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Tarifas de Trump afetam 42% das exportações de estados brasileiros

Tarifas de Trump impactam até 42% das exportações de estados brasileiros aos EUA

As tarifas impostas pelos Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, estão gerando efeitos significativos e desiguais nas exportações de diversos estados brasileiros. Um levantamento realizado pela Folha, com base em dados de 2025 do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), aponta que até 42% das exportações totais de certos estados podem ser afetadas por essas sobretaxas. Ceará, Espírito Santo e Santa Catarina emergem como as unidades federativas com as exportações mais atingidas em termos percentuais, refletindo uma dependência maior do comércio exterior ou cadeias produtivas complexas que amplificam o impacto das tarifas.

Em 23 de julho, os EUA implementaram uma nova cobrança de 12,5% sobre produtos brasileiros, justificando a medida pela importação de bens produzidos com trabalho forçado. Em muitos casos, essa nova tarifa se soma à já existente de 25%, decorrente da investigação da Seção 301 sobre práticas comerciais consideradas injustas. Esse cenário complexo exige uma análise detalhada por estado para compreender a real dimensão do problema.

Ceará: Concentração e Vulnerabilidade nas Exportações

O estado do Ceará apresenta um dos cenários mais preocupantes. Aproximadamente 46% de suas vendas externas têm como destino os Estados Unidos, e um alarmante 91,3% de seu comércio com os americanos está sujeito a sobretaxas. Isso resulta em cerca de 42% de todas as exportações cearenses incidindo sobre tarifas. João Mário de França, pesquisador do FGV Ibre, explica que o Ceará foi particularmente afetado desde o início devido à forte concentração de sua pauta de exportação na indústria siderúrgica, já impactada pela Seção 232, e pela elevada dependência do mercado americano.

Além dos semimanufaturados de aço, outros produtos cearenses como mel, granito e calçados de borracha também sofrem com as tarifas. Apesar da forte dependência do mercado americano (seguido pelo México, com 7,1% das exportações), o grau de abertura da economia cearense, medido pela relação entre exportações e importações em relação ao PIB, é relativamente baixo, cerca de 9,8% (segundo estudo da Fipe de 2024). Contudo, Carlos Nathaniel Rocha Cavalcante, pesquisador da Fipe, ressalta que a complexidade da cadeia produtiva da siderurgia, que envolve energia, logística, insumos e serviços, faz com que um choque nas exportações de aço possa se propagar para outros setores da economia, trabalhadores e atividades portuárias e industriais.

Espírito Santo: Alta Abertura Comercial e Impacto Direto

O Espírito Santo se destaca por possuir o maior grau de abertura comercial entre os estados brasileiros, com exportações e importações representando 62,7% do seu PIB, de acordo com a Fipe. Nesse contexto, as tarifas americanas afetam 68,6% das exportações capixabas para os EUA, que, por sua vez, respondem por 27% de todas as suas vendas externas. Consequentemente, 18,5% do total das exportações do estado estão sujeitas às novas cobranças.

Antônio Ricardo Freislebem da Rocha, diretor-geral do Instituto Jones dos Santos Neves, enfatiza que a alta abertura comercial do estado, quase o dobro da média nacional, e o peso de certos produtos na pauta exportadora tornam a economia capixaba especialmente vulnerável. Os principais itens sobretaxados no Espírito Santo incluem semimanufaturados de ferro ou aço, pedras de cantaria e pastas químicas de madeira. Rocha pondera, no entanto, que o impacto das tarifas não implica necessariamente o fechamento do mercado, podendo haver a diversificação para outros países ou a manutenção dos EUA como compradores, especialmente para produtos onde o Brasil é um fornecedor único.

Santa Catarina: Diversidade Produtiva Sob Pressão

Santa Catarina figura em terceiro lugar no ranking dos estados mais prejudicados, com 9,7% de suas vendas totais impactadas pelas tarifas. O estado exporta 12,1% de seus produtos para os EUA, e 80,7% dessas exportações estão sujeitas a tarifas. A pauta exportadora catarinense afetada inclui madeira e peças para veículos automotores, como acessórios de carrocerias e freios. O grau de abertura econômica do estado também é considerável, atingindo 45,3%.

Outros Estados e o Impacto Desigual

Alagoas apresenta uma situação particular, com 98,4% de seu comércio total afetado por sobretaxas. O principal produto exportado aos EUA, o açúcar de cana, embora isento da tarifa de 12,5%, é taxado na alíquota de 25%. No último ano, as vendas dessa categoria somaram US$ 65,6 milhões.

São Paulo, o maior polo exportador do país, tem 41,5% de suas vendas aos EUA afetadas pelas tarifas. No entanto, o impacto final sobre as exportações totais paulistas é de 7,7%, beneficiado pela isenção de produtos da indústria aeronáutica e do suco de laranja. A dependência do comércio exterior paulista é de 21,7%.

Estados como Mato Grosso do Sul, Goiás e Mato Grosso estão entre os menos impactados, com percentuais de produtos tarifados em suas vendas totais de 1,4%, 1,2% e 0,2%, respectivamente. Apesar de possuírem graus de abertura elevados, esses estados se beneficiam pelo fato de as exportações de carne, seu principal item para os EUA, estarem isentas das tarifas.

Análise e Recomendações

João Mário de França, do FGV Ibre, destaca que a análise regional revela diferenças expressivas no impacto das tarifas, com o Centro-Oeste sendo menos afetado em comparação com o Nordeste. Essa disparidade reforça a necessidade de os estados mais atingidos intensificarem os esforços para diversificar tanto sua pauta exportadora quanto seus destinos comerciais.

A metodologia do levantamento considerou como “taxados” os itens com tributação em pelo menos uma das alíquotas (25% ou 12,5%), e como isentos apenas aqueles livres em ambas. A classificação baseou-se no Sistema Harmonizado de seis dígitos, um código universal para mercadorias, reconhecendo que a análise é uma estimativa, pois dentro de uma mesma categoria podem existir produtos isentos e taxados. A falta de uma tabela de conversão que compatibilize as especificações comerciais dos EUA (HTSUS) e do Brasil (NCM) limita a precisão absoluta do levantamento.

Palavras-chave secundárias: tarifas americanas, exportações brasileiras, impacto econômico estados.

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