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Tecnologia em sementes avança, mas informação precisa chegar ao campo

Tecnologia em sementes avança, mas informação precisa chegar ao campo

A semente moderna é um concentrado de tecnologia. Técnicas de melhoramento genético, biotecnologia e até mesmo a inovação da edição gênica estão transformando o potencial produtivo do campo. No entanto, o grande desafio reside em garantir que esse avanço tecnológico se traduza em desenvolvimento real para todo o setor agrícola. A missão de conectar a vanguarda da ciência com a prática no dia a dia do produtor é um dos pilares do 23º Congresso Brasileiro de Sementes, realizado em Foz do Iguaçu.

Fernando Augusto Henning, presidente da Associação Brasileira de Tecnologia de Sementes (Abrates), destaca a importância de ampliar o acesso ao conhecimento sobre essas tecnologias. “O importante, no entanto, é levar esse conhecimento a um número cada vez maior do setor e fazer com que o aproveitamento dessas tecnologias seja revertido em desenvolvimento”, afirma. O congresso busca abranger toda a cadeia produtiva, desde o pesquisador até o agricultor, discutindo temas em evidência e ampliando o público participante.

A fundadora da Abrates há 56 anos, Odete Liberal, com 99 anos de idade, relembrou a trajetória da entidade em sua abertura. Ela contrastou a comunicação por telegramas e linhas telefônicas fixas da época com a instantaneidade dos smartphones atuais. “Na época, se comunicavam inicialmente por telegramas, combinando o horário para que a conversa fosse continuada nas casas de telefone das cidades. Hoje, com os celulares, a comunicação é muito rápida”, observou. Liberal expressou o desejo de que as facilidades modernas incentivem ainda mais o diálogo e o aprendizado mútuo entre os participantes do congresso.

Desafios da cadeia produtiva de sementes

A Abrates, como uma associação que abrange todos os elos da cadeia – produtores, pesquisadores e estudantes –, tem como objetivo central promover discussões abrangentes. O congresso aborda temas distribuídos em quatro comitês técnicos: sementes e espécies forrageiras, análise de sementes, patologia de sementes, e sementes e espécies florestais. Essa estrutura demonstra a complexidade e a organização do setor.

Contudo, a inovação tecnológica não é o único ponto em pauta. Questões espinhosas como a propriedade intelectual e a valorização das novas cultivares também são centrais nas discussões. O mercado demonstra uma demanda crescente por soluções e novas tecnologias, mas, paradoxalmente, ainda enfrenta práticas de “salvar” e revender sementes, o que impacta o retorno financeiro das empresas desenvolvedoras. “É necessária, também, uma evolução do próprio mercado, permitindo um retorno financeiro às empresas, para que elas continuem gerando esses ativos”, explica Henning.

A edição gênica, por exemplo, uma tecnologia promissora desenvolvida em parte pela Embrapa, ainda não alcançou o mercado de forma consolidada. A ausência de um sistema claro de valoração para esses produtos é um obstáculo significativo. “E aí, como é que vai haver uma retroalimentação do sistema de pesquisa sem uma injeção de dinheiro?”, questiona o presidente da entidade, ressaltando a necessidade de um ciclo virtuoso entre investimento em pesquisa e retorno financeiro.

A lacuna na disseminação de conhecimento e a chegada de bioinsumos

Além da propriedade intelectual, a eficiência nos processos de colheita, secagem, beneficiamento e armazenamento de sementes é um desafio contínuo. Henning aponta uma deficiência na pesquisa universitária sobre esses temas, deixando um vácuo que as empresas tentam preencher com soluções diretas ao produtor. “Vejo que há um lapso temporal de geração de informação que de fato possa chegar e ser útil”, lamenta.

Um exemplo prático dessa lacuna é a chegada dos bioinsumos no tratamento de sementes. A falta de clareza sobre o controle de qualidade, o registro da eficiência e a forma como esses produtos atuam na fisiologia da semente – seja como bioativadores, biofungicidas ou bionematicidas – gera incerteza. “Não está claro para o produtor onde ele tem de buscar informações, e essas interações chegam ao mercado sem de fato serem muito estudadas. É um problema que vamos discutir aqui no congresso”, afirma.

O congresso também dedica atenção à precificação e à dinâmica mercadológica, incluindo a discussão sobre o pagamento de royalties. Essa abordagem é vista como crucial para evitar a estagnação do mercado, um cenário que, segundo Henning, já afeta a Argentina. “Precisamos cuidar para não caminharmos para isso”, alerta, enfatizando a importância de um ambiente de negócios saudável e justo.

A importância da legislação e da informação clara

A atualização legislativa e normativa é outro ponto crítico. Leis, decretos e instruções normativas precisam acompanhar o ritmo acelerado de mudanças do setor. O desafio de repassar informações de forma eficaz ao produtor e avaliar o impacto dessa comunicação é constante. “Há muito ruído no meio do caminho e, muitas vezes, faltam informações básicas que podem interferir na cadeia de produção, na propriedade intelectual, nas normas para testar novos produtos, novas cultivares e novos bioinsumos”, pontua Henning.

A semente, como matéria-prima essencial, encapsula anos de melhoramento genético, biotecnologia e inovações como a edição gênica e a transgenia. A qualidade da semente não apenas impulsiona a produtividade, mas também contribui para a agricultura de baixo carbono, otimizando o uso de fertilizantes e água por metro quadrado. “Ela evoluiu a passos largos e, quando eu uso semente de qualidade, eu entro também no mercado de baixo carbono, uma vez que a semente de qualidade é mais produtiva, oferece maior aproveitamento de adubo e de água por metro quadrado.”, conclui.

O 23º Congresso Brasileiro de Sementes, que se estende até sexta-feira (28) em Foz do Iguaçu, é um palco fundamental para que essas discussões alcancem o público necessário e impulsionem o futuro da agricultura brasileira.

O jornalista viajou a convite da Abrates.

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