo”, afirma Lefevre.
Neste ciclo, a plataforma contabiliza dados de 62 organizações do setor de agricultura, pecuária, floresta e pesca, o que representa um aumento de 38% em relação ao ciclo anterior. Apesar desse avanço, os inventários desse setor cobrem apenas 0,8% das emissões diretas da atividade agrícola. Em contrapartida, a representatividade é notavelmente maior em outras categorias. Cerca de 75% da poluição gerada em processos industriais — incluindo os setores de cimento, siderurgia, alumínio e petroquímicas — está registrada nos relatórios disponíveis. Na combustão estacionária (queima de combustíveis em caldeiras), 55% das emissões nacionais são reportadas.
O que é o Programa Brasileiro GHG Protocol?
A metodologia do GHG Protocol foi desenvolvida na década de 1990 pelo World Resources Institute (WRI) e pelo Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável. No Brasil, as normas globais foram adaptadas ao contexto nacional pela FGV, que agrega e disponibiliza esses dados desde 2008. Lefevre ressalta que muitas outras organizações utilizam a metodologia sem, contudo, reportar seus dados diretamente ao PBGHG, embora não haja uma estimativa precisa do número dessas empresas.
O gestor do programa identifica um grande potencial de crescimento na adesão de empresas de médio e pequeno porte, especialmente nos setores de varejo e agronegócio. Lefevre também observa pouca relação direta entre este aumento de adesões e uma preparação iminente para um mercado regulado de carbono no Brasil, mas não descarta essa possibilidade no futuro, à medida que mais companhias possam ser obrigadas a reportar suas emissões.
“Esse crescimento tem muito a ver com a importância que a agenda das mudanças climáticas ganhou nos últimos cinco, seis anos, além do entendimento das organizações sobre a importância de fazer a gestão das emissões de forma voluntária”, complementa Lefevre.
Barreiras e metas voluntárias de redução de emissões
Uma pesquisa interna realizada pelo PBGHG com 512 empresas que reportam suas emissões revelou que metade dos respondentes aponta o custo e a viabilidade financeira como as principais barreiras para a redução de emissões de carbono. Nos setores de produção, 54% das organizações citaram esse entrave, enquanto no setor de serviços, o percentual foi de 43%.
A maturidade tecnológica é outro obstáculo relevante, mencionada por 40% dos respondentes. A transição energética e a substituição de combustíveis aparecem como desafios para 32% das empresas. Apesar dessas dificuldades, um número expressivo de companhias demonstra compromisso com a sustentabilidade:
- 62% das 512 empresas pesquisadas possuem metas voluntárias para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa.
- Deste grupo, 38% estabeleceram o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono.
As motivações para a definição dessas metas são diversas. Metade das companhias com objetivos claros cita o compromisso com a sustentabilidade e a responsabilidade ambiental como principais impulsionadores. Cerca de 30% mencionam razões ligadas à competitividade, reputação e posicionamento de mercado, além de eficiência operacional e redução de custos.
Demanda por relatórios e o futuro da regulação
Lefevre também aponta que, em alguns setores, a demanda pela elaboração de inventários pode vir de clientes ou financiadores. No entanto, ele observa um crescimento na demanda decorrente de regulamentações, citando normas de relato de órgãos de Justiça. Atualmente, não há previsão de uma exigência mais ampla para a publicação de relatórios de sustentabilidade no Brasil. Em maio deste ano, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) suspendeu a obrigatoriedade da divulgação desses documentos, que estava prevista para entrar em vigor a partir de 2027.
O aumento contínuo no número de empresas que divulgam dados sobre emissões de carbono é um indicativo positivo da crescente conscientização e do engajamento do setor corporativo brasileiro com as questões ambientais e a luta contra as mudanças climáticas.
Palavras-chave secundárias: emissões de carbono corporativas, agenda climática no Brasil, sustentabilidade empresarial, relatórios de sustentabilidade.
