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Tecnologia Nobel: Ar vira água potável com MOFs

Tecnologia Nobel: Ar vira água potável com MOFs, revolucionando o acesso em locais secos

Em um laboratório discreto em Londres, um arranjo intrincado de tambores rotativos, aquecedores e ventiladores representa a vanguarda de uma tecnologia promissora: a capacidade de transformar o ar em água potável. A startup britânica Ahbstra desenvolveu o Ark, um gerador de água atmosférica que utiliza estruturas metal-orgânicas (MOFs), a tecnologia vencedora do Prêmio Nobel, para extrair umidade do ar, mesmo em condições de baixa umidade. O lançamento oficial do equipamento, que promete ser um divisor de águas na gestão hídrica, ocorreu em Barcelona, marcando o início de uma nova era para o acesso à água.

O Ark, com seu design moderno e elegante, é capaz de coletar até 508 litros de água por dia. Essa quantidade é mais do que suficiente para uma família no Reino Unido e substancial para indivíduos em regiões de extrema seca, como os Emirados Árabes Unidos. Hashem Arouzi, fundador e CEO da Ahbstra, expressa otimismo sobre o potencial do Ark não apenas como uma solução hídrica, mas também como um componente de design para propriedades, acreditando que sua estética sofisticada dispensa a necessidade de ser escondido.

O potencial de mercado e a visão de futuro da Ahbstra

A Ahbstra visa transformar o setor de construção civil e imobiliário com sua inovadora tecnologia. Embora os primeiros compradores, incluindo o restaurante Jondal e investidores como Thomas Ermacora e Max Gottschalk, tenham investido cerca de 150 mil libras (aproximadamente R$ 1 milhão) por unidade, a visão de longo prazo é democratizar o acesso. A empresa planeja, através de rodadas subsequentes de financiamento e desenvolvimento, reduzir significativamente o preço do Ark, tornando-o mais acessível ao mercado de massa. Arouzi compara essa trajetória com a dos veículos elétricos, baterias domésticas e energia solar, onde a produção em escala levou à queda dos custos.

As metas de vendas para os próximos cinco anos superam mil unidades anuais, um indicativo da ambição da Ahbstra em popularizar a tecnologia. A expectativa é que, com o aumento da produção, o preço do Ark caia “significativamente”, seguindo um padrão já observado em outras tecnologias disruptivas.

A ciência por trás do Ark: MOFs e eficiência energética

A extração de umidade do ar não é um conceito novo; aparelhos de ar condicionado e desumidificadores já realizam essa função. No entanto, o diferencial da Ahbstra reside na quantidade de água que seu sistema consegue colher com menor consumo de energia. Testes realizados no Arizona demonstraram que o Ark colheu 384% mais água utilizando 0,7 kW/h em comparação com 1 kW/h de um sistema convencional de ponto de orvalho.

O segredo está nas estruturas metal-orgânicas (MOFs), descritas como “Lego molecular”. Esses nanomateriais possuem uma área de superfície interna vasta, permitindo capturar água do ar mesmo com níveis de umidade tão baixos quanto 10%. A pesquisa pioneira em “nova forma de arquitetura molecular” foi reconhecida com o Prêmio Nobel no ano passado. A Ahbstra utiliza oito tambores contendo MOFs, onde o ar é circulado para otimizar a extração e captura da água. Quatro tambores são dedicados à extração e os outros quatro à captura. Os tambores têm uma vida útil de 15 anos, com a necessidade de substituição a cada cinco anos mediante taxa de serviço, e os grânulos de MOF são reprocessados.

A empresa trabalhou em colaboração com a Cambridge Consultants, uma empresa de desenvolvimento tecnológico pertencente à Capgemini, para escalar a produção do Ark. Atualmente, a Ahbstra se posiciona como a primeira solução comercialmente disponível de colheita de água baseada em MOF nessa escala, oferecendo um sistema plug-and-play único no mercado.

O cenário competitivo e as aplicações futuras

O campo de monetização da tecnologia MOF está em ebulição, com dezenas de empresas buscando inovar. A Atoco, fundada por Omar Yaghi, um dos ganhadores do Nobel, está testando MOFs em sistemas que podem ser conectados ou desconectados da rede elétrica, aproveitando fontes de energia térmica residual. Essa diversidade de abordagens demonstra o imenso potencial das MOFs para diversas aplicações.

Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, elogia o avanço científico, prevendo a adoção dessas tecnologias em contextos específicos. “Residências remotas, resposta a emergências, operações humanitárias, comunidades insulares ou lugares onde o abastecimento convencional é pouco confiável ou ambientalmente prejudicial” são alguns dos cenários onde o Ark e tecnologias similares podem ter um impacto significativo.

Considerações energéticas e a inspiração por trás do projeto

A produção de 500 litros de água pelo Ark requer aproximadamente 10 kW de energia, um consumo comparável ao de uma residência grande. A Ahbstra sugere que a combinação de energia solar e da rede elétrica seria a configuração ideal para maximizar a eficiência e a sustentabilidade. A empresa já planeja reduzir o consumo de energia do Ark em 20% através de melhorias contínuas no hardware. “Sabemos que o uso de energia é uma consideração enorme para os clientes e estamos nos esforçando para reduzi-lo”, afirma Richard Perkin, diretor de tecnologia da Ahbstra.

A inspiração para Arouzi surgiu de uma experiência pessoal: um poço em sua propriedade em Ibiza secou. Na ilha, onde 15 mil casas dependem exclusivamente de poços ou de água entregue por caminhões, o Ark representa uma esperança para tornar propriedades mais resilientes às mudanças climáticas e à escassez hídrica. A tecnologia visa preparar residências e negócios para um futuro onde a disponibilidade de água pode ser cada vez mais incerta.

Água do ar: uma solução complementar, não definitiva

Apesar do entusiasmo gerado pela tecnologia de extração de água do ar, especialistas alertam que ela não é uma solução mágica para a crise hídrica global. Kaveh Madani ressalta que, em um mundo de crescente escassez, essas tecnologias devem ser vistas como parte de um conjunto maior de soluções. “Não é um substituto para vivermos dentro dos limites hídricos”, adverte Madani, enfatizando a importância de repensar o consumo e a gestão da água.

A reabilitação e modernização de sistemas hídricos antigos, como os qanats iranianos ou as cisternas em Túnis, também são cruciais. O World Monuments Fund (WMF) trabalha na restauração desses sistemas ancestrais, que foram testados e comprovados ao longo dos séculos. John Darlington, diretor de projetos do WMF para a Grã-Bretanha, destaca que a falta de investimento em infraestrutura hídrica acompanha o aumento da construção de moradias, e que as lições do passado precisam ser resgatadas.

O caminho para o mercado de massa e a resiliência hídrica

A Ahbstra está agora focada em sua primeira grande rodada de financiamento, buscando investidores institucionais e capitalistas de risco. O objetivo final, segundo Arouzi, é tornar o Ark uma marca acessível ao mercado de massa. O caminho de um preço inicial de 150 mil libras para uma oferta mais popular é longo, mas a empresa demonstra confiança no potencial de sua tecnologia. A inovação impulsionada pela ciência vencedora do Nobel oferece uma nova esperança para o acesso à água potável, especialmente em regiões onde a escassez é uma realidade premente, contribuindo para a resiliência e sustentabilidade em um planeta sob pressão hídrica.

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