Ticiana Rolim Queiroz: como superar barreiras e criar um negócio social com propósito
A história de Ticiana Rolim Queiroz é um poderoso testemunho de resiliência e visão empreendedora. Aos 17 anos, ao ouvir de seu pai, vice-presidente de um dos maiores conglomerados empresariais do Ceará, que “dos 12 netos, seis são homens. A gente vai colocá-los para trabalhar. Mas não se preocupe, as mulheres vão receber dinheiro a vida toda”, Ticiana sentiu o chão sumir. Essa frase, que refletia um modelo familiar e social patriarcal, não a silenciou, mas a impulsionou a romper barreiras e redefinir seu próprio destino.
A pesquisa “Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras”, do Estúdio Clarice, que entrevistou Ticiana, corrobora essa experiência: mulheres frequentemente são empurradas para fora de espaços de poder. No entanto, a determinação de Ticiana em buscar seu lugar no mundo a levou a questionar esse status quo. Ela iniciou vendendo bijuterias, recusando a mesada do pai e encontrando nas vendas não apenas uma fonte de renda, mas um senso de pertencimento e autonomia.
O início da jornada profissional e os desafios no mundo corporativo
Movida por uma “ânsia de fazer, estudar, me profissionalizar”, Ticiana aceitou um convite para trabalhar em uma corretora de seguros e intensificou seus estudos em administração. A necessidade de provar seu valor, seja na empresa da família ou em qualquer outro lugar, era um motor poderoso. Essa determinação logo foi reconhecida. Quatro anos após ouvir que seu gênero a impediria de atuar no grupo C.Rolim, ela foi convidada a liderar a construção de um shopping. Apesar das inseguranças e do receio de que um eventual fracasso fosse atribuído à sua condição de mulher, ela aceitou o desafio, após o pai garantir seu apoio e a contratação de um especialista. O projeto, após análise minuciosa, foi considerado inviável, mas a experiência foi valiosa.
Posteriormente, já formada e com um MBA em gestão de negócios, Ticiana assumiu a responsabilidade pela área comercial e de marketing da C.Rolim Engenharia. No entanto, esse avanço veio acompanhado de intensas dificuldades. “No sistema patriarcal que a gente vive, aquele processo de masculinização foi se intensificando”, relata. Ela observou que, para conquistar espaço em ambientes dominados por homens, muitas mulheres acabam por “copiar” comportamentos masculinos, uma constatação também presente na pesquisa do Estúdio Clarice, onde uma em cada três mulheres altera sua forma de falar e se vestir para ser ouvida.
Ticiana confessa ter mudado sua forma de vestir, tratar os outros e até falar, acreditando que precisava se comportar como um homem para ter seu espaço. Essa adaptação, contudo, gerou um profundo incômodo quando ela percebeu que estava internalizando o próprio sistema opressor. O medo de ser vista como um risco por engravidar e tirar licença-maternidade também a assombrava, mesmo após o nascimento de sua primeira filha.
A virada de chave: propósito e o nascimento do negócio social
A exaustão mental e o questionamento sobre o real propósito de sua carreira começaram a pesar. A morte de sua sogra em 2013 marcou um ponto de inflexão, intensificando suas reflexões sobre o sentido de sua vida. Buscando respostas, ela retornou à terapia e, em meio a diversas abordagens, encontrou o que descreve como “cura para sua alma” e a necessidade de “resgatar seu lado feminino”.
Embora continuasse na empresa familiar, Ticiana transformou sua liderança. Passou a valorizar mais o diálogo com os colaboradores e migrou da diretoria comercial para a de gente e impacto. Em vez de livros de gestão, mergulhou em títulos de autoconhecimento, em busca de algo que ainda não sabia definir. A resposta surgiu em 2017, ao ler “Um Mundo sem Pobreza”, de Muhammad Yunus. “Caí no choro e falei: ‘É isso, vou unir minha cabeça de negócios com o coração social'”, relembra. Essa epifania a levou a fundar a ONG Somos Um, uma holding social dedicada à filantropia estratégica.
Como o empreendedorismo social de Ticiana Rolim Queiroz impacta comunidades
A Somos Um atua na redução de desigualdades, com foco em empreendedorismo social e educação. Ticiana, utilizando sua experiência em gestão e sua nova visão de liderança, passou a empoderar outras mulheres. Em 2023, em colaboração com outras empresas, lançou o Zunne, um programa de investimento voltado para empreendedoras do Norte e Nordeste, com atenção especial a mulheres negras e indígenas.
Hoje, Ticiana lidera de uma maneira que contrasta com o modelo patriarcal que um dia a limitou. Sua abordagem é colaborativa e focada no impacto coletivo. “Ter poder é ser capaz de ser instrumento para mudar o coletivo. Achar que é para ficar mais rico e ter mais privilégios é um erro. Isso é egoísmo”, defende. Sua trajetória demonstra que é possível conciliar sucesso empresarial com um profundo compromisso social, rompendo ciclos e construindo um futuro mais justo e equitativo.
Principais lições da trajetória de Ticiana Rolim Queiroz
- Autoconhecimento: Buscar o entendimento de si mesmo é fundamental para alinhar carreira e propósito.
- Resiliência: Superar adversidades e preconceitos com determinação e estratégia.
- Liderança Transformadora: Adotar um modelo de gestão colaborativo e focado no impacto social.
- Empreendedorismo com Propósito: Unir habilidades de negócios com o desejo de gerar transformação social positiva.
- Empoderamento Feminino: Criar oportunidades e apoiar o desenvolvimento de outras mulheres.
A história de Ticiana Rolim Queiroz é uma inspiração para todos que buscam construir um legado significativo, provando que é possível não apenas alcançar o sucesso profissional, mas também utilizá-lo como ferramenta para o bem comum.
